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No final da meia maratona da Guarda fiz menos dois minutos do que uma semana antes, em Lisboa.

Porque tudo o que sobe também desce.

Só que isso é o que menos conta no resto desta história.

Irritei-me uma meia dúzia de vezes.

Olhava em frente, mais uma subida, sempre mais uma subida.

Roguei pragas, vi-me obrigado a definir uma estratégia, caminhas quando sobes, corres rápido quando desces.

Só parei numa rotunda, para dar uma entrevista, em directo. Siga.

Foi numa dessas subidas, a maior de todas, que percebi o fim que ia ter.

Olhava para a frente e vinham todos a descer, enquanto eu subia, aparentemente sozinho.

Olhava para trás e continuava a não ver ninguém.

Voltava o mesmo pensamento, “há-de haver gente atrás de mim”.

E havia, mas não eram corredores.

Percebi que a corrida, apesar de tudo, não estava mal, ia no meu ritmo habitual, ia a divertir-me, a apreciar as pessoas, as ruas, as paisagens.

Valeram-me as descidas, ai não!

Eis quando, volto a olhar para trás, porque a moto da PSP ia já a meu lado, e vejo o carro dos bombeiros. E, a subida. Ia a meio, sensivelmente.

Lá em cima, o ponto de retorno, para o que restava da corrida.

Feito, sou o último.

O motociclista da PSP confirma.

Fomos conversando sobre o assunto, e o discurso dele não era animador.

“Agora é sempre a descer, certo?”, perguntei eu.

“Mais ou menos”, respondeu-me, com aquele sotaque delicioso das beiras.

“Desce agora, depois entra no bairro, sobe a avenida...”.

“Não acredito, sobe? Mais uma subida, só subidas...”.

Não satisfeito, respondeu-me, com um sorriso por trás da viseira, “antes da ponte pedonal tem mais uma subida, junto a rotunda e depois é que é a direito”.

Pensei, se sou o Embaixador da corrida, do circuito, se sou o último, nesta corrida experimental, nesta experiência emocional, então vou aproveitar para baixar o tempo, não tenho pressão.

Pois não!

“Vamos lá companheiro, mais rápido, temos que almoçar”.

A voz saiu de um megafone. Assustou-me, porque ecoou por cima da música que ia a ouvir nos phones.

Os bombeiros divertiam-se. Nunca tinham visto um último, assim.

“Calma, meter pressão não”, gritei-lhes, bem disposto, mas meio a sério.

Detesto correr sob pressão.

“Já viu isto, era o que me faltava, vou aqui a tentar ser o último, sou o último, não sou?”, perguntei ao meu companheiro que seguia de mota (o que prova que não sou assim tão lento).

“Pelos vistos é!”.

“Então já viu isto, eu aqui a correr, a querer ser o último e eles a pressionarem, ouça, depois vai ter que ler o texto no meu blog”.

O meu companheiro da PSP limitou-se a sorrir.

Faltavam três quilómetros para a meta, ia baixar o tempo, ia ser o último.

Na rotunda, a tal que me levava à última subida, um colaborador da organização disse-me;

“Vamos lá, no fim vão ter uma surpresa”.

Vão, porque nessa altura já era-mos dois a correr, mas isso foi uns dois quilómetros depois disto.

Faltavam, portanto, cinco quilómetros (dois, mais os outros três, da rotunda, mais à frente), quando vejo, espantado, dois tipos a correr à minha frente.

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Horas antes tinha passado ali, de carro. Era a descer.

“Sr. Guarda, temos que fazer alguma coisa, não andei nisto duas horas para agora morrer na praia, prenda os gajos”.

Ele riu, que eu ouvi a gargalhada.

Um dos dois decidiu ganhar asas e voou.

Perdi-o de vista, sobrava um.

Um só, para me estragar a festa.

Só tinha uma alternativa, naqueles cinco quilómetros finais, convencer o jovem corredor que tinha que ser penúltimo, infelizmente, aquela posição que não é carne nem é peixe.

Ao início a conversa pareceu estranha.

Acelerei, juntei-me a ele, abrandei, porque ele ia, e foi, em dificuldades.

Coxeava.

“Então, vamos lá, falta pouco”, disse eu, que quebro o gelo logo no primeiro instante.

Contou-me, então, a sua história.

Tinha ido a Lisboa ver o Benfica, nunca tinha corrido uma meia maratona, não corria há anos, quase não tinha dormido, ainda por cima tinha uma dor na perna.

Pensei com os meus botões imaginários, estou lixado, vou fazer o pior tempo da minha vida, mas não posso deixá-lo ser o último.

“Vamos lá, a rotunda está ali, vamos devagarinho, subimos aquilo, e depois é um pulinho”.

“Não, vá você”, respondeu-me.

Foi aí que tive que abrir o jogo.

Depois de o tal colaborador nos assinalar a subida, e nos ter dito que havia uma surpresa na meta, já a faltar apenas três quilómetros para o fim, vi-me forçado a contar-lhe os meus planos.

Os bombeiros já não pressionavam, o agente motard apenas nos observava, enquanto nos acompanhava.

Seguiam a história, ao vivo.

Seguimos juntos, ritmo lento.

“Vamos, falta quase um quilómetro”, incentivei-o.

Só que o esforço era tanto, que começou a caminhar, “mau, já não vamos ser amigos no Facebook, nem vamos tirar uma foto, no fim. Vamos, vamos, embora lá, vá”, disse eu, meio desesperado.

Tentativa de chantagem psicológica: “Bruno, ninguém caminha no último quilómetro. Vamos devagar. Tem que ser, Bruno, se não caminhar vou fazer melhor tempo que na semana passada, vá lá Bruno, dá lá uma ajuda”.

E, ele foi.

Correu comigo, a coxear, enquanto eu o incentivava até ao limite.

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“Bora, Bruno, a seguir à curva é a meta, meu, olha lá, já se vê, bora...”.

E, ele foi.

Ao fazer a curva disse-lhe, “tens que cortar a meta à minha frente”.

E, a meta estava ali à nossa frente.

As pessoas que nos incentivaram, na curva, que nos deram as suas palmas, e os seus gritos de apoio e os seus sorrisos, provocaram em mim aquela sensação incontrolável, sempre que termino uma corrida, enchi-me de emoção, por todo o lado.

O Bruno continuava a meu lado, continuava ao meu lado.

E, a meta ali à nossa frente.

E as pessoas, a gente, as gentes.

Foi nessa altura, já mesmo no fim, que pensei em dois momentos da corrida;

naquela subida alucinante, quando olhei para trás e percebi que era o último.

Ninguém à minha frente, não os via, ninguém atrás de mim, não os havia.

A sensação de ser aquele que mais ninguém é, isolamento, contemplação, tempo para tudo, até para correr.

Recordo as caras de espanto dos bombeiros, dentro do carro que seguia a fechar o pelotão.

Eu ia bem, e normalmente o último vai a arrastar-se.

“Bora lá chefe, nada de abrandar”. Eles sabem-na toda.

E, o segundo momento, aquele em que avistei o Bruno, “porra, senhor agente, aquele vai ali e vai estragar-me a história toda, no limite, o meu amigo prende-o a cem metros da meta, não fiz isto tudo para morrer na praia”.

O meu amigo agente motard (ele e os bombeiros, homens da pressão) sorriu-me, como sempre. Anuiu, entendi eu.

“Bruno, agora vai sozinho, eu chego logo a seguir”, mas ele já não conseguia mais.

Gritei-lhe; “Bruno, ninguém corta a meta a caminhar, corre”.

Ele correu.

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Fiquei só, a poucos metros da meta.

O que é que me lembro?

Lembro-me de ter a certeza que, apesar das subidas diabólicas, o tempo até ia se melhor que na meia maratona anterior, mais plana, mas isso era a última preocupação, naquele momento fantástico, que me obriguei a viver.

Lembro-me de haver ainda muitas pessoas, de um lado e do outro da passadeira final, a aplaudirem, a incentivarem, a tirar fotos, a filmar, algumas riam.

Foi o terceiro momento da corrida, que quero que seja o último, aquele que mais importa.

Cruzei a meta como um campeão, porque foi assim que me senti, com as atenções toas viradas para mim, o último.

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Emociono-me sempre que passo uma meta.

A Carla apareceu, até filmou a chegada do último Embaixador, o Paulo apareceu, o Bruno virou-se para trás.

Abraçámo-nos.

O resto, pertence ao sabor da emoção.

Acho que cumpri bem o meu papel.

É impossível ser o primeiro numa corrida. Mesmo que corra apenas contra mim próprio.

Mas, ser último é uma opção só minha.

E, acredite, dá imenso trabalho, mas sabe como se fosse o primeiro.

Coisas de gente louca.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 11:03

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Nunca fui o primeiro em nada, que me lembre, assim de repente.

Se pensar um pouco, talvez tenha sido primeiro em qualquer coisa, uma ou outra vez, mas não é esse o enfoque. Antes pelo contrário. É a antítese.

Último.

Último nunca fui, em nada na vida, tenho tido uma sorte do caraças.

Na verdade, acho que não conheço alguém que tenha sido, admitido, provado, sei lá, ter sido, ter ficado em último, em alguma coisa.

O mais perto que estive de ser último foi quando entrei para o curso de jornalismo.

Fui o décimo terceiro e o curso só tinha doze vagas.

Lá está, tive a sorte do décimo segundo ser dos Açores e ter desistido.

Fui o último a entrar, mas entrei, por isso não conta, acho eu.

O que conta é que fui, diria, impelido, não é bem este o termo, mas serve, impelido a ser o Embaixador oficial do circuito (EDP) Running Wonders 2017, meias maratonas em património da UNESCO.

Impelido não é o termo porque, em primeiro lugar, nunca imaginei ser embaixador do que quer que fosse, em segundo lugar, porque adorei o convite, que aceitei sem hesitar, e em terceiro lugar, porque até sou capa da revista oficial do circuito.

Em vinte e cinco anos de carreira nunca fui capa de coisa nenhuma.

Pois bem, é uma responsabilidade do caraças, mas também é uma forma de participação cívica, através das corridas, do desporto e da valiosa cultura portuguesa (ou parte dela).

Spread the word.

Fazia por isso sentido estrear-me na primeira corrida de forma marcante, pelo menos para mim, porque cada corrida que faço é uma viagem que completo dentro ao meu eu. Gosto, ponto. Viajo.

Mais,

Temos a mania de falar dos outros – eu tenho – umas vezes bem, outras mal, sem nunca calçar os seus sapatos.

Eu faço isto, eu sou aquilo, eu tenho isto, eu posso aquilo, mas nunca olhamos para o caminho que os outros pisam, eu não o faço regularmente, confesso, e devia.

Pois bem, assim pensei, assim fiz.

É uma minoria elevado ao expoente máximo. O último.

Nunca ninguém dá importância ao último.

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Ele é a minoria, personificada num só, o último.

Quando o último corta a meta já os primeiros celebraram a vitória, já os voluntários e o staff se preparam para desmontar a festa, já quase não há corredores, em redor, mas ainda há gente nas bermas, nas curvas, nas subidas, na chegada, ainda há palmas e muito mais que isso. Há empurrões à alma e às pernas.

Nunca tinha sido o último em nada, fui-o lá no alto, na Guarda, até a Serra eu vi, pintada de branco nos topos. Há registos disso.

E, estava bom, estava fresco, havia muita gente.

Foi a forma que encontrei de ser um Embaixador marcante, mas foi mais que isso, foi querer sentir e querer perceber aquilo que sente o último, como o olham, como ele se olha, como ele se desafia, a si próprio, ao ponto de ser o último.

O que lhe passa pela cabeça, pelo coração e pelas veias.

Um exercício útil, naquele contexto que é o da condição humana, porque as minhas corridas são experiências marcantes e boas.

Não sou um corredor rápido.

Sou um tipo que gosta de correr, e de muitas outras coisas mais.

Confesso, já tentei uma vez ser último numa meia maratona, mas há sempre alguém, muitos, que ainda são mais lentos do que eu, não me permitindo por isso estragar as minhas marcas, que também as tenho.

Esses, normalmente, arrastam-se, num prazer penoso, de penitência dissimulada.

Não dá, terminar uma meia maratona com duas horas e meia ou três horas. Era abusar, admito.

Mas, na Guarda, na estreia do circuito, lá no alto, onde o ar é em menor quantidade, era o momento ideal.

A ideia surgiu-me na véspera, enquanto treinava no ginásio do hotel onde fiquei.

Como Embaixador tenho um ou outro privilégio, como por exemplo partir onde e quando quiser.

Não tenho, mas pronto, escapei à segurança e fiz-me ao lance, resultou.

Fomos beber um café, quinze minutos antes da partida, enquanto milhares de pessoas faziam o aquecimento ao som de uma música que ainda não era por mim apreciada, não por nada, só porque ainda passava pouco das dez da manhã.

E, ainda só ia no segundo café do dia.

Tirámos umas fotos, demos uns abraços, conversámos, rimos, acertámos as app´s para a corrida. Tudo pronto.

Nessa altura, como sempre, já tinha gafanhotos dentro da barriga.

Obviamente, fico nervoso nos momentos antes da partida. A pessoa tem sentimentos.

Sou sempre invadido por uma espécie de orgasmo cósmico (nunca tive um), tipo comecem lá a correr, que eu quero ir, mas é já. Um vertigem. Cenas.

Havia uma viagem para fazer.

Soou o tiro de partida.

“Viva, bom dia”, disse, sorrindo, ao presidente da câmara, “vire-me essa pistola para lá”, fiquei receoso, com aquele dedo ali encostado ao gatilho, e a pistola virada para mim, quando distraidamente me saudou, acenando-me, bem junto à minha cabeça, cruz credo!

Nisto, já a meia maratona tinha partido, os dos dez e dos oito quilómetros também, e os da caminhada preparavam-se para entupir as ruas imediatas à partida.

Naquele momento não percebi quem era quem, apenas comecei a dar conta quando comecei a correr.

Misturado com aquelas pessoas, corri, fui correndo, correndo, até a multidão se dissipar, o que aconteceu uns quatro ou cinco quilómetros depois.

Aos dez quilómetros percebi, finamente, quem era quem.

Eles seguiam pela direita, nós os da meia, pela esquerda.

Faltavam onze quilómetros.

Olhei para trás, ninguém.

Tranquilo, há-de haver alguém que vai aparecer lá atrás, daqui nada.

Neste contexto, solitário, dei comigo a pensar que ia fazer um tempo igual ou pior ao da última meia maratona, uma semana antes. Tranquilo. Ia bem, a gozar a corrida, tranquilo.

Neste contexto, quer dizer, dois terços da corrida eram a subir, ainda mais, e eu fui convencido, ingénuo, que a corrida era quase toda a descer. Cenas.

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Arrependo-me, agora, tarde demais, de não ter aceite o convite do campeão Paulo Gomes, que até é dali, para ter ido reconhecer o percurso, na véspera.

Valeram-me as descidas, que tudo o que sobe, também desce.

Assim foi, até ao fim.

Bom, não foi só assim, mas isso fica para outro texto (e mais fotos e vídeo) daqui a uma meia hora.

Resto de boa manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 10:32


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