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THE GODFATHER

por The Cat, em 25.03.17

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Fazia algum tempo em que não apresentava notícias.

Por força das circunstâncias, vi-me a apresentar o noticiário da meia noite.

As circunstâncias que referi são simples, as tarefas e funções profissionais que me estão atribuídas, são em tudo diferentes da apresentação, sem elas não havia apresentação, basicamente é isto.

Por isso, nas funções de edição de telejornais há coisas que nos passam, força das coisas em que temos que estar concentrados.

Uma imagem, um som, um framezinho.

É o caso de uma notícia que apresentei, ontem, mas que pode ser de um dia qualquer.

Uma notícia que me chocou, de verdade, que me obrigou a usar algumas das ferramentas que estes anos de profissão me deram.

Um menino foi descoberto, no Iraque, por um soldado, e tinha com ele, à cintura, um cinto de explosivos prontos a rebentar.

O menino estava no meio de uma multidão.

O menino chamava-se Uday, até fui pesquisar e tudo.

Chamava-se Uday, mas tinha cara de Rodrigo, de João, de Ruben, de Pedro, de Zé, de Paulo, tinha cara de menino.

O noticiário acabou, fui buscar os meus filhos, deitei-me lá pelas quase quatro da manhã.

Pelas oito e meia já ia a caminho de um compromisso sério.

E, levei durante a minha viagem, aquela imagem, aquele depoimento, que na noite anterior tanto me tinha chocado.

Talvez eu esteja a ficar meio afectado com esta coisa do bem, do belo, do amor. Talvez seja ainda coisas de África. Talvez ande a trocar as cores dos comprimidos.

Talvez.

Mas, aqui sentado, continuo a não encontrar uma única peça que caiba no puzzle do macabro.

Não é um ser humano que mete um cinto com explosivos, numa criança com os seus seis anos, camisola blue do Chelsea, para se fazer explodir.

É um sub-humano.

Foi o tio que mandou. O tio ISIS, vi eu e ouvi, o menino a dizer.

Hoje de manhã, quando cheguei ao meu destino, que todos temos o nosso destino, pelas nove e pouco desta brutal e bela manhã, comecei a perceber, de uma vez por todas, que não, não estou nada apanhado por isto do “bem”, do amor, do dar, do todo, porque é isso que todos somos, um todo.

Rigorosamente nada.

Estou feliz, muito mais que ontem.

Chegado ao meu destino, que todos temos o nosso destino, fiquei rodeado de amigos, vi-me num ambiente de família, de coisas bonitas, como diria Artur Jorge (esta é só para entendidos), rodeado de gente do bem.

Gente do abraço, gente do sorriso, gente da partilha, gente do coração, gente da paixão, gente como eu.

Não conversei com ninguém sobre aquela notícia que descarna a condição humana, conversei muito, sobre nós, sobre o todo.

Não podia falhar o compromisso. Era sério.

Deram-me a honra, porque não encontro palavra mais humilde para descrever aquilo que me foi dado, de ser o padrinho do circuito EDP Running Wonders 2017.

Foi, nessa qualidade, que tive que apresentar oficialmente o circuito das meias-maratonas em cidades património mundial, esta manhã.

Não, não tive sono.

Tive amigos que não via há muito, outros que conheci hoje, tive uma manhã com o rio ali mesmo a meus olhos.

Vi várias vezes o rio, durante as minhas intervenções. Olhei-o vezes sem conta. E, imaginei.

Nesse papel, o de padrinho do circuito, coisa pouca, logo eu, até tremo, a responsabilidade que sinto é exactamente aquela que sinto sempre que abraço uma causa.

Quando abraço uma causa, ela tem que me atrair, puxar para ela, identificar-me com ela, conhecê-la, para me dar, para fazer parte.

Dar.

É isso que os homens de bem fazem.

Dão exemplos.

Foi no meio deles que, hoje, esqueci aquela notícia que não me deixou dormir.

Os extremos. Os extremistas. Eles de um lado, nós do outro.

Um mundo e o outro.

E, demos abraços.

E, vimos os sorrisos dos nossos meninos.

E, criámos.

E, sentimos.

E, foi um sábado feliz.

A guerra não mora nos nossos corações.

Somos, então, homens de bem, ou apenas um bando de lunáticos, que acham que podem contribuir um tudo nada para um mundo diferente.

Somos uma e outra coisa, porque mal já o mundo tem tanto...

Isso é o que nos fica.

A primeira corrida do circuito é no fim de semana que vem, na Guarda.

Óh da guarda...

Trate-me por padrinho, se não se importa.

Por embaixador, não a mim, a ele.

Ele é que é o embaixador.

Agradecido.

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publicado às 17:57


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