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Foto: The Cat

 

 

Aviso prévio:

Este texto deve ser lido como um desabafo, no caso de ser lido, o que eu duvido, creio que nem isso seja útil.

É um desabafo só para comigo, porque quando escrevo desabafo que nem um doido desbragado. Só isso, nem o leia, não vale a pena.

Hoje em dia penso estar na posse de todas as faculdades, que me permitem afirmar que sei o que é ter o diabo no corpo. O Santanás, chamem-me um exorcista e virem-me a cabeça ao contrário, se faz favor.

Tenho andado irritado, quase inquieto, deixei de comer com regularidade, aquela cena das três em três horas, parece que tenho o diabo no corpo, mas também dentro do corpo.

O diabo é frio. De manhã, sobretudo.

Ele prende-me com uma âncora enorme, puxa-me para baixo, tapa-me e eu cedo. Depois, é tarde. 

Tem sido assim todo este santo mês, de horários que, ao contrário do habitual, até me permitem fazer mais coisas que não dormir, ficar na cama, de manhã, porque está frio.

O ano passado não era assim.

Levantava-me, saía para correr.

Há quatro dias, contando com o de hoje, que não corro, que não treino, que não faço nada que não seja dormir, trabalhar, andar nas redes sociais, dormir, voltar a dormir, tudo porque está frio.

(Também vejo Netflix, Youtube e leio, cada vez menos, confesso).

No ano passado, e no ano anterior não era assim.

Este mês fiz dois treinos de Muay Thai, certo que há quase um mês que ando à boleia, sem carro, mas há quatro dias, contando com hoje, que não corro.

A corrida tem sido o meu factor de equilíbrio, ao longo dos últimos quatro anos.

Nos últimos dois anos encontrei o nirvana, ao misturar a corrida com o Muay Thai.

A sensação que tenho é de desconforto, apesar de estar fora de causa uma qualquer desistência da causa (risos).

Desconforto, porque não treino regularmente Muay Thai há quase dois meses, desconforto porque não corro há quatro dias, contando com o de hoje.

Desconforto ou pré-estado-de-descompensação?

É mais isso (basta ver a fotografia).

Uma espécie de ressaca, é isso que sinto, a ausência de algo que sustenta, alimenta, ajuda, transporta.

Mas, isto acaba por ser uma-quase-sessão-de-masoquismo.

Como disse, em cima, esta semana até tive um horário que me permitiu correr.

Foi opção comodista.

Ainda há bocado disse à minha senhora: “ya, ganda corredor, não corro há quatro dias, contando com o de hoje, porque fiquei na cama, enquanto os outros continuam a fazer aquilo que gostam”.

Ao que, do alto da sua infinita paciência me respondeu: “também tens direito a ficar na cama, não és nenhum profissional e se isso te dá prazer, não sei porque não o faças”.

“Porque parece que estou adormecido, dormente, lá está, com o diabo no corpo”.

Mas, como sempre, ela tem razão.

Por isso estou para aqui a desabafar. A ressacar que nem um doido.

Isto faz mal a uma pessoa.

O ressacar.

O incrível é como é que me deixei chegar a este estado;

Provocar auto-sofrimento, auto-flagelar-me, credo.

Vou preparar a vingança, que a mochila está pronta desde terça feira.

Amanhã, quando sair do trabalho entrego o carro à dona, calço os ténis e, ai cum carago se não me vingo!

Nem que faça uma meia maratona partida em quatro.

Mas, vou vingar-me, isso vou.

Como disse no início, interesse este texto tem pouco, ou praticamente nenhum, mas sinto-me muito mais leve agora.

Lá está, leve (como uma pena é impossível), leve, corrida.

Aviso póstumo, que avisos prévios é no início:

Pimba, já foste(s)!

Só espero que não esteja frio!

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publicado às 23:04

A MINHA CABEÇA A ANDAR À RODA

por The Cat, em 15.01.17

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“O que é que andas aqui a fazer?”.

“Existo”.

“Este pode ser o ponto de partida. Partimos sempre para chegar”.

“Existo”.

“Como qualquer um de nós, também tu já imaginaste alguma vez encontrar o Santo Graal da vida”.

“Não, como poucos de nós, limito-me a existir”.

“Existir ou viver?”.

“Uma e a mesma coisa”.

“O Santo Graal da Vida, a sua busca, é a corrente que faz o rio fluir para a sua foz. O homem busca algo, busca a vida”.

“O homem busca algo na vida, ele não busca a vida, ele é incapaz de, apenas, existir.”.

“Isso torna-o em alguma coisa?”.

“Transforma-o em um indigente da alma, num pedaço de matéria, ávida por agarrar o Graal, que ninguém jamais agarrou, nem Jesus.

Era fake news, essa coisa do Cálice”.

“Estamos na era da pós-verdade, verdade?”.

“Mentira.

Estamos na era da mentira, da crueldade intelectual, na era das fake news, que matam as real news, que se misturam, em cumplicidades obscenas, em hard news híper-reais.

Mais que a era das fake news, vivemos a era das híper-real news”.

“E, dizes apenas que existes?!”

“Viver, existir é viver.

Começaste por perguntar o que andava aqui a fazer. Respondi-te: existo!”.

“E eu questionei se existir era viver!”.

“E eu respondi afirmativamente.

Insististes em puxar-me para o banal. O Santo Graal, o mal do mundo, que o mundo julga ser o seu mais precioso bem”.

“Achas, por isso, que a maldade existe?”.

“Não é a busca que move o homem, o homem que não vive, que não se dá conta que existe, a busca pelo seu Santo Graal personalizado?”.

“E, isso torna-o mau?”.

“Isso descompensa os tempos. Desde o início do tempo.

Abriga o pior do diabo.

Passeia-te pela política, senta-te na esplanada da Justiça, na bancada do futebol, liga-te, por segundos apenas, ao mundo virtual, espreita a janela das notícias, e vê se ainda lhes descobres as diferenças. Faz tudo isso”.

“Porque cada um busca o seu Santo Graal?”.

“E, perde a capacidade de olhar, a nada, olha a nada, e pisa, e passa por cima e por baixo, e chuta para o lado, e descarta, e empurra, e violenta, e viola, e infringe, e impune, sempre impune, mesmo no dia em que é algemado”.

“Isso era uma prisão da alma, pensar que a busca do Graal é o que move cada cabeça”.

“Vivemos, por dentro. Enquanto não nos limitarmos a existir”.

“Toca a utopia!”.

“Não é o Santo Graal isso mesmo?”.

“Depende, se tiveres um Porsche, uma casa enorme, uma conta bancária sem fundo, uma vida feliz, é isso mesmo, poder, ter”.

“E, não existes.

Morres por dentro, enquanto festejas por fora”.

“No fim, morremos todos!”.

“E, não acredito que alguém se volte a lembrar do Santo Graal, puta que o pariu!”.

 

 

 

 

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publicado às 23:27

RUNNING FOR CHITAS

por The Cat, em 12.12.16

 

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Recebi o convite por email.

Perguntavam-me se eu queria acompanhar um evento secreto, uma corrida sem rota, sem tempos para cumprir, sem competição, uma corrida secreta.

À partida não podia ir, informei por email, mas ia fazer os possíveis para estar presente.

Eu gosto de correr corridas especiais, só participo nessas, naquelas que me trazem conhecimento, me sensibilizam pelos seus propósitos, e esta, senti-o, era uma dessas corridas.

A #secretrun é por assim dizer uma empresa que só organiza corridas secretas, várias por ano.

Uma “subsidiária” da empresa-mãe, a “Correr Lisboa”, os “Vicentes”, que estão presentes em todas as corridas especiais.

Vi-me sempre obrigado a recusar os convites, por força da minha agenda profissional (nome pomposo para definir vida sem horários). A esta eu tinha que ir.

A chita é o animal mais veloz ao cimo da terra.

Mas, a chita, o mais veloz de todos, não conseguiu ser mais veloz que a voragem do homem.

Os caçadores destruíram o habitat natural, dizimaram a espécie, para oferecer casacos em pele natural às mulheres dos magnatas da morte.

São sete mil. Não são mais que sete mil, as chitas que existem no planeta.

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E, nós, sentados, nas redes sociais, em manobras de activismo virtual, assistindo à extinção de uma espécie, de mais uma, até que chegará o dia em que não conseguiremos ser velozes o suficiente, para corrermos da nossa própria extinção.

Talvez fossemos uns trinta felizardos, calçados com sapatilhas de correr e sorrisos de corredor.

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Felizardos, aqueles que desenrolaram o enigma e o decifraram, na página do Facebook da corrida.

Running For Chitas.

Só eu e a organização sabíamos onde a corrida ia terminar, porque é que íamos correr, e o nome da corrida. Mais ninguém.

Na verdade, o percurso só era conhecido do Bruno Claro, nem a mulher, a Sandra o conhecia.

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O Bruno e a Sandra são duas pessoas fantásticas que conheci nas corridas.

Estão em todas.

A Sandra dedica-se à empresa “Correr Lisboa” e à gestão dos eventos, o Bruno é o homem-chave do projecto. O planificador-mestre.

Fazem muito pela corrida.

Dão treinos quase todas os dias da semana, organizam eventos de corrida, participam em quase todos, divulgam a corrida nas redes sociais num registo tão positivo e apelativo, que só mesmo o mais insensível consegue não mostrar vontade de se juntar a eles.

São eles que também organizam as “Secret Run”.

O bruno recebeu os participantes, um grupo restrito de pessoas, na Quinta da Alfarrobeira, em São Domingos de Benfica, à hora marcada.

Não era uma hora certa; 15.36h.

O evento começava vinte minutos depois.

Os participantes foram recebidos por pessoas vestidas de negro, da cabeça aos pés, os pés denunciavam tudo, as sapatilhas de corrida davam um ar friendly ao ambiente de secretismo.

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Fomos informados que havia guias, não havia pressas, porque íamos parar várias vezes.

Saímos, depois de uma volta no interior da quinta (onde apenas um bloco de prédios divide a barulhenta cidade daquela quinta noutro lado qualquer, onde as árvores e os pássaros nos convidavam a não partir).

Saímos pelo grande portão verde da Quinta da Alfarrobeira, invadimos a esplanada do Califa, galgámos viadutos, atravessámos floresta, avistámos casais de namorados, velhinhos sentados em bancos de jardim, jovens pais em infantil perdição, enquanto corríamos.

Eu sabia para onde íamos, mas nunca o revelei, nem ao meu primeiro amigo, que conheci antes da partida, que as corridas provocam-me isto: amizade, antes e durante.

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Mais ninguém sabia.

Chegados à linha de fronteira, ou íamos para a Serafina, ou para a ponte 25 de Abril, ou para Sete-Rios.

Já com o grupo reorganizado, recomeçámos a corrida.

Virámos à esquerda, atravessámos vias-rápidas, estradas, passadeiras, sorrimos sempre, os automobilistas também.

Fomos pela zona dos autocarros, enquanto o fumo das castanhas deste Outono da vida nos entrava pelos pulmões dentro.

Observei as pessoas, naquela tarde de domingo, em passo de fim de tarde, rumo não sei onde.

Os portões em frente a nós eram grandes e verdes, como os da Quinta da Alfarrobeira, de onde tínhamos partido há cinco quilómetros.

Ali, nunca ninguém tinha corrido, ali, jamais alguém irá correr. Nós entrámos lá a correr.

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A corrida tomou o Jardim Zoológico de Lisboa. É lá que vive uma pequena comunidade de chitas, da já pequena comunidade de chitas.

A corrida era por elas.

A corrida era secreta, até aquele momento, em que entrámos no zoo, naquele fim de tarde, quando os animais começam a recolher, quando a noite os transporta para os continentes de onde vieram, onde deviam estar, mas estão a desaparecer.

O Jardim Zoológico de Lisboa é uma causa, em si.

Em boa-hora se associou a esta “Secret Run”.

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“Quando fizeram o convite para o Jardim Zoológico participar neste evento de sensibilização para a extinção das chitas, a propósito da Semana Mundial da Chita, vimo-nos obrigados a pensar, não era fácil abrir o zoo para uma corrida, junto aos animais”.

Mas, rapidamente Laura Dourado percebeu que esta era uma forma eficaz de dar a conhecer às pessoas a tragédia que só alguns parece estarem a assistir.

“Decidimos então aceitar esta parceria, para alertar para a extinção das chitas, ao mesmo tempo que promovemos o desporto, juntamente com a Secret Run”.

Laura correu durante todo o tempo na cabeça da corrida.

Mas, enquanto nós estávamos equipados para correr, Laura Dourado estava com botas, calças de ganga, camisola de gola alta e suor no rosto.

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No entanto acompanhou-nos ao longo das pontes, das subidas, dos jardins, dos leões, das hienas, das zebras, dos rinos, dos hipopótamos, das focas, dos macacos, dos linces, Laura não só não descolou da crew um único momento, como foi fundamental para as explicações que nos foram sendo dadas à medida que corríamos de um continente para o outro, dentro daquele jardim tão mágico.

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A ambiência inesquecível.

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Fim de tarde, cai a noite, há fumo no ar, será nevoeiro, outono apenas.

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O Jardim Zoológico é ainda mais mágico quando a noite cai e o silêncio só é cortado pelos risos das hienas.

Aposto que nunca tinha pensado nisto, praticar exercício no zoo.

Dificilmente conseguirá, por isso esta crónica é tão minuciosa, para que sinta a corrida como eu a senti, aceito alguma maldadezinha neste meu comentário, mas continuemos.

A “Secret Run” tem um sólido apoio da Reebok Portugal.

São parceiros. Por isso, Paula Dias, responsável pela marca, reforça tudo o que acaba de ser escrito:

“Sob os motes “Gym is Everywhere” e “ Be More Human”, a Reebok procura quotidianamente associar-se a eventos e embaixadores que refletem estas assinaturas.

A Secret Run é, assim, fruto da sua organização em parceria com a Correr Lisboa e destaca-se pela prática da corrida e de várias modalidades do fitness em locais onde, normalmente, a prática desportiva não está associada.

Os participantes têm, assim, acesso privilegiado e “secreto” a  locais inesperados, onde poderão praticar desporto, relembrando que este poderá ser feito por toda a parte, sem desculpas. Que é e deverá ser  uma atitude e estilo de vida, podendo estar presente sempre que a vontade o ditar.

Ser parte do que somos, quotidianamente, como qualquer outro hábito.

Nem só de ginásios e mensalidades se faz o bem-estar.

É esta a atitude que a Reebok assume e que todos os participantes da Secret Run puderam ontem experienciar no Jardim Zoológico de Lisboa.”.

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 No fim, já as chitas estavam a descansar, estas que o podem fazer, que outras correm nesta altura, pela própria vida, no fim, uma aula de Body Atack, junto ao coreto do zoo, já imaginou, depois de uma corrida destas, uma aula junto ao coreto do zoo, num ambiente irrepetível.

Nesta altura já eu ia a corer para o ponto de partida.

O carro tinha ficado na Quinta da Alfarrobeira.

Enquando os resantes felizardos terminavam o seu domingo em comunhão de abdominais, flexões, saltos e alongamentos, eu tinha-me feito à estrada.

Nunca tinha corrido em Lisboa sózinho.

Gosto de correr sózinho em Lisboa.

Lá fui eu, a correr, não fosse alguma chita decidir fugir.

É que eu não fui à aula de Body Atack, e não esqueço que a chita é o animal mais veloz do mundo, ainda mais veloz que eu, e está em extinção.

Disso não esqueço.

Depois, cheguei a casa e liguei a tv.

Ia começar o jogo da bola.

 

Agradecimentos:

Sandra Ramos Claro, Bruno Claro, Correr Lisboa, Secret Run, JDYoung – Letícia Gonçalves e Cátia rangel Santos, Reebok Portugal

Fotos. The Cat Run & Sandra Ramos Claro - Secret Run

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publicado às 22:53

 

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publicado às 14:12

ALICE E PEDAÇOS DE TUDO

por The Cat, em 30.11.16

 

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Dia 58

29/11/2016

 

Sobre adições...

 

Tenho passado muito tempo com Alice, nos últimos dias.

Não sei como tem sido com os outros membros da família, estamos a atravessar a fase da “família disfuncional”, no que diz respeito à conciliação de agendas e horários, isto passa, porque tem que passar.

Quando faço noites a vida não me corre de feição, perco-lhe o pulso, e como demora a recuperá-lo, mas passa. Não é nada pessoal.

Tem sido Alice a minha companhia mais próxima, nestes dias feitos noites, como agora, enquanto escrevo.

São duas e trinta e cinco da manhã, escuto Mariza e comovo-me. Eu nunca o disse, mas quando uma música me arrepia, comovo-me.

Alice, a minha companheira nas noites feitas dias, dorme na cama cor-de-rosa, na cozinha. Ontem passámos o dia um com o outro, hoje de novo, ainda estive tentado a ir treinar, mas só agora, quarenta e oito horas (mais) depois é que voltei a ter pernas.

Foi uma ideia que se me deu, até era capaz de arriscar, mas Alice merecia a minha companhia, e eu a dela.

Temos conversado muito.

 

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publicado às 09:45

ALICE E O FOGO INESQUECÍVEL

por The Cat, em 28.11.16

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Dia 57

28/11/2016

 

Sobre os elementos...

 

O meu dia de hoje tem sido passado assim, recebi a equipa da Vodafone, vieram reparar o que deixaram mal feito há mais de um ano.

Acordaram-me. Já não me lembrava que vinham.

Ganharam um cliente, no caso, não o perderam.

Feito o serviço, fiquei eu e a minha amiga Alice.

Arrisquei ir caminhar, mas decidi dar mais descanso ao corpo, sobretudo às pernas.

Depois de uma meia maratona as minhas pernas transformam-se em dois blocos de granito.

Alimentei-me bem, que uma sopa de feijão encarnado da dona Emília faz milagres, arrumei a casa, a cozinha, tratei da louça e de Alice e acendi a lareira.

A tarde foi passada assim, a escrever, à lareira, só eu e Alice, a matar saudades.

Foi num destes mometos, desta tarde tão minha, que captei o instante.

Depois de meter mais lenha a arder, foi depois disso.

Alice sentou-se, elegante e tranquila, bela e sedutora e, ali ficou, a contemplar o fogo inesquecível.

O momento.

Os momentos são os tijolos que sustentam a nossa vivência, aquilo que somos, no que nos tornámos.

E, lembrei-me de um poema.

Assim foi a minha tarde, um poema.

À noite vou trabalhar, até tarde.

Enquanto isso, sinto as festas de Alice nos meus dedos, Alice chamam-me.

Vamos dormir uma sesta, que a lareira arde e a sala está quente.

O fogo...

 

 

 

 

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publicado às 16:04

ALICE E OS SEU PRÓPRIOS PARALELISMOS

por The Cat, em 28.11.16

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Dia 56

27/11/2016

 

Sobre crescimento...

 

Um fim de semana ausente e foi o suficiente para perceber como Alice cresceu.

Cinquenta e seis dias são quase dois meses.

Todos os dias, alimentando, dando afecto, conselhos, ordens, ensinamentos, com Alice tem sido assim, assim todos os dias.

Mas, foi preciso sair um fim de semana para, depois de chegar, olhar Alice com outros olhos.

Não é apenas o seu comportamento que se altera diariamente, percebo agora que também o seu aspecto se vai modificando.

O pêlo é agora mais brilhante, uniforme, os laivos dourados brilham mais, quando o sol a aquece, os olhos, olhe de novo a fotografia, os olhos de Alice já nos mostram os olhos dos gatos, ora ao alto, rasgados, ora cheios, ou como agora, cerrados.

Alice fecha os olhos, lentamente, quando se prepara para se deitar no lugar cada vez mais habitual, nas minhas pernas, em cima do cobertor castanho.

Hoje, dei conta de como Alice cresceu. Ela já não é uma gatinha pequena, à beira do nada, só, que um dia caiu nos braços de uma menina, bonita.

Alice é, agora, uma menina, bonita.

 

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publicado às 15:44

ALICE ACORDOU CEDO PARA VER A TELEVISÃO

por The Cat, em 27.11.16

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FOTO BY CARLA MOITA - ÉVORA CITY

 

 

Dia 55

26/11/2016

 

Sábado foi a véspera da corrida.

Não me escapei, não nos escapámos para a sopa de cação, foi impossível.

Os gestos mais simples são aqueles que detalham os nossos caminhos, em boa hora não nos escapámos.

Como convidados oficiais do evento, o facto de termos anulado a nossa presença nos eventos oficias, na véspera da corrida, obrigava-nos a comparecer no jantar oficial.

Obrigava, não no sentido imperativo da palavra.

Descemos à hora acertada com o Marcos, encontrámos o Sérgio na recepção, juntaram-se a nós uns familiares dele e, o GPS foi o que nos guiou.

Encontrámos o convento, a pé, no exacto momento em que começou a chover.

Corrida molhada, corrida abençoada.

Na messe de oficiais, ousei repetir o lombo com farinheira e o arroz com sultanas, olhámos cara-a-cara com duas garrafas do Douro, que isto do território é mesmo assim.

Ouvimos Cante Alentejano, ao vivo, jantámos, escutámos os discursos e rimos.

É o que ficou.

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Estivemos com novos amigos, conversas agradáveis, gargalhadas, que é isto que daqui levamos.

Só pensámos em Alice noite dentro, ao chegar ao hotel, a poucos metros de tudo, menos dela.

“Está quase, amanhã corremos, vimos buscar as coisas e vamos para cima...”

“O que é que ela estará a fazer neste momento?”.

“Livre, está livre, tem todo aquele espaço para ela”,

“como nós temos todo este espaço para nós”.

Ultimamente, vou revelar o detalhe íntimo, temos adormecido a ver a série “Crown”, nos tablet.

É sobre a rainha de Inglaterra, sobre Churchill, e depois adormecemos.

Pegamos em Alice ao colo, um de nós, deitamo-la sob a sua cama cor-de-rosa.

“Até amanhã, Alice, dorme bem”.

Por vezes sai-nos a palavra “princesa”.

Alice passa metade do serão entre as minhas pernas, estendidas, estendida, enquanto vai fechando os olhos, lentamente, a outra metade do serão, no outro sofá, junto à Carla.

Eu pensava que, na nossa chegada, Alice fosse saltar, correr, e essas coisas, mas não, Alice é uma princesa, sem aspas.

Abriu os olhos, esticou-se, só depois veio até nós.

Cumpriu o ritual, embora tenha dormido mais tempo nas minhas pernas hoje, que habitualmente. Deve ser aquela palavra; saudade. Não tem tradução.

Não imagino o que terá feito na nossa ausência, enquanto corríamos, nem sei se teve forma de acompanhar a corrida, a nossa, na televisão.

Creio que deva ter dormido muito.

Como agora.

A nossa corrida não terminou hoje.

Nem a de Alice.

A nossa corrida é todos os dias, juntos, em cada subida, em cada descida, em cada meta, em cada partida.

E, que bom que é chegar.

 

 

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publicado às 21:06

ALICE NÃO SE IMPORTA

por The Cat, em 26.11.16

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Dia 54

25/11/2016

 

Alice está bem e recomenda-se.

Tem passado as últimas horas sozinha, a fazer aquilo que bem entende, não faço ideia do que ela anda a fazer.

Sei que está bem, porque a Cristina já passou lá por casa, como combinado, e já me mandou um sms.

O que aconteceu, nas horas seguidntes a termos saído de casa, a sensação do incompleto, de falta, saudade, até, não teve a ver com Alice, teve a ver com as ausências, ponto final.

Ontem custou um bocado.

Hoje já foi diferente.

Alice está com a liberdade que quer, não faz sentido, afinal estamos a horas de voltar, estarmos nós a pensar no ontem.

Posto isto, o nosso primeiro dia sem Alice por perto está a ser tão, mas tão relaxante, que parece, estamos a ressacar. Mas, não estamos.

Tal como acontece com as pessoas, as primeiras horas custam, depois habituamo-nos. Somos animais de hábitos, bem o sei.

Com os gatos deve ser parecido. Quando está connosco, Alice gere os minutos como quer, quantas vezes a chamo para perto de mim, e ela não vem.

Hábitos.

 

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publicado às 18:40

ALICE ACREDITA NUM MUNDO MELHOR

por The Cat, em 25.11.16

 

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Dia 53

24/11/2016

 

Sobre a soberba e a avareza...

 

Alice não nasceu num berço de ouro, a bem do rigor, Alice não nasceu sequer num berço.

A bem do rigor, Alice limitou-se a nascer.

Tudo o resto é esta história, que aqui conto, todos os dias, em tempo real.

Alice está tão grande, tão bonita, tão nossa, tanto, e é só isso que nos importan, que conta, vê-la assim, feliz, como nós, embora a vida não seja feita só de felicidade.

Não há milagres.

Há tentativas.

Alice não nasceu num berço de ouro, mas eu apanhei-lhe o telemóvel (acho que era o dela, espero não me ter enganado ou ainda arranjo aqui um incidente diplomatico-felino).

Alice trocava mensagens com uma qualquer outra gata, ou gato, na faço ideia.

Saiu a correr para o sofá e deixou o telemóvel em cima do balcão da cozinha.

A conversa começava desta forma:

“Olha, sabes o que eu gostava mesmo?”.

“Não?”

“De ter nascido num berço de ouro”.

“Mas, se tens nascido num berço de ouro agora não estavas com eles”.

“É verdade, amo-os tanto, até aos miúdos, que agora pouco me ligam, dado os seus afazeres, tratam-me tão bem, adoro dormir em cima das pernas deles, sinto amor, naquela casa, no ar, tens razão, mas gostava de ter experimentado, de ser uma gata daquelas imponentes”.

“Vês, para que precisavas tu de um berço de ouro, para quê?

Não é muito melhor assim?

Imponente”.

“É, é mesmo, tens razão…Achas-me imponente?”.

“Acho eu e acham-te eles.

Alice, bem sei que é por sms, mas deixa-me contar-te uma história de um gato meu amigo, a não ser que me mandes o teu email…”.

“Não tenho email, o meu dono ainda não o criou mas manda por sms”.

“Ok, então cá vai, vê lá se lês bem a história e se tiras essas ideias malucas da cabeça, tu és uma gata da rua, uma rafeira, renegar isso é recusares a ti própria”.

SMS:

 Zé (chamava-se assim porque nós, gatos(as) gostamos daquele som do zê), era um gato rico, debochado, vivia e gozava com os outros animais das redondezas. Era assim todos os dias.

Ele passava os dias sentado num grande cadeirão, cor carmim, em cima de umas almofadas da mesma cor, junto à lareira do solar, com vista para a rua".

Um dia, Zé, do alto do seu cadeirão fofo, espreitava pela janela, à lareira, como sempre.

Ele viu passar um gato, mais pobre, com um saco roto às costas.

Perguntou-lhe, lá do alto:

“Gato pobre, o que levas dentro desse saco sujo e roto?”.

O gato pobre respondeu:

“Que interesse tens tu nisso, és rico, estás junto à lareira, tens família e amor, que te interessa?

Eu nem te conheço, sequer”.

“Sois todos iguais, gatos da rua, se não dizes o que levas aí dentro é porque o roubaste”.

“Os gatos da rua roubam para sobreviver, e eu não roubei nada, tu, gato rico, tu só sabes gozar, achincalhar, minimizar os outros, pisar os outros, eu não roubei nada e não te vou mostrar nada, posso seguir o meu caminho?".

"Então mostra".

"Não, não mostro enquanto não me disseres porque queres ver o que levo no saco".

"Oh gato ppobre, por curiosidade, pá, para perceber melhor a vossa triste vida de rafeiro, diz lá vá, senão mando a matilha dos cães apanharem-te ali na esquina".

"Não levo nada, mas se queres, eu mostro-te".

O gato da rua abriu o saco velho e roto.

De lá tirou um papel.

Subiu a parede, que os gatos também sobem paredes, e entregou o papel na pata do gato Zé, o gato rico.

Zé, enconstou-se no cadeirão carmim, desdobrou o papel e leu-o:

"Se não és o herói da tua própria história, então estás a perder todo o teu sentido de humanidade."

Zé olhou para a rua, de novo.

Cá debaixo, o gato vadio piscou-lhe o olho.

"Posso ir, agora?".

"Agora podes", respondeu o gato rico.

"Aprendeste alguma coisa?".

"Creio que sim, por agora, estou apenas envergonhado".

"As ruas, para mim, não têm nome...".

"Como tu?".

"Não, eu tenho nome, mas não te o digo".

"Porquê?".

"Porque já te mostrei o que levava dentro do meu saco".

"Um papel...".

"Sim, um papel, ou não será isso que todos andamos a fazer na terra, a cumprir um papel?".

"És capaz de ter razão, gato vadio".

"Prefiro que me chames assim", e partiu.

Alice ainda não sabe que lhe espreitei o telemóvel, mas pelo sim, pelo não, guardei a conversa entre ela e alguém, do outro lado.

Guardei a história.

Dá-me jeito.

As ruas não têm nome, tal como o gato vadio.

Qualquer um de nós tem dentro de si qualquer coisa de muito valioso, tal como o gato vadio tinha dentro do seu saco.

A mensagem fica guardada.

Espero que Alice nunca descubra!

A avareza e a soberba são nomes que são difíceis de pronunciar, só por isso, por mais nada!

A humanidade não está doente.

Apenas lhe falta alguma "mankind"!

É por isso que aqui deixo este vídeo, com o qual tive contacto há uns dez anos.

Todos os anos o publico, porque me toca, porque me aperta.

Foi esta a mensagem que o gato pobre deixou ao gato rico, a mensagem que eu gostava que Alice visse.

Vai ver, vai ver, senão eu mostro-lhe.

Mankind Is No Island.

A misericórdia não é uma ilha.

Tende um bom fim de semana, em paz.

Em meu nome e em nome da minha Alice, que tanto amo.

SIm, eu amo.

 

 

 

 

 

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publicado às 17:02


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