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O DIA EM QUE IAMOS SENDO ATROPELADOS

por The Cat, em 27.09.16

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Líderes...

 

Eu e a minha nova parceira de corrida liderámos a meia maratona, a Corrida da Emoção, durante pelo menos um segundo.

Aos três segundos ela liderava o pelotão feminino, e eu encontrava-me nos dez primeiros.

Aos cinco segundos já tínhamos sido absorvidos pelo pelotão da frente.

Aguentámos uns bons quatro minutos nos cem primeiros, até à curva onde estava um tanque de guerra estacionado.

A minha preocupação era com o facto de ela poder ser atropelada, sobretudo quando avistámos a primeira subida, a seguir à segunda rotunda da prova.

Às rotundas perdi-lhe a conta, às subidas também, às descidas conto-as pelas pernas.

A rua era estreita, nas entranhas de Viriato, ainda íamos com muitos dos que querem fazer bons tempos, que correm pelo tempo, ainda não estávamos a salvo, apesar de os militares do regimento de infantaria estarem em cada rua, o que sossegava, mas a rua era muito estreita, e bonita.

Caminhámos um pouco, na impossibilidade de correr, uns segundos.

Depois, abriu, um largo.

“Então, tem que treinar mais vezes”, disse-me um tipo todo sorridente, enquanto passava por mim.

Não deve ter reparado na minha camisola do Muay Thai.

A minha nova parceira de corrida ia a correr num stress como nunca vi.

Estava com dificuldades em respirar, tinha o rosto estranho, o olhar também, ia em sofrimento, quando ela entra em stress, o que acontece uma vez de dez em dez anos, é esquecer.

Abrandámos, coloquei o braço por cima do ombro...

“Não me agarres...”

"Respira fundo, vamos chegar ao fim, a meta está lá, o Artur está a ver-nos, respira e quando estiveres bem vamos".

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Contou-me, depois, já a caminho do hotel, que pensou assim:


“Mas, porque é que eu vim a isto, porque é que não fui aos cinco quilómetros, foi um stress durante os primeiros quatro quilómetros, só gente a passar por mim, o Miguel Cabral na mota, tu, as pessoas, só pensei, mas porque é que me meti nisto”.

Aqueles quilómetros na caixa da frente não lhe permitiram correr ao ritmo que tem treinado, aos dois quilómetros estava na red line.

Nessa altura, como sempre, eu sabia que ia passar.

“Arrependida?”.

Achas? Nem pensar, depois dos quatro, cinco quilómetros entrei na corrida e adorei”.

Eu dei conta, bem que tentava manter o mesmo ritmo, para melhor controlar as coisas, mas ela, solta, leve, ora acelerava, ora abrandava, ora acelerava, constante, transpirada, eu ouvia-lhe a respiração.

A seguir aos seis quilómetros fez aquilo que detesta que lhe façam, falou, comigo.

Sinal que já estava em piloto-automático.

Disse-lhe: “ aprecia a partir de agora”, dei-lhe um beijo e acelerámos a passada.

O último quilómetro, o décimo, foi o mais rápido.

Já brincávamos:

“Recuperaste nestes duzentos metros planos?”

“Sim...”

“Então olha para a frente, as boas notícias é que temos ali a centésima subida”.

Tudo o que sobe também desce. Em Viseu não é bem assim.

Dois muros em pedra, um de cada lado de uma apertada estrada onde, estou certo, Viriato por lá andou.

A última casa, ao lado direito.

"Bom dia, doutor, como vai", gritámos os dois.

O antigo secretário de estado das comunidades olhou-nos, primeiro sem perceber, depois reconheceu-nos e sacou da foto.

"Bom dia, boa corrida para vós", disse Cesário.

As coisas que acontecem durante uma corrida.

Ainda dissertámos uns segundos sobre o facto de o ex-governante viver numa calma daquelas, onde a qualidade é vida.

A seguir à curva, “isto agora é na boa, faltam dois quilómetros”, diz-me ela.

As pessoas aplaudem-nos à passagem, a nós e aos outros, apoio que faz milagres, às vezes.

Fora dos grandes centros as pessoas tendem mais a conhecer aqueles que só vêem na televisão, ainda assim fiquei admirado com aqueles incentivos, naquela rua, a quilómetro e meio da meta:

Força, vamos TVI, sempre com a TVI”!

Virei-me para trás e gritei: “viva Viseu”, dou sempre troco.

Como é que as pessoas conseguem reconhecer-nos debaixo de uma t-shirt toda molhada, todos despenteados, tortos, enfim, num estado que poucos conhecem. É fantástico.

“Obrigado, um bom domingo”, gritei antes de virar a curva.

Deixa-te disso, falta um quilómetro, no último quilómetro nunca se fala nem se caminha, sempre o disseste”.

“Nunca, mas a boa notícia é que aquela é a última subida, olha”.

Uma senhora, mais velha que nós, juntou-se ao lado dela.

Acelerei um pouco e deixei-as sozinhas, uns metros.

Travaram amizade.

A sua primeira amizade, em prova.

Já no fim, uma hora depois, diz-me assim: “olha, vai ali a minha amiga do último quilómetro”.

Estava tocada pelo milagre.

Viveu a experiência.

Entrámos na recta da meta. Sózinhos. Aplausos de um lado e do outro.

“Já fiz o meu melhor tempo...”, segredou-me com um orgulho que não cabia naquela recta, nem naquele parque florestal tão bonito.

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Não a deixei falar mais, agarrei-lhe na mão, acelerei o mais que pude, enquanto ela, com os dois pés pelo ar, acompanhava.

Eram os metros mais rápidos da sua história, algo que nunca imaginou sequer fazer.

Cortei a meta de mão dada com o grande amor da minha vida, mais uma meta, cortámos a meta de mãos dadas, como eu sempre quis, desde que corro.

Nunca tinha feito isto com ela.

Abraçámo-nos.

“Boa, miúda”.

“Fiz menos meia hora que na única corrida que tinha feito na vida”.

A única vez que correu dez quilómetros fez 1.38h, no domingo fez 1.13h, com apenas mês e meio de treinos.

Brevemente vou vê-la a correr um quilómetro em cinco minutos, não tenho qualquer dúvida.

Mereceu a medalha, se mereceu. Merece sempre. Em tudo.

Agradeceu-me o apoio com uma foto no Instagram.

babei, porque ela também não é destas coisas, acho que está a mudar a um ritmo impressionante.

Bom!

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Mas, ainda não lhe disse que ela também é minha inspiração, ainda não o sabe, e que agora, quer ela, quer eu, temos parceiro para correr, juntos.

Ontem e hoje foi a readaptação, mas amanhã vamos treinar. Isto é algo que eu nunca imaginei na minha vida.

A caminho do carro, largou-me a mão, foi direito à baia lateral, começou a bater palmas e a gritar “vamos, força, vamos”.

Aproveitou e alongou enquanto incentivava os outros, e ela também não é destas coisas.

Brinquei com o assunto.

“Tu, a bater palmas, a...”

“Experimenta meter o conta-quilómetros do carro a zero, fazer dez quilómetros e depois diz-me...”

Percebi.

São dez quilómetros, toda a gente fala como se fosse ir ali, mas são sempre dez quilómetros, e quem nunca os correu não faz ideia.

Ela tinha sentido, e foi, inconscientemente, apoiar aqueles que ainda corriam.

É a condição humana.

Pior, foi quando chegamos ao hotel.

Em Évora vamos fazer uma hora”.

Até tremi.

O monstro vai matar o criador.

É assim o amor.

Morrer por amor, a correr.

(Ela esqueceu-se que daqui a dois domingos temos outra corrida...o que pode querer dizer muito, afinal tenho que acompanhar. Onde me fui meter!)

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publicado às 16:19

EMOÇÃO, WHAT ELSE !

por The Cat, em 27.09.16

 

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Coisas da emoção...

 

Antes de dormir confidenciou-me a sua preocupação:

“Está a chover, se estiver a chover não vou correr amanha”!

Notei-lhe alguma tensão, o que nela não é normal.

“Estás louca”, perguntei baixinho, “andaste um mês inteiro a correr para participares nesta prova, e agora estás a recuar, nem pensar, antes chuva que calor, vais adorar correr à chuva”, tentei contrariar.

“Se estiver a chover não sei”, entendia o que me queria dizer, esta era a sua primeira corrida a “sério”, ela tinha um objectivo, nós tínhamos uma homenagem a fazer a um amigo, e ela nunca tinha pensado na chuva.

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Fui o último a adormecer.

Ao contrário do que é habitual acordei sózinho, sem despertador, às sete da manhã.

Pensei levantar-me e ir tomar o pequeno almoço, mas lembrei-me que não gosto de correr depois de comer, e tinhamos combinado ir juntos, pensei ler, a adrenalina sub-consciente impedia, pensei ir passear, não queria gastar energias, adormeci, de novo.

Aprova era às dez e meia, a cinco minutos do hotel, adormeci, de novo.

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Duas horas depois, Viseu dava-nos os bons dias, foi buscar o seu melhor sol, a sua temperatura mais amena, e chamava por nós, acordei-a.

“Bom dia, miss runner, vamos correr”.

Tomámos um duche, equipamo-nos, conferimos tudo e andor, de mãos dadas.

Descemos para o pequeno almoço.

Muitos participantes na meia maratona do Dão, corrida do circuito Running Wonders, um dos circuitos mais belos do planeta, quiçá de todo o universo, a sério, são experiências únicas, dizia eu, muitos dos participantes estavam no mesmo hotel que nós, pelo que o hall do hotel e a enorme sala do pequeno-almoço estavam cheios de camisolas amarelas-limão, com as letras verdes: Dão.

O espírito familiar (mas altamente profissionalizado) destas provas sentia-se no hotel, enquanto uns já se preparavam para ir, e outros relaxavam no lounge.

Muitos mais ainda tomavam o pequeno almoço, quando descemos.

Parecia um ordenado e civilizado formigueiro, tal como são os formigueiros, pessoas que – todas sorriam – conversavam, famílias inteiras à mesa. Alguns amigos.

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Confesso que em uma ou duas ocasiões pensei: como é que aquele senhor ou aquela senhora vai correr, depois de comer aquilo tudo?

Eu demoro imenso a fazer a digestão.

Por isso, nunca corro após comer, a não ser umas quatro ou cinco horas depois, e depende do que como.

Já não bebo leite, em nenhuma ocasião, a não ser sem lactose, evito o sumo de laranja ao pequeno almoço, contento-me com um bolinho (açúcar), um sumo de frutos vermelhos e um ou três cafés.

A minha nova parceira de corrida não, ela come tudo o aquilo a que tem direito, mas tudo adequado ao que vai fazer.

“Como é que consegues correr depois de comer?”.

“Como é que consegues correr quase em jejum?”

Comamos.

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O hall do hotel começava a ficar vazio.

Viseu continuava a querer mostrar que é a “melhor cidade para viver”, e no domingo também foi a melhor cidade para correr.

O Paulo Costa é um homem que, no dia seguinte, ontem, mal terminou a a meia maratona do Dão já estava a caminho de Coimbra, e depois Évora, e já está no exacto ritmo frenético que é habitual.

Terá feito uma pausa de umas horas apenas.

Ele tem na Global Sport uma equipa que é raro montar.

Pessoas dedicadas, do mais amável e eficaz possível, amorosas, competentes, e já todos a funcionar em velocidade de cruzeiro, quando têm que montar mais uma corrida do circuito Running Wonders.

Eu tenho a rotina de pedir para me fotografarem, quando recebo a minha medalha, no final de cada corrida.

Desta vez o prazer foi especial, diferente, senti-me um campeão, eu que corro os dez quilómetros no dobro do tempo do vencedor.

A foto diz tudo.

 

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Recebem as pessoas de uma forma que apetece perguntar: quando é a próxima corrida?

Para além disso, o Paulo, é um comunicador de excelência.

Sempre que discursa – ou fala em privado – dá lições reais sobre o território, as pessoas, sobre como os e as valorizar, na perspectiva que somos um todo, valorizando assim o território, o nosso espaço único.

Na véspera, no jantar oficial do evento, enquanto escutávamos a intervenção do Paulo, disse à minha nova parceira de corrida:

“Grande comunicador, grande motivador, grande gajo”.

Ela anuiu.

Juntar a isso a amizade que ele nos dá o privilégio de termos, que mais podemos querer.

O Paulo, esteja com que estiver, (do mais importante que houver), sejam quantas vezes for ao dia, vem sempre ter connosco, saber como estamos.

É um homem inteligente e genuíno.

Humano.

Mandei-lhe um sms durante o jantar, antes de sair.

Amanhã dou-te um abraço antes da partida.

Às vezes gosto de o surpreender, como ele sempre me surpreende.

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Gosto de chegar, como no sábado, dar de caras com ele, ele não me ver, porque esta de olhos colados ao telemóvel, a trabalhar, e eu fotografá-lo e enviar-lhe por mensagem, naquele instante.

Normalmente ele vê-me primeiro que à mensagem.

Chegámos à zona da corrida 40 minutos antes do tiro da partida, dado pelo presidente da câmara de Viseu, alguém que conheci na véspera, no jantar, e que me cativou pelas suas ideias e pelo seu discurso.

Estacionámos o carro no parque de uma clínica privada, nova, bonita, como a cidade de Viseu, apesar de ser mais velha, igualmente bonita.

“Bom dia, podem estacionar aqui, não há problema, está vazio, venham”, disse-nos a enfermeira, enquanto apagava o cigarro.

Descemos uns bons cem metros, que canseira, talvez mais, tal foi o cansaço, estou a brincar, e estávamos no parque do Fontelo, com a partida lá à frente, ali a uns metros.

Muitas pessoas nas laterais, para ver, para apoiar.

Foi assim todo o percurso.

Fantástico acolhimento. Conheciam-nos pelos nomes.

Apesar de estarmos como convidados, fomos solicitados para comparecer juntos dos nossos colegas da TVI, que transmite as provas, para entrevistas.

A Ana Filipa Nunes e o Miguel Cabral.

A Ana também corre, mas desta vez o dever chamou mais alto.

O Miguel, enorme. Fez o percurso de mota e stressou a minha nova parceira de corrida, durante a corrida, mas não foi só a mota (estou a rir à gargalhada).

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Revimos, na partida, pessoas que conhecemos na véspera, fomos, como sempre, abraçados pelo Paulo Costa, demos as entrevistas e, confesso, eu já estava com a adrenalina a fazer-me comichões. É sempre assim.

Faltava, tipo, um quarto de hora para começar.

“Nós vamos ficar aqui na primeira linha da partida?”, perguntei.

“Sim, partem daqui”.

Atrás de nós, imagine, oito mil pessoas. Oito mil.

“Então, mas aqui, aqui vão atropelar-nos, a minha senhora é a primeira vez...”

Era eu que estava em stress, mas do bom.

“Sim, partem daqui, é correr”, disse a mesma pessoa, a rir.

Tranquilizei-me e à minha nova parceira de corrida:

“Pensa assim, vou fazer os dois quilómetros mais rápidos da minha vida, senão dificilmente voltarei a fazer dois quilómetros na vida, eu protejo-te”.

Sorrimos.

A segunda caixa foi aberta. Estava quase.

Nós, e já encostados a nós os que iam à procura de recordes, os veteranos do asfalto, e os outros.

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A contagem estava a ser ouvida em todo o parque:

5,4,3,2...1

Ouviu-se o tiro.

Arrancámos.

Mas, daqui para a frente, só no próximo texto.

Como sobrevivemos?

Pois...

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publicado às 15:13

O BOSQUE ENCANTADO

por The Cat, em 25.09.16

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FOTO: THE CAT RUN

 

 

Acordámos cedo.

Agora, depois de velho, comecei a ir ao pequeno-almoço, nos hotéis. Antes, gastava o tempo, gota-a-gota, na cama.

É uma espécie de doença; a cama.

Agora, não. Agora levanto-me e costumo ir ao pequeno almoço.

Eu adoro hotéis.

A Carla comeu aquilo a que tinha direito, sorte a dela que não engorda, que consegue correr depois de comer. Eu não.

Eu ou não como, ou como quase nada, quando corro.

Comi uma salada de frutas, um mini-pastel de nata, um chá e um sumo de furtos vermelhos.

Um café, no fim, e estávamos prontos.

 

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publicado às 00:47

INDO EU INDO EU, A CAMINHO DE VISEU

por The Cat, em 24.09.16

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FOTO: THE CAT RUN 

 

 

Ontem fiz a viagem para Viseu, onde vou participar, este domingo, na “Corrida da Emoção”, a convite do Paulo Costa, da Global Sport.

Um notável amigo, um notável amante do território e das pessoas que o fazem.

Mal sai da televisão fiz-me à estrada e, felizmente, falhei a saída para Viseu, distrai-me e fui dar a um restaurante, onde matei uma sandes de leitão. Felizmente por isso, bem entendido.

Voltei para trás e dei com a saída para o IP3.

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publicado às 23:47

PERDER PESO? CORRA OU EDITE TELEJORNAIS

por The Cat, em 22.09.16

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FOTO: TEH CAT RUN

 

 

Tem dias.

Dando como adquirido que a minha profissão é de desgaste rápido, umas vezes vou praticar exercício, outras não consigo. Todas as vezes preciso.

Quando termino uma corrida, normalmente, a minha boca está seca.

Uma hora, pouco mais, ou mais de duas horas, raramente, é quanto duram as minhas corridas. Faz sentido terminar seco, exausto, transpirado.

Estar fechado dentro de uma régie de televisão durante quatro horas seguidas produz efeitos ainda mais devastadores, para além dos que acontecem quando corro.

Fazer régie, edição, em televisão assemelha-se também a um treino de circulares, no Muay Thai, à medida que vais avançando começas a sentir uma força invisível que te suga toda a tua energia interior, em poucos minutos.

Terminas sem saber de que terra és.

Sempre que faço régie tenho estes sintomas desde o primeiro genérico até ao último.

Vou sentido a energia a ser-me sugada, ao compasso das horas que passam a uma velocidade estonteante, não deixando de ser quatro horas de tempo.

Ali, a decisão não é ao segundo, é ao nanosegundo.

Ali, as decisões são tomadas na mesma cadência que a de um ritmo de três minutos por quilómetro, em passadas rápidas.

Ali, ouvem-se imensas vozes, cada uma a solicitar uma resposta, que só pode ser dada à vez, o contrário é-me humanamente impossível.

Ali, ao segundo, a cada passada rápida, és obrigado a estabelecer as prioridades, quando tudo é prioritário.

Também na corrida geres o teu esforço, o teu ritmo, a tua concentração, as tuas prioridades, porque tens um objectivo.

A grande diferença é que ali, uma decisão errada acaba com tudo, e são tomadas largas dezenas de decisões, ali, na corrida podes errar, gastas mais tempo, ali, não podes gastar mais tempo que aquele que te dão.

Dão-te tempo para gerires.

Já alguma vez se imaginou a gerir o tempo?

Eu já.

Ali, e quando corro.

Garanto a tremenda responsabilidade que é gerir o tempo.

Até aos deuses do tempo, não me custa a acreditar.

Na corrida a decisão está tomada, é só uma, chegar ao fim.

Na régie a decisão está tomada, só depois se chega ao fim.

Por isso, todos os dias, quando saio do trabalho preciso de correr, de fazer exercício, do Muay Thai, corrida e Muay Thai, gostava de fazer ioga, mas já não tenho tempo.

Faço a gestão do tempo que me dão, mas não consigo gerir mais o meu.

Saio de lá sempre de rastos, com a boca literalmente seca, como disse, com a cabeça maior que um disco externo de 10 teras, com as pernas amassadas de estarem sentadas, com a pressão das artérias cheias de campaínhas e alarmes vermelhos, até os olhos...raiados.

Mas há dias, como o de hoje, que o tempo me sugou tanto, essa força invisível,embora mensurável,  que não tenho mais energia para me reconverter, reencontrar, correr, ou pensar.

Escrevo.

Plano B.

Sei perfeitamente que só consigo contrariar esse estado de pós-combate, encostado às cordas, se for mexer-me, expirar, libertar, eu, sozinho, até ficar tão mais cansado, que me permito agradecer-me e esquecer o cansaço que ali me levou. Chamam-lhe stress.

Alguém terá que se cuidar, porque eu reinvento-me, com truques que eu próprio invento, pois de outra maneira nunca conseguíria chegar ao fim e cortar a meta.

Passar o cartão pelo torniquete e levar com o fresco da noite pela cara é como cortar uma meta.

Estou a ver que tenho que começar a levar proteína, L-carnitina, bebidas isotónicas e se calhar umas barrinhas energéticas, para a régie.

E, porque não, partilhar a actividade num app, como faço com a corrida.

Ou então, nada disto e sou eu que estou a inventar.

Pelo sim pelo não, amanhã levo uma barrita energética, para a régie, e um shot de L-carnitina, pelo menos vou à confiança.

Pobres dos meus colegas...

 

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publicado às 23:39

A EVANGELIZAÇÃO

por The Cat, em 22.09.16

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Hoje não fomos correr.

Saímos do trabalho com uma hora e pouco de diferença, trabalhamos juntos, oh deus, é verdade, e a meio da tarde já lhe tinha perguntado (é inevitável misturar o pessoal com o profissional, quando se trabalha junto há uns 17 ou 18 anos, todos os dias, no mesmo local), vamos correr a que horas?”.

Hoje acho que não vou”, respondeu-me.

“Ok, achas que consegues o off para abrir o noticiário das 16 horas?”.

“Claro, e vai à bolsa que estão lá mais dois off´s e um vivo”.

Ainda levantei a questão da corrida de domingo, mas fui imediatamente confrontado com um facto indesmentível, como que a dizer, vamos trabalhar:

“Nos últimos 30 dias fiz 26 corridas, hoje vou descansar”.

Contra factos, diz o povo, não há argumentos.

O povo tem sempre razão, mesmo quando a não tem.

Efectivamente, já lhe noto os gémeos mais torneados, as ancas mais sólidas.

Mas, eu sou toldado pelo passar dos tempos, juntos, suspeito, por isso.

Mas, nota-se.

Sentados nos sofás da sala, ela falava com alguém ao telefone.

O filho chegava mais tarde, do treino.

Aproveitava, ela e eu, o momento de pausa.

Puxei a box atrás e comecei a ver a entrevista da deputada Mariana Mortágua.

Vou ser sincero; já a apreciei mais.

Até já me identifiquei com ideias dela, mas os trejeitos, os olhares, o desdém, as expressões, que é o que mais conta na comunicação, começam a fazer-me olhar para ela com alguma apreensão.

Por isso quis ver a entrevista.

Enquanto se trocavam os primeiros argumentos, a meu lado, uma conversa.

Normalmente não escuto as conversas dos outros, mas aqui foi inevitável.

Uns dois metros nos separavam, de um sofá para o outro.

Baixei o som da televisão e meti-me à escuta.

Portanto, vou divulgar uma conversa que ouvi.

Com autorização.

Transformo-me neste momento num verdadeiro e consentido cusco.

Não fomos correr, mas a conversa era sobre corrida, exercício.

E, o que eu gostei do que ouvi, da conversa, porque da entrevista pouco vi.

Quero dizer, olhava, mas não ouvia.

O meu interesse era outro.

A conversa versava mais ou menos dentro desta ideia;

“É muito bom, a todos os níveis”, isto a propósito de ser confrontada com o facto de “nem sequer 200 metros fazia, por dia”, pior, “quando subia as escadas chegava a arfar”.

Observei os trejeitos de Mortágua, e o olhar, continuei a escutar a conversa, ao telemóvel.

“Em 30 dias consegui fazer 26 corridas”, mas o inverno está à porta, e à noite só correu umas duas vezes, comigo.

“No inverno vou para o ginásio, meto o saco no carro e sigo”, eu também acho que é o melhor, porque “de manhã, se não tiver tempestade, ainda vou, mas ao fim do dia...”

Bem sei o que é isso de vir do trabalho, rumo à lareira e aos cobertores, mas parar, para trocar de roupa, enfrentar o frio e a chuva, o escuro e o suor, muito mais difícil que ir de manhã.

Fiquei a saber que (ela) nunca funcionou tão bem, que nota diferenças, na pele, na respiração, na concentração, na verdade, sem saber, ela está é a queimar etapas.

Há-de dar-se conta, no domingo que vem.

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“Bebo mais água”, ouvi-lhe, “tenho semanas em que descanso um dia, mas tento manter a frequência”.

Olhei para a televisão, sem som, e por momentos pensei escutar uma outra pessoa, alguém que não conhecia.

E, continuava a gostar do que ouvia.

A explicação sobre o facto de os filhos já quase serem independentes nas tarefas, o que liberta o tempo e a agenda, os horários dos ginásios, já iam em hipotéticas fórmulas para gerir os intervalos do tempo, fazendo exercício.

Por exemplo, depois de deixar os miúdos na escola, até seguir para o trabalho.

A conversa acabou com gargalhadas. As dela, as da pessoa que estava no outro lado da linha, e as minhas.

“Um destes dias vamos aos...aos jogos olímpicos dos reformados, não, dos séniores, não, não, dos veteranos, isso, qualquer dia estamos tão em forma que vamos a uns jogos olímpicos quaisquer”.

Até podem nunca ir, mas uma coisa eu aprendi a ver a Mortágua, sem som, isto da evangelização funciona mesmo.

Evangelizou-se e espalha a mensagem.

Ela que é gente com ideias próprias, a Carla, que a Mortágua não corre comigo.

Nunca, em trinta anos, sentido figurado, a tinha ouvido sequer pronunciar a palavra olímpicos, quanto mais rir à gargalhada com isso.

Ela ria à gargalhada porque corre.

Depois fui jantar, que o meu filho chegou do treino.

Acabei por não ouvir a Mortágua, mas prometo que amanhã vamos correr juntos, que domingo é o nosso dia.

Até porque o inverno ainda não chegou!

 

 

 

 

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publicado às 00:22

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FOTO: MARIA QUARESMA

 

 

 

Fonte de inspiração...

 

A noite já vai longa, as folgas terminaram, amanhã, que já é hoje, é dia de trabalho, mas não podia voltar a quebrar a promessa.

Prometi, ontem, escrever todos os dias um texto, mais curto que o habitual, mas sempre uma história a tocar a hiper-realidade, que é como eu gosto.

Além do mais, começo a ter motivos diários para escrever.

A minha mulher começa a ser uma praticante de exercício físico, e isso é muito importante a vários níveis, eu começo, finalmente, a estar bem comigo e com a vida, que os últimos tempos não têm sido fáceis, mas nunca ninguém disse que era suposto serem.

Todos nós somos suficientemente fortes para sorrir enquanto travamos as maiores lutas. Eu, não.

Mas corro e isso faz-me vivo e mais forte.

Também me obriguei a colocar em prática aquilo que sempre soube que sería mais uma forma de me equilibrar na vida, a escrita.

Tal como quando corro ou pratico Muay Thai, também quando escrevo sou eu, no meu espaço próprio e intransmissível, nas minhas viagens solitárias.

No fim, sinto o mesmo, paz, alívio, e consigo até sorrir.

Confesso que as redes sociais me provocam desgaste, por vezes, mas nunca me deixo embalar pelo nível decadente, por vezes escrevo coisas que logo as apago ou as corrijo.

Mas as redes sociais são parte dos meus dias, por opção ou por obrigação, uma coisa leva a outra.

É na escrita que também despejo aquilo que contenho, provocado por insensibilidades, falta de decência, de humanidade, as coisas abjectas.

Misturo-as com pensamentos que me assombram.

Acredito que me comece a ser mais fácil, a partir de agora, escrever regularmente.

A esta hora a audiência é pouca, a minha audiência é sempre pouca, o meu blog não é um blog de massas, não nasceu para o ser, é um canto onde os sentidos descansam ou se sobressaltam, e é bom sinal, sinal de que são poucos aqueles que se deixam tocar, são poucos aqueles que estão atentos aos detalhes, que tudo determinam. Poucos, pessoas que me lêem e gostam.

A audiência é pouca, mas pela manhã partilha-se e a coisa dá-se.

Tenho, portanto, todos os motivos para escrever mais vezes.

Seja.

Domingo temos uma corrida.

A Carla e eu vamos a Viseu.

É um dia especial, por várias razões.

Vamos homenagear, à nossa maneira especial, um amigo, vamos correr juntos, pela segunda vez, uma corrida oficial.

A Carla vai correr os 10 kms da Wonder Running do Dão e eu a meia maratona.

A ver vamos.

Já pedi para trocar de prova, para correr junto dela, porque será a primeira vez – agora ela está em condições – de nos superarmos juntos, de puxar um pelo outro, garantindo sempre a sua corrida, como prioridade.

Decidi desistir da meia maratona para a ajudar a correr os 10 kms em 1.10h, afinal, há meses, na nossa primeira corrida juntos, fez 1.38h.

É ou não é um desafio daqueles?

É por isso, por isso vou correr a seu lado, porque temos um objectivo diferente de todos aqueles que tivemos nestes cerca de trinta anos juntos.

Correr 10 kms em 1.10h.

Só isso, mas isso é um objectivo que vai custar a atingir.

Só que a Carla e eu, juntos, atingimos sempre todos os objectivos nesta vida, até todos os desaires, e este objectivo é mais um, podia ser quem consegue estar mais tempos sem respirar, mas não, foi este que escolhemos.

Tenho a certeza que se o conseguir, ela rapidamente subirá para outros patamares.

Hoje, saímos para correr 8 kms, disse-lhe:

- “ Vamos começar a experimentar para domingo”.

Corremos, sem paragens, a não ser para beber água nos bebedouros do passeio ribeirinho, foi lá que corremos, junto ao rio.

O nosso rio.

E, mesmo quando as minhas pernas começaram a reclamar, porque ainda ontem correram 17 kms, bastou-me olhar para o néon rosa dos nike azuis, em movimento constante, para me convencer de uma coisa, para chegar a uma conclusão, mais uma, nestas minhas corridas:

Tu só serás exemplo para alguém se conseguires ir a seu lado, nunca à frente, nunca atrás.

Ela fez os seus 8 kms mais rápidos de sempre ( dois meses de treino), comigo.

Eu fiz um pouco menos que ela, mas mais do que podia ter feito.

Porque o tempo não conta.

É uma das raras situações da vida em que o tempo não conta, conta o afecto, o amor, a paz, a comunhão, a amizade até.

No domingo vai ser assim.

É que ela fica tão, mas tão mais gira, naqueles ténis de corrida.

 

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publicado às 00:32

A PRESSÃO DAS SAUDADES

por The Cat, em 19.09.16

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Foto: The Cat Run

 

 

Não era um segredo de estado, mas era um segredo meu, como tal não contei a ninguém, para não dar parte fraca.

Há um ano, cerca disso, aquilo que era um dos meus maiores prazeres começou a transformar-se em algo insuportável.

O exercício físico entrou, de forma constante, na minha vida, faz para o ano quatro anos.

Habituei-me, viciei-me, mas nunca me preocupei, comigo. Queria era correr.

Depois, o Muay Thai pegou-se-me, cheguei a treinar três a quatro vezes por semana.

Nos intervalos corria.

Por esta altura, em que escrevo, as minhas pernas já correram uns 5 mil e 200 quilómetros, em pouco mais de três anos.

Até que, há cerca de um ano, chegou a factura.

Nestas coisas dos créditos mal parados a factura vem sempre pesada.

Tanto quanto as minhas pernas.

Deve estar a pensar; grande maluco, masoquista. Louco.

Só um louco se permite correr mais de um ano em pleno estado de dor.

As minhas pernas chegaram a pesar todo o granito do mundo.

Os especialistas dizem-me que os meus músculos, o meu corpo, entraram em sobrecarga.

Traduzindo; os músculos das pernas inflamaram, de tal forma que começou a ser quase impossível correr.

Aquele temor que às vezes te invade, e se um dia deixo de conseguir correr, assaltou-me muitas vezes, até à última.

Não precisei de recorrer a especialistas para perceber que estava a dar cabo de mim.

As contas não batiam certo, entre o deve e o haver havia um abismo cada vez mais pronunciado.

Em passos largos, a minha alimentação não existia.

Um café e um iogurte e um pouco de azia aos primeiros momentos da manhã.

Um bolo – já não salivo – e um café duplo uma hora depois.

Depois, o dia era assim, uma sandes, uma coca-cola, imensos cafés.

Parece óbvio, menos a um parvalhão como eu, que não entrava combustível dentro do motor, as válvulas começavam a ficar entupidas, a combustão dava-se ao contrário, percorria-me as pernas, num calor intolerável, quedando-se em tendões retorcidos, que nem as massagens devolviam ao formato normal.

As tubagens de arrefecimento, de alimentação de combustível, tudo dentro de mim funcionava ao contrário.

A minha alimentação era como gasóleo dentro de um motor a gasolina.

Nas últimas semanas estava a correr dez quilómetros no mesmo tempo quando comecei, há três anos, com uma diferença; era um calvário doloroso.

No final de cada corrida o stress muscular transformava-se, por processos químicos do organismo, em stress mental, e físico, imediatamente.

Já nada estava a funcionar em mim.

Os treinos de Muay Thai apenas escondiam o problema.

São tão intensos que a libertação de substâncias químicas dentro do organismo cria um estado de profunda felicidade.

Mas, as dores estavam sempre presentes.

O que eu gastava não era devidamente reposto, a descompensação, a todos os níveis, estava a ser visível.

Consultei uma nutricionista, mudei hábitos alimentares, embora ainda seja um pecador, eterno pecador, comecei a ver resultados fisicamente, o exterior.

Só que, dentro de mim tudo continuava como antes.

Um cansaço extremo.

Houve vezes em que cheguei a parar uma semana inteira, raras, admito, e as dores desapareciam, até ao próximo treino, até à próxima corrida.

Bastava um quilómetro. Dores tão fortes, que eu sentia a lactose nos tecidos subir por mim acima até ao meu cérebro.

A mudança de hábitos alimentares, sobretudo comer de três em três horas, evitar algumas comidas e ingredientes, estava a dar resultados, mas não o suficiente para me devolver algum bem-estar, algum prazer, porque o esforço era sempre superior e a mudança tem pouco tempo.

Faz precisamente hoje uma semana que pensei desistir.

Saí para correr dez quilómetros.

Ao fim do primeiro pensei voltar para trás.

Armei-me em forte e segui.

As dores aumentaram de tal forma que tive que parar sete vezes para alongar, não consegui fazer um único quilómetro sempre a correr, a cada passada pensava voltar para trás.

Passou-me pela cabeça aquela frase batida: quando pensares desistir, olha para o que te fez chegar aqui!

Parei.

Parei, mesmo. Ri-me. Estas frases são engraçadas, elas fazem sentido, menos quando as barrigas das tuas pernas querem saltar para fora e a parte de cima das pernas carrega duas toneladas.

Ri-me, decidi-me, se é a última vez, vou cumprir o objectivo; chegar ao fim.

Pelo menos não saio pela porta dos fundos.

Nunca gostei da porta dos fundos.

Arrastei-me.

Cheguei a casa decidido; acabou o desporto.

O prazer tinha dado lugar a uma quase aversão.

Foi o coração que não me deixou afastar.

Nem com magnésio, nem com proteína, nem com anti-inflamatórios, com nada, nada me conseguia ajudar.

Um fisioterapeuta meu amigo, uma sumidade, aconselhou-me análises e crioterapia.

A decisão estava tomada, não a contei a ninguém.

Acontece que nesta vida das corridas e do desporto conhecemos pessoas que entram na nossa esfera pessoal, muitas delas cruzam-se nas corridas, entre milhares.

Um desses amigos tornou-se num corredor excepcional, em muito pouco tempo.

Pedi-lhe ajuda, nessa noite. Conselhos. Como é que ele conseguia recuperar-se, reagir, progredir.

Falou-me de um suplemento que reúne todos as substâncias que o organismo humano necessita, em um só comprimido.

Vitaminas, sais, substâncias termogénicas naturais, e mais uma série de coisas.

Era a minha última esperança.

Nessa mesma noite fui comprar e tomei a primeira toma.

Dois após o jantar, dois após o almoço.

Uma hora depois, como que por milagre, as minhas pernas começaram a normalizar.

Há um ano que não tinha uma sensação tão boa.

Ao segundo dia, as minhas pernas pareciam nunca terem corrido um único quilómetro na vida.

Achei aquilo rápido demais.

E estava a ser.

A toma era apenas um comprimido e não dois.

Refiz a toma.

Notei poucas diferenças, embora as tenha notado.

Continuavam estáveis, embora aqui e ali com algumas partes amassadas, mas o normal para quem voltou a correr dez quilómetros, sem dores.

O tempo de cada minuto continua longo, mas é muito pouco importante, isso do tempo, para mim.

Nesta fase interessa-me correr, meter muitos quilómetros nas pernas – hoje corri 17 – e rapidamente, sem dores.

E, assim está a ser.

Nem no início, quando comecei a correr, as minhas pernas estiveram como agora, leves, soltas, em paz.

Isto não sería motivo para um texto meu, não fosse a mudança que aconteceu, em uma semana, importante mudança.

É que domingo vou correr a primeira meia maratona deste ano.

A Wonder Run do Dão.

E, sei, porque conheço o meu corpo, o meu organismo, a minha cabeça, que vou chegar ao fim, e bem.

Faça o tempo que fizer.

Ok, eu conto.

Isto que aconteceu, o ter criado condições para me tratar, alimentando-me bem, tomando suplementos que restituem aquilo que perco, só ganha importância por causa dessa corrida.

Todas as corridas me marcaram. Todas elas. É como que uma participação num acto litúrgico, uma sessão transcendental.

Mas, houve uma corrida que me marcou muito.

Apesar de não estar em condições psicológicas para correr essa prova, decidi-me correr, era a minha forma, a única, de homenagear um amigo que tinha morrido, dias antes, numa corrida. Um grande amigo.

No fim dessa corrida, na Praça da Figueira, subi ao primeiro lugar do pódio e ergui os braços ao alto.

O resto guardo para mim.

Domingo, dia 25, a meia maratona do Dão é, tal como essa outra corrida, uma transposição, um tributo, uma homenagem.

Há uma semana estava fora de questão fazê-la.

Hoje, é uma certeza.

E isso deixa-me muito feliz.

Domingo faz 25 anos que morreu um dos meus “irmãos”, um dos meus “melhores” de sempre.

Tenho a certeza, Artur, que quando cortar a meta, já com a medalha ao peito, quando erguer os braços ao alto e olhar para os teus olhos azuis e esse sorriso filho da puta, que me vão correr as mesmas lágrimas.

Não precisamos de estar tristes para chorar.

Domingo vou lá, por ti.

Mas, deixo o último segredo:

Mesmo que fosse a rastejar, estaria lá de qualquer forma.

Não ia perder esta oportunidade de estar contigo durante umas boas duas horas e tal.

Que se lixe o tempo. O tempo corre.

E, Artur, vamos voltar a rir, a dar carôlos um ao outro, a ouvir e dançar Bruce, enquanto percorremos as ruas e as vielas de Viseu, mas por favor, não dispares, não estou em condições de te acompanhar.

Sempre foste muito mais ágil e bonito que qualquer um de nós os outros.

Vou lá ter contigo e vamos correr, por que a dor já não vive em mim, ela foi real, mas foi uma mera metáfora durante todo este texto.

Só o teu sorriso me invade.

Sem dor.

Mas, com saudade.

Está combinado.

Até domingo, maninho.

 

 

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