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ALICE JORNALIS(T)A

por The Cat, em 30.10.16

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Dia 29

29/10/2016

 

 Sobre coisas tecnológicas...

 

Alice ficou de castigo, pela primeira vez na vida.

Alice devia ter falado, conversado comigo, e eu ter-lhe-ia explicado como e onde podia ir ter umas luzes de jornalismo.

Não o fez, foi castigada.

Vamos aos factos:

Alice estragou-me a tecla “T” do teclado do macbook.

Nos últimos dias tenho-a avisado; não anda em cima do teclado.

Quer ler, escrever, relatar, noticiar, conversemos, não é assim.

Já deu para perceber que Alice tem total liberdade par andar pela casa, há uns dias a esta parte.

Tem-se portado bem.

Mas, hoje, ficou de castigo.

Ainda que tenha durado pouco tempo.

Alice salta para cima do sofá, vinda do nada.

Dá um toque no computador, volta para o chão.

Não se entende com o computador, apesar dos meus apelos; Alice vai para junto da dona, ela tem o tablet, também é giro (acredite, não faz ideia da força que tenho que fazer na tecla, sempre que preciso de escrever um “T”, e já o fiz 23 vezes, ao longo do texto, para além de quanto isto me vai custar a arranjar) .

Alice estava em cima das costas do sofá, sentada, a olhar fixamente para o que eu estava a escrever, ou, provavelmente, em posição, a aguardar o momento de saltar, por causa dos movimentos dos meus dedos.

Acredito na primeira hipótese, estaria a ler o que escrevo. A aprender.

A vida de Alice tem sido uma aprendizagem, como a minha, como a vida de quem vive.

Em vez de perguntar, não, atirou-se de rompante para o sofá.

Saltou para cima do teclado. Irritou-me, porque não gosto, detesto que me interrompam, enquanto escrevo.

Peguei em Alice com a mão direita, levantei-a, coloquei-a no chão e em voz alta disse: Alice, no computador não, fica no chão.

Alice insistiu.

Pensei, como em outras vezes, que acabaria por descansar e parar.

Mau mesmo foi quando coloquei, de novo, os olhos no teclado.

A letra “T” estava esventrada.

O teclado avariado, sem o “T” em condições, o que me obriga a carregar na tecla com mais força e, por simpatia, carrego em todas as outras que estão boas, com igual força.

Meti Alice no chão, ordenei com voz firma que fosse para a cozinha, ela foi, fechei a porta.

Coloquei os phones e continuei, irritado, confesso, a escrever o texto.

“Estás a ouvir a Alice a miar?”:

Tirei os phones, Alice estava a miar, pela primeira vez usava o som para comunicar.

Alice miou pela primeira vez como uma gata deve miar.

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Provavelmente, magoada, triste, mal habituada, habituada a estar junto de nós todas as noites, ao ponto de adormecer envolta numa quente ternura, e ainda nem acendemos a lareira da sala.

Coloquei os phones, continuei a escrever.

Tenho a tecla “T” avariada, esventrada, porque quando peguei em Alice, para a tirar de cima do teclado a unha ficou presa na tecla “T” e levantou-a.

Nem quero pensar quanto me vai custar arranjar isto.

Todos os meses tenho “extras” para pagar, ou é o IMI; ou a revisão, ou os dois, ou o teclado do macbook.

Já abri a porta da cozinha.

Não lhe resisti ao miar. Nunca a tinha ouvido a falar connosco, como que a pedir: abram-me a porta, que eu porto.me be.".

Não lhe resisto nunca. Não ia ser desta vez.

Alice está agora a brincar com os phones.

Não tem problema, custaram 2 euros e 50, no chinês.

Amanhã passo lá, a ver se eles têm a tecla “T” para o macbook e compro outros phones, se calhar cor-de-rosa.

Não quero ser o responsável por Alice se desviar do seu sonho.

Ela quer ser jornalista.

E um(a) jornalista sem "T" não passa de uma jornalisa.

Com ou sem teclado.

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publicado às 23:38

AS FOLGAS DE ALICE

por The Cat, em 30.10.16

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Dia 28

28/10/2016

 

Sobre hábitos...

 

Foram quatro dias de folga que passaram muito rápido.

As minhas folgas, normalmente, são espremidas até ao tutano, aproveito-as o mais que posso. É aqui que me recarrego para o que há-de vir.

Guardo tempo para mim, passo-o como me apetece, como faço todos os dias, nas folgas mais um pouco do que é habitual.

Gosto de acordar à hora que me apetecer, gosto de ir ver as redes sociais, ainda na cama, gosto de vaguear pela casa, cheio de tarefas invisíveis, em círculos.

Gosto de abrir as janelas e deixar entrar o sol morno pela casa.

Gosto de me atirar para o sofá e ficar sem fazer nada.

Gosto de esperar que me dê fome para tomar o pequeno-almoço, gosto de esperar que me dê vontade de ir correr, gosto de esperar que me dê vontade de escrever, gosto de esperar que me dê vontade de ir beber um café e comer um pastel de nata, gosto de esperar que me dê vontade de pegar na minha mota e passear um pouco.

Gosto que me dê vontade, só depois faço, assim são as minhas folgas.

Geralmente passo longo tempo em casa. Em casa sinto-me bem, seguro, tranquilo.

Gosto quando as minhas folgas me dão aquela sensação que já fiz algumas coisas e tenho todo o dia pela frente para ficar na varanda, com as pernas esticadas, a ler.

Gosto de folgar durante a semana, faço-o muitas vezes, porque trabalho fins de semana.

Gosto de estar no porto de abrigo, por minha conta, enquanto o mundo funciona, lá fora e, mesmo quando saio, claro que saio muitas vezes, o mundo continua a funcionar, eu não. Folgo.

Alice veio alterar isso.

Não abdico desta pílula dourada que são as minhas folgas.

Alice veio alterar isso.

Deixei de estar completamente sózinho, nas minhas folgas semanais.

Mantenho-me, no entanto, dentro dos possíveis, fiel às minhas estranhas rotinas, mas agora tenho (temos) uma gata chamada Alice, que veio alterar uma série de coisas, e ainda bem.

Gosto de acordar à hora que me apetecer, mas agora a primeira coisa que faço é abrir a porta da cozinha e chamar Alice para junto de mim, gosto de ir ver as redes sociais, ainda na cama, mas agora Alice mete a pata no ecrã do tablet e não consigo fazer scrool, gosto de vaguear pela casa, cheio de tarefas invisíveis, em círculos, mas Alice acompanha-me, às vezes troca os círculos por rectas rápidas.

Gosto de abrir as janelas e deixar entrar o sol morno pela casa, mas agora Alice senta-se de frente para a janela e apanha o sol primeiro, antes de mim.

Gosto de me atirar para o sofá e ficar sem fazer nada, mas agora Alice atira-se também, por vezes adormece entre as minhas pernas, temos dormido umas sestas, os dois.

Estamos de folgas.

Gosto de esperar que me dê fome para tomar o pequeno-almoço, mas Alice morde-me os pés, gosto de esperar que me dê vontade de ir correr, mas Alice atrasa-me e entristece-me, quando a deixo só, gosto de esperar que me dê vontade de escrever, mas Alice estragou-me o teclado e não se cansa de passear nele, gosto que me dê vontade de ir beber um café e comer um pastel de nata, mas Alice percebe que é rápido, gosto que me dê vontade de pegar na minha mota e passear um pouco, Alice sabe que não tem capacete, não pode ir.

Gosto que me dê vontade, só depois faço, assim são as minhas folgas, agora partilhadas com Alice.

Geralmente passo longo tempo em casa.

Em casa sinto-me bem, seguro, tranquilo.

Alice também.

Gosto quando as minhas folgas me dão aquela sensação que já fiz algumas coisas e tenho todo o dia pela frente para ficar na varanda, com as pernas esticadas, a ler.

Alice não vai à varanda da sala. Talvez na primavera, para ver a árvore da frente a crescer, a mudar de cores, de roupa, talvez na primavera, Alice.

Gosto de folgar durante a semana, faço-o muitas vezes, porque trabalho fins de semana.

Gosto de estar no porto de abrigo, por minha conta, enquanto o mundo funciona, lá fora e, mesmo quando saio, claro que saio muitas vezes, o mundo continua a funcionar, eu não.

Folgo.

Prometo comprar um capacete para Alice e passear com ela, durante uma tarde de folga.

Acho que ela vai gostar de andar de mota.

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publicado às 23:05

ALICE DE FOLGA

por The Cat, em 28.10.16

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Dia 27

27/10/2016

 

Coisas de gajos...

 

 

Consegui passar um dia com Alice.

Ela não se apercebeu, mas observei-a o tempo todo.

As suas reacções, os seus gestos, os seus passos.

Alice andou pelo mundo fora.

Acordou, de manhã, quando entrei na cozinha para tomar o pequeno-almoço.

Levou algum tempo a sair da cama, tal como eu, mas ainda não tinha tirado o café já Alice me atacava os pés.

Voltámos para a cama. Para a minha cama.

Alice andou a conhecer o território por onde agora se passeava, e depois foi atacar-me na minha própria cama.

Os ataques continuaram, sempre que possível, ao almoço, na sala, por isso me atrasa os textos – Alice insiste em passear pelo teclado, até que lhe dei assim uma ordem com tom mais forte e desapareceu -, aposto que está onde costuma estar quando desaparece, na cama, dela.

É esta a conclusão a que chego.

Há parecenças entre Alice e eu.

Ambos adoramos estar na cama e dormir.

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Foi o primeiro dia de folga que passamos juntos. Observei-a. Percebi que, mesmo quando a Cristina a vem visitar e passar umas horas com ela, ou quando está sózinha, neste caso comigo, Alice dorme que se farta.

Não admira que à noite tenha as baterias tão recarregadas que às vezes chateia, no bom sentido. Tal como eu.

Este dia passado com Alice foi tão divertido, e acompanhado, que até deu para treinar Muay Thai.

Ela com as patas e com o focinho e a boca, os dentes parecem agulhas fininhas, eu com os dedos.

Ela dava-me um low kick e eu respondia com um circular na cabeça, começou a ficar em sentido. Menos mordidelas.

Sempre que me atacava com uma pata o meu dedo respondia com um joelho no focinho, sem a magoar, claro.

Às tantas comecei a emitir sons sempre que disparava um golpe.

Compassados. Ué...ué...sempre que lhe aplicava um golpe.

Aí, começou a tentar perceber o que estava a acontecer.

Tornou-se mais lenta a atacar.

Apostei no clinch e enrolei os dois dedos aao seu pescoço. Defendei-se com as patas. Afastei-a. Circular médio.

Limitava-se a defender, encostada às cordas.

Terminou ali a luta.

A cauda andava à roda e sempre que a cauda anda à roda as prioridades de Alice mudam.

Que alívio.

Consegui passar um dia com Alice.

Estou de folga até segunda feira, Alice está de folga quando quer. Acertámos agendas e o dia foi nosso.

Consegui perceber o que faz Alice quando está sem companhia.

Brinca e rebola-se quando o sol entra pela cozinha, corre por onde pode, come, bebe, participa em lutas imaginárias, no fim dorme.

Pela primeira vez, depois de adormecer no colo de Maria e de Carla, adormeceu no meu colo.

É por causa dessas lutas imaginárias que o próximo texto terá um ponto de interrogação no final.

É que gostava de saber se Alice pensa. Em que pensa, quando anda por aí, por aqui, junto de nós.

Hei-de saber.

Por agora, sei apenas como ela passa os seus dias de folga.

Dorme muito, como eu.

 

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publicado às 16:12

ALICE E AS CABEÇADAS NA VIDA

por The Cat, em 28.10.16

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Dia 26

26/10/2106

 

 

Sobre fracassos e conquistas...

 

Custa-me ouvir pessoas que dizem “já dei algumas cabeçadas, na vida”.

Remete para o fracasso e para o arrependimento, apenas.

Fracasso é aprendizagem.

Arrependimento é inconsciência.

Eu fracassei algumas vezes na vida. Algumas dessas vezes custaram-me amizades, milhares de euros, depressões, jantares de comemoração, traições, amizades novas, nunca achei que “tivesse dado cabeçadas na vida” que me levassem ao arrependimento.

“As cabeçadas” que dei, para simplificar, não me causam arrependimento, simplesmente porque tudo o que fiz foi com paixão.

Faría tudo igual, de novo, no mesmo contexto.

Como pode o arrependimento sobrepor-se à criação.

Fracasso sim, “cabeçadas não”!

Alice é especialista em cabeçadas. Mas, cabeçadas a sério, sem arrependimento, sem fracasso.

Sem fracasso, porque se retira ensinamento, fortalece por dentro e por fora, aporta coragem.

Não consigo contabilizar as cabeçadas que Alice dá por dia, confesso.

Tudo o que seja passível de dar uma cabeçada, Alice dá.

Nas nossas pernas, nas pernas das cadeiras, mais recentemente, nas pernas e no tapo inferior da mesa branca da sala.

Tente imaginar, feche os olhos (vai ser difícil para continuar a ler, mas tentemos), Alice vem da cozinha, a trote, em direcção à sala.

Em menos de um nanograma de segundo transporta-se da mesa de jantar para a mesa da sala.

Damos conta disso, o barulho é perceptível. O barulho quando a cabeça bate no tampo inferior da mesa.

Olhamos.

Em menos de um segundo aparece do outro lado da mesa, que é grande, salta para o sofá, e deita fogo à peça.

Porque não pára, por vezes dá cabeçadas no próprio chão, seja quando rebola em cima do tapete, com a luz do sol que entra pela janela da cozinha a aquecê-la, seja quando luta ferozmente com o pequeno tubarão de borracha, ou com a pobre ovelha de PVC, seja quando corre em cima das costas do sofá e cai para o lado esquerdo de quem lá se deita, chão. Pum!

Seja, quando cai para o lado direito, alcatifa. Póf!

Também me dá cabeçadas, a mim, sim, quando decide andar às voltas atrás da própria cauda, junto à minha cabeça e perde o equilíbrio, o que é raro, admito.

O equilíbrio, é uma das coisas que me impressiona naqueles que o conseguem alcançar, é das coisas mais difíceis, nesta passagem por cá. Creio que todos o procuramos. Insistente e às vezes até inconscientemente.

Eu já cometi erros, de cálculo, de avaliação, de atitude, de acção, mas aprendi com todos eles.

Estou certo que Alice também vai aprender com os seus e, também ela vai deixar de dar “cabeçadas” em tudo o que é passível de dar cabeçadas, na vida.

Que as únicas cabeçadas que dê sejam no iPhone, como a foto documenta.

Para o resto já basto eu.

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publicado às 15:43

OS PASSEIOS DE ALICE

por The Cat, em 26.10.16

 

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Dia 25

25/10/2016

 

Hoje aconteceu, pela primeira vez.

Isto por aqui, nos últimos dias, tem sido uma espécie de dias felizes e todos os dias, por aqui, acontecem coisas novas.

Alice já se passeia pela casa, desde que alguém se mova. Ela gosta de estar onde estão pessoas.

Hoje aconteceu, pela primeira vez.

Nestes últimos dias, Alice que parece estar connosco há anos, tem surpreendido com passeios por cima das costas do sofá, em perfeitas manobras de equilibrismo, isto sem contar com as sestas por baixo da capa do iPad.

Neste momento em que escrevo estava aqui mesmo em cima do sofá, já saltou para cima do teclado, a dar volta aos meus dedos, isto começa a parecer uma babilónia.

É este o principal motivo pelo qual tenho demorado a escrever os textos. Alice não me deixa.

O chão da cozinha está cheio de coisas espalhadas, um carrinho, o tubarão, o rato de madeira e corda, uma mola do cabelo, bom, já não há rolos de papel higiénico nem garrafões de água a tapar a passagem para trás das máquinas, mas a cozinha parece cada vez mais um campo minado, com minas que não explodem mas magoam os pés.

Fui dar com os meus Tune no chão da sala.

Os Tune são dois devices que se ligam a uma app que regista e guarda os dados das minhas corridas.

Costumam estar em cima de uma arca que divide os sofás da sala. Em cima da arca os Tune, quando não estão a carregar, mais uns quantos livros, uma concha do mar, grande, uns jogos chineses. Era a arca mais arrumada das arcas que separam sofás.

Passou a ser um dos pontos de passeio de Alice.

Ainda por cima os Tune têm, cada um, uma luzinha branca que pisca.

Hoje aconteceu, pela primeira vez.

A casa começa a querer parecer-se com um acampamento, mas nem pensar.

Alice salta das minhas pernas para cima da mesa de centro, o que vale é que é grande e espaçosa, diverte-se com os meus phones, olha o telemóvel, senta-se, vê um pouco de tv e volta ao carrocel.

As noites têm sido divertidas.

É isso, divertidas.

Há uma nova vida, entre nós.

Basta que alguém se levante para ir...apagar a luz, e lá vai Alice atrás.

Quanto à cozinha vou deixar estar assim, quanto à sala ela que não pense!

A sala é minha. Ponto.

Aceito que me apareça uma "coisa" a saltar, de repente, enquanto escrevo, na tentativa de subir para o sofá, como agora, que acabou de saltar e bateu com a cabeça no meu ombro, aceito até que arranhe o sofá, na tentativa de não cair, que nem sempre consegue saltar à primeira.

Aceito até que, de vez em quando, como agora, volte a assaltar-me o teclado do computador e, não, não é por causa da luz nem do calor, é para me atacar os dedos.

Ataca tudo o que mexe.

E, morde (lá foram os Tune para o chão outra vez).

“Alice”, digo-lhe com voz baixa, “não me mordas”.

Às vezes pára de morder, mas não me solta o dedo, preso com as duas patas.

Mas, o que me começa a irritar é uma provocação que Alice me fez hoje. Já o tinha feito à Carla.

Senta-se junto à minha cabeça e, de repente, dá-me um toque com a pata na minha cara e vai-se embora.

“É melhor tirares os Tune daqui, já está a brincar com eles de novo”.

Não tenho remédio.

Enquanto não sincronizo os devices com a app vou terminar este texto. É aproveitar.

É que Alice acenou com a bandeira branca.

Alice, adormeceu ao colo, entre as pernas, sossegada, delicioso.

Amanhã mando-a arrumar a cozinha.

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publicado às 23:43

A MÃE DE ALICE

por The Cat, em 26.10.16

 

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Dia 24

24/10/2016

 

Uma data de nascimento. Uma mãe.

São estes, para mim, os dois factores X que tornam qualquer indivíduo num indivíduo único.

Não há cópias.

É assim para qualquer animal.

Isto, a propósito de Alice.

Prometi, há dias, falar sobre a mãe de Alice.

Alice tem mãe.

Desde há dias, tem também uma data oficial de nascimento; 20 de Agosto de 2016.

Foi a veterinária quem, através da aparência e de outros sinais de Alice lhe determinou a data de nascimento.

Alice é, agora, um ser vivo com um princípio de vida para contar.

Há dias vi uma gata parecida com Alice, uma gata adulta, junto ao portão de entrada da minha casa.

Vi-lhe semelhanças, pêlo escuro, mas tricolor, pêlo de gata rafeira, só as gatas fêmeas são tricolor,

engraçado, as coisas que Alice me vai ensinando.

Aquela gata podia ter sido a mãe de Alice.

Pode ser, mas mesmo que não o seja, o princípio é universal: uma mãe nunca abandona um filho.

Uma mãe nasce para amar o filho. Um filho nasce para amar a mãe. Eu gosto do curso natural das coisas.

Não sei se, no mundo dos gatos é suposto as mães abandonarem os filhos e, mais tarde, procurarem por eles. Não sei, os animais não racionais (?), no caso os gatos, vivem num mundo muitas vezes inacessível a nós, os racionais (?).

Quero acreditar que não.

Acredito, sim, que aquela gata, que parece Alice adulta, não é a mãe de Alice. Eu acredito, mas...

Suponhamos que é, que era.

Se fosse mãe de Alice ela nunca a abandonaria.

Se fosse mãe de Alice ela defendia-a até ao seus próprios limites.

Se fosse mãe de Alice ela amava-a.

Se fosse mãe de Alice ela estaria à minha porta no dia seguinte.

Aquela gata não era, nem é a mãe de Alice, mas podia ser.

O amor que uma mãe tem por um filho é amor diferente de todo o resto do amor.

A minha, eu tenho a minha mãe, terei sempre a minha mãe, prova-me isso há 46 anos. Todos os dias.

Todos os dias trocamos mensagens, telefonamos, vêmo-nos, às vezes trocamos mensagens tão simples quanto: "Era só para te dizer que te amo".

"Também te amo muito, meu filho".

Coisas simples.

Dela nasci, ela me criou, ela abdicou por mim, ela dedicou-se a mim, ela acompanhou-me, ela defendeu-me, ela abraçou-me, ela beijou-me, ela fez-me ser eu, no todo, por ela, até hoje e até à eternidade, que eu acredito que somos eternos. O nosso amor é.

Acho que, também no mundo dos gatos, deva ser assim, pelo menos as gatas dão-nos exemplos; as mães limpam tudo em seu redor, quando as crias nascem, transportam-as na boca para local seguro e, até que deixem de mamar, as mães são como a minha; tudo pelos seus filhos.

A minha mãe continua a zelar por mim. 

As gatas desprendem-se dos filhos, passado um tempo.

Será isso que nos torna racionais e a eles não?

Talvez não, porque só estou a falar de amor, incondicional, único.

Por veze,s a vida coloca-nos curvas inesperadas no caminho, e a natureza inverte o seu curso, uma mãe e um filho separados é inverter o curso da natureza.

Não sei se aquela gata é a mãe de Alice, ainda tenho as minhas dúvidas.

 Não sei se não o é.

Se ela aparecer, de novo, prometo perguntar-lhe.

Se a resposta for afirmativa convido-a a entrar, desde que me garanta que não me leva Alice.

Deixarei que a visite sempre que queira, mas não deixo que me a leve daqui.

É que um filho nasce para amar a sua mãe.

Alice nasceu para a amar-mos.

 

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publicado às 15:03

ALICE CONVENCEU-ME

por The Cat, em 24.10.16

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Dia 23

23/10/2016

 

Coisas de afectos…

 

Pela primeira vez percebi aquela história de o(a) gato(a) ser uma companhia.

E, percebi-o, a ponto de sentir saudades dessa companhia.

Foi a segunda vez que aconteceu, Alice ir para a sala, para junto de nós. Na véspera adormeceu ao colo da dona mais velha, entre a capa do iPad e o próprio iPad.

Era de elementar pertinência Alice ir ter connosco à sala, no dia/noite seguintes.

 Assim fez, Alice já compreendeu que se a porta da cozinha está aberta é para que ela por lá possa passar.

Sacana da gata, inteligente gata, que sai da cozinha, visita os quartos, cumprimenta os miúdos, certifica-se que não há adultos no quarto grande e volta à sua vida, ora regressa à cozinha para dar uma corrida curta e louca, ora vira à direita, para a sala.

O ritual é único.

Vem até à porta, baixa-se, coloca-se em posição de ataque, caminhando, como que a mostrar-se corajosa. Chega à porta da sala, encosta-se, vai indo até ao sofá. Só depois coloca a cabeça de lado e espreita.

Daí a uns segundos está a saltar para cima do sofá, atacando ferozmente as minhas mãos., como que vinda do nada.

Pela primeira vez, depois desses ferozes e doces ataques, Alice ficou.

Eu já estava sozinho, nessa altura, toda a gente tinha ido dormir. Em teoria, Alice ia ali, mordia-me as mãos, corria e depois das boas-noites ia à sua vida.

Mas, enganei-me, e esse engano mexeu comigo.

Alice, em cima do sofá, junto às minhas pernas, parada, sentada, descontraída, a ver televisão.

Senti-me, pela primeira vez, com uma companhia nova, a qual já não dispenso, a qual me provoca saudades e ternura. Jamais ficarei sózinho, tenho a certeza.

Não pense que isto durou muito tempo. Durou uns cinco minutos, esta pausa. A seguir, Alice voltou, literalmente, a andar à roda, a tentar apanhar a cauda – e já consegue -, ou a saltar para o meu peito para me vincar os dentes que mais parecem agulhas de acupunctura.

Houve aqui qualquer coisa. Eu e Alice. Sentiu-se aquele momento, ternura, silêncio, toque.

O mais curioso é que, quando cheguei a casa, à noite, depois de vir da televisão, enquanto esperava que o portão do condomínio se abrisse, dei de caras com algo anormal.

Uma gata. Preta. Grande. Adulta. Uma mancha amarela na pata. Uma mancha amarela na cabeça e junto aos olhos. Uma mancha amarela na cauda.

Estava encostada ao portão, do lado de fora, como que à espera que alguém aparecesse, para que entrasse dentro do condomínio.

Eu já vou habituado aos repentes dos gatos.

Parei o carro, enquanto o portão abria. O barulho do portão afastou-a.

Na minha cabeça um rasgo, lá dentro.

Esta gata é…

Não, não é, convenci-me.

Ainda agora, que escrevo, ainda agora sinto que aquela gata poderia ser a mãe de Alice.

estaría à procura dela.

Que raio, uma mãe não abandona uma filha.

Que raio, os gatos não são humanos, se calhar abandonam, se calhar sentem remorsos, apenas saudades que apertam o coração. Se calhar...

Se calhar nem era a mãe de Alice, embora os sinais...

Eu não sei o que é separar um filho de uma mãe.

Mas, prometo, em nome de Alice, escrever sobre isso.

Aqueles cinco minutos mágicos, com ela sentada junto a mim, só os dois, foram tão inundados de ternura, tão só nossos, que tenho a certeza, fosse ou não, aquela gata, mãe de Alice, Alice quis dizer que precisava de um abraço.

Ou apenas de cinco minutos mais felizes, no sofá da sala.

Depois, encaminhou-se para a sua cama e foi descansar.

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publicado às 20:39

OS SINAIS DE ALICE

por The Cat, em 23.10.16

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Dia 22

22/10/2016

 

Sinais...

 

Alice tem um comportamento padrão, como qualquer gato e, como qualquer gato, muito desse comportamento vem da sua própria personalidade.

Deitei-me, salve seja, a adivinhar o que lhe passará pela cabeça.

Quando ela ronrona, quase em silêncio, sente-se pela respiração, é sinal que está feliz. Às vezes Alice ronrona.

Andei a ler umas coisas e, fiquei a saber que, quando os gatos, Alice já o faz, começam a passear colados às pernas estão, imagine, eu não imaginava, a libertar odores só perceptíveis aos outros gatos.

O meu dono é meu!

O recado vale para todos os gatos, os que não temos e os que passeiam pelas redondezas.

Às vezes sinto-me aflito, por momentos, como quando Alice se senta a olhar fixamente um qualquer ponto. O ar felino. É daí que deve vir. Alice nunca caçou, mas o instinto nasceu com ela.

Como qualquer gato, Alice dorme longos sonos. Passa quase dois terços do dia a dormir.

Sente-se segura, aproveita ao máximo. Na rua, não sei se alguma vez Alice dormiu descansada.

Alice, várias vezes, em determinados momentos, mete as orelhas para trás. Fica realmente assustada. E, assusta-me mais ainda, relativamente, porque ainda é pequena, quando fica com o pelo eriçado. Ela sabe que ganha uma dimensão física maior.

Há dias cortou as unhas e ficámos a pensar que as constantes mordidelas que nos dá, quando brincamos com ela, pudessem ser por causa disso, por não ter unhas.

Menos uma defesa, e a defesa é o melhor ataque.

Como a águia que passa cem anos na rocha, a raspar as unhas, que caem, que renascem, que lhe dão asas, de novo, e ela vôa.

Alice verá nos nossos pés, ou nos nossos dedos das mãos, uma presa, e ataca, com tudo o que tem direito. Por vezes avança rápido, chega ao pé do alvo, e dá meia-volta.

Alice, no fundo, passa a vida a enviar-nos sinais.

É que ninguém gosta de ser incomodado enquanto descansa e eu incomodo-a sempre que entro na cozinha. faço questão disso.

A atitude de Alice, normalmente, passa por se esconder debaixo de qualquer coisa, quando se sente ameaçada, ou porque um de nós voltou para trás, ou porque se levantou do sofá e fez mais barulho. Bendita a hora em que escolheu os bunkers da cozinha, porque li eu, se tiver medo a sério, se não tiver por onde fugir, ataca, mesmo. É raro.

Alice faz ataques, mas são ataques fofinhos.

Uma coisa também reparei, quando Alice vai para trás dos livros, numa das estantes, e a “mando” sair, com voz grossa, ou se teima em se esconder debaixo da cama, ela sabe quando é repreendida. Sai de onde está e, invariavelmente, vai para a sua cama cor de rosa, até que tudo “acalme” outra vez.

Alice acalmou – por curtos momentos – ao vigésimo segundo dia cá em casa.

Acalmou estranhamente.

A vacina deita por terra qualquer teoria. Ressentiu-se. Andou calma demais. Esteve mais parada, mas agora já está louca outra vez.

O que ela não sabe é que nós andamos a aprender sobre ela.

Qualquer dia ofereço-lhe umas luvas e fazemos um sparring os dois, só para ela descarregar a energia.

É que não há vacina que lhe valha.

Nem para ela, nem para nós.

Começa a ser difícil resistir-lhe.

E, ainda bem!

 

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publicado às 21:31

VIAGENS NA MINHA TERRA

por The Cat, em 23.10.16

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Coisas de pensar...

 

Chega a uma altura da nossa vida em que começamos a olhar para dentro de nós e sentimos, pela primeira vez, de forma assim tão vincada, as marcas da saudade que vivemos.

A dona Emília tinha por hábito meter-me “no canto”, de castigo, só porque eu pisava a banana do lanche do João Gordo.

Havia um piano na sala da dona Emília, e uma mesa, ao canto, uma mesa castanha, quadrada, grande, enorme, cheia de papéis, lá atrás, atrás da mesa, espartilhada entre a parede, a cadeira da dona Emília.

A dona Emília foi minha explicadora, desde os quatro anos, ficava ali na rua do “Combóio”, mesmo ali ao lado do restaurante.

Hoje acho que é a sede de um partido de direita.

O “Combóio”, com acento, ainda continua a servir jantares e almoços.

A dona Emília morreu, entretanto, e nunca lhe disse os ensinamentos que me deixou, e a saudade.

Havia, ali daquele lado da rua, onde agora é uma loja de arranjos de roupa, a lojinha que vendia gomas, sugus, doces, chocolates Regina, grãos de café com recheio e quadradinhos de marmelada.

Do lado de lá da rua, nas pedras do passeio onde joguei o meu primeiro jogo de futebol, sózinho, mais marcas da minha passagm.

Imaginei o estádio só meu, naquela rua, só minha.

Só as minhas botas Xavi eram reais. Foi a minha avó que me as deu. As primeiras.

Futebol a sério jogávamos na rua de trás.

A rua ladeada pelo muro da linha do comboio e as traseiras do “Combóio”, da casa da dona Emília, do Foto Nunes, do Fortes sapateiro e do correeiro.

O correeiro é uma dessas marcas cravadas pela saudade que vivo.

Era ele quem nos dava a esponja, os trapos e as linhas, de onde nasciam as nossas bolas do jogo. O campo marcado, com  linhas amarelas. Se batia por cima do muro mais pequeno era fora.

Nos fins de tarde, quando a minha avó chegava da loja onde fazia e vendia cestos de verga e vime, comíamos donuts e víamos a Rua Sésamo. Eu e o “Nunes”, o neto da fotógrafa, viúva do fotógrafo.

Aos domingos via o Tarzan, a preto e branco, com a minha avó. Depois íamos os dois, de mão dada, rua fora, tomar chá com o doutor Franco Nogueira, com as irmãs solteironas, o com o doutor Pisiocchi.

Tudo isto numa rua, num floco de saudade.

 

 

 

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publicado às 12:46

ALICE CONVIDA À REFLEXÃO

por The Cat, em 22.10.16

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Dia 21

21/10/2016

 

Sobre o que está por vir...

 

Ao longo da vida raramente pensamos “e quando for velhinho...”.

Eu só dei comigo a pensar nisso há pouco tempo.

A erosão desse tempo.

Contra ele nada a fazer, nada o trava nessa marcha impetuosa, que só se começa a sentir nas pernas e na alma a partir de um determinado ponto da nossa vida.

Não penso “e quando for velhinho” no sentido de tentar antever o que serão, como serão as últimas páginas do meu livro, que é a minha vida, escrita página a página.

Começo a descobrir cabelos brancos, a barba branca em algumas zonas...

...

 

 

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publicado às 23:05

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