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(Foto by the Cat ) 

 

 

Ela apareceu, do nada, de repente, porta dentro, uma luz quente ficou lá atrás, um rasto, o rasto dela, ela, apareceu, passou, passou pelas costas do sofá mais comprido, pelas minhas costas, encostadas. Encostado.

Segui-lhe os movimentos, imóvel, sentado, olhar em frente. Enquanto ela passava.

Imaginei-lhe os momentos, os passos, e senti-a, a ela e  aos movimentos.

Abriu a porta da varanda. Também senti, como um abalo.

A rede que travava os mosquitos, grandes como cobras, ou maus como Drácula, há muito que estava rasgada em um dos lados.

Eles não costumam entrar, raramente o fazem, sabem - eles são uma comunidade dominante, nesta região plana e quente em que me encontro - sabem que se o fizerem serão literalmente esmagados. Alguns não salpicam, mas espalham sangue, os filhos da mãe.

Isto foi ficção, a rede mosquiteira está intacta e, na verdade, os mosquitos são grandes e eu esmago-os sem piedade, quando instalados no meu cuidado corpo.

Abriu a porta da varanda. Cruzou-se uma brisa, cruzaram-se brisas, a sala ficou fresca, a televisão desligada, apenas a luz do candeeiro, branca, e a brisa.

A sala fresca.

Depois, a sala começou a formar-se redonda, uma bola, as paredes redondas, uma esfera, atravessada por uma brisa que desejei que fosse para sempre.

Como nos filmes que retratam a Índia colonial e os seus recantos frescos e tranquilizadores.

Era assim o ambiente e a ambiência.

Do lado de dentro da bola, que era agora a minha sala, ou a minha sala, que era agora uma bola, continuava eu, sentado, e ela, na varanda, e a noite por cima de nós, e a brisa.

Um globo terrestre, cheio de tonalidades brancas e cor de café com leite.

Eu no centro. Sentado. Sossega.

Nada entre o céu e a terra.

Chega, sossega.

E sentei-me a escrever.

Em desassossego.

Sentado. Desassossegado.

Chega, desassossega.

A primeira vez que andei numa nave espacial o que mais me despertou a curiosidade, me prendeu os sentidos, não foi sequer a viagem, a ausência de gravidade, a comida em pílulas, foi a cor da nave espacial.

Prateada. Polida. Reluzente. Foi isso. Não foi avistar a luz das estrelas.

O importante é ficar bem. Ficares bem.

Havia uma pessoa que não esperava por mim. Ainda assim, todos os dias, ainda o sol dormia, eu ia daqui até lá, só para não a ver, só para me permitir pensar que se um dia eu voasse num cisne gigante, cor de rosa, ela havería de aparecer. Nesse momento, cortava a cabeça ao cisne - a paciência tem limites - e saltava lá para baixo.

Ela haveria de esperar.

O cisne levantou-se, abandou as penas, a cabeça, caída em cima da rocha, fez um movimento em "ésse". Ergueu-se. Voltou ao seu lugar de origem.

Voou até mim, junto a mim, enquanto as nuvens nos salpicavam e trespassavam, acompanhando-me na queda-livre, olhando para mim e eu para ele. Uma queda ilusória.

Foi quando saquei do baralho de cartas.

Dei dez a cada um.

Eu, o cisne rosa, já com a cabeça a funcionar, o cão que tinha o focinho e o pescoço cor escura e o camaleão amarelo, momentos depois verde, castanho, cabrão.

Quatro à mesa, dois a dois, pares, kizomba, algodão doce, merdas que fazem mal, sueca, copas, saco o trunfo e lanço para a mesa.

Olhares trocados, gosto de destrunfar a abrir, e o jogo todo na mesa.

A música irrita o camaleão.

Muda de cor.

Protesto: não vale sinais.

O cisne manda-me calar. Está a perder.

Filho da puta, devolvi-lhe a cabeça e agora não lhe chega o ar virtualmente altivo - corto-lhe a cabeça quando quiser -, ainda precisa de me engatar a vaza.

Não faço renúncia. Não sou desse campeonato.

Olho para o cão, Inspiramos. Avançamos. Tropa. Assumir o tal risco.

Chegados a zona do controlo de entradas para a nave espacial, sinto que o meu companheiro está nervoso.

Dou-lhe um livro da Gina e indico-lhe o WC, que fica logo a seguir ao edifício sem paredes.

Passado aquele controlo, a viagem era nossa.

Dali já conseguia avistar a nave espacial, metalizada, não, que se danasse o cão de focinho escuro.

Foi quando alguém exclamou: não há mais trunfos para jogar.

A mesa indignou-se, partiu-se em pedaços, o cão ganiu, o cisne ficou sem cabeça, o camaleão era agora um casulo cor de vinho.

Começou a trovejar.

A porta da varanda estava aberta.

A brisa cantava-me ao ouvido. Havia gavetas abertas.

Cartas espalhadas, com o Às de copas virado para cima.

Cartas escritas com mãos gastas com o tempo. Cartas que falavam segredos que não se liam no remetente.

Havia gavetas fechadas. Nunca as abri.

Tive medo do que lá de dentro saltaria.

Já me basta os dois gatos a jogar ping-pongue e o barulho da bola a bater, e eles que não se calam.

Ao menos que deixe a porta da varanda aberta, a ver se a brisa não se esconde e a noite não se vai.

Prefiro uma fartura, às cores, polvilhada de farinha doce e açúcar mascavado, e a música da festa popular, tocada de forma barulhenta, que irrita os olhos, lá ao fundo do horizonte, denunciada por fogo de artifício, que me entra pelos ouvidos dentro, que me incendeia o coração, como o ácido que sobe e me queima a traqueia.

Posso, mas não quero, dá trabalho.

Por isso, reflicto, de vez em quando.

Prefiro isso, ao risco de um dia não passar o controlo e ficar em terra.

Já andei na nave espacial e gostei.

Dou mais um bafo.

Costumo cheirar oxigénio puro quando estou em grande altitude.

Depois vou acender um charuto e comer um cacho de uvas.

Depois lambo o ecrã do computador, para ficar bem selado, meto na caixa postal, e envio, pelos correios, pela Posta Restante, para uma esplanada, num praia sem areia e sem mar.

Sem previsão de chegada.

Enquanto isso os cartuxos vão queimando.

Já não dei por ela passar de volta, nem ter fechado a porta da varanda.

A brisa parou.

E, no fim de tudo, sem previsão de chegada.

O pior ficou para trás. Deixou-me apenas um traço de luz quente.

Ate que chegue o amanhã, o pior ficou atrás, e no que faço, e no que sou, fico a pensar no daqui nada, venha ele montado num unicórnio, ou a escorregar num arco-íris de apenas três cores, amarelo, verde e laranja.

Um dia de cada vez, porque os anos têm tantos séculos dentro.

Carrego no botão Power. Desligou-se.

O que fiz já passou.

Fica entre nós. Entre o céu e a terra.

 

 

 

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publicado às 23:16

MEIA NOITE E UM DE UM DIA QUALQUER

por The Cat, em 14.08.15

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Por hoje está escrito. 

Até porque ando a ler um livro, escrito por um amigo, um livro que me tem feito perder noites, durante estas férias, e manhãs de treino, compensadas à noite, antes de ler ou de escrever e ler.

Não somos próximos, eu e o meu amigo, que escreve livros, mas não tão distantes quanto achamos.

Eu gosto de ler. Não é de agora. É desde quando gostava de conversar com ele, nas manhãs verdes e brancas, sentados na bancada central, só os dois.

Uma bancada e um estádio só para nós dois.

Conversávamos, raramente sobre coisas que se conversam todos os dias.

Recordo-me.

Dissertávamos, depois divergimos.

Até agora.

Um voltar ao contacto, como se diz, através de um livro, como digo.

Leio e parece que o escuto, como desde esse tempo diferente.

Leio Muito. Todos os dias.

Na internet, jornais, blogues, redes sociais, notificações com últimas horas, leio coisas fofas, outras interessantes, leio muita merda. Mas, também leio muito, coisas muito interessantes.

Gosto de ler.

Fora da internet, jornais, revistas, livros.

Até rótulos de frascos, a composição, a morada do fabricante, do distribuidor, gosto de ler os rótulos dos shampôs, o Ph, a cena das particulas que interagem com o couro cabeludo deixando-o mais lindo e sedoso. Leio isso tudo. Leio tudo, desde que a quase meio metro dos olhos, que ainda não tive vagar de ir comprar uns óculos.

Não dá para tudo.

Escolhidos, a dedo, e outros que me caem no colo, os rótulos, os folhetos da publicidade, os jornais, as revistas, os livros.

Como na internet.

Gosto de biografias. Gosto de romances, no que aos livros diz respeito.

Por isso, leio poucos livros por ano. Porque se-me escasseia o tempo.

Não dá para tudo.

Uns dois, três, na altura das colheitas. Nos livros, como e mais uma dúzia de coisas na vida, sou selectivo.

Não leio tudo, como quase muita gente, ao contrário dos rótulos.

Aí sim, vai tudo a eito.

Um livro tem que me agarrar pela história, pela escrita, pelo cheiro do escritor, impregnado em cada letra de tinta preta.

Tenho que sentir que ele vai escrevendo a história à medida que eu vou avançando nas páginas.

Depois, a trama, o enredo, as personagens, os locais, o drama, a intensidade, e a escrita, tem que ser ao sabor da pena.

Gosto de ler quem escreve, e deixa uma sustentação criativa, uma solidez do conhecimento do assunto sobre o qual escrvere, e da técnica da escrita.

Não, como eu.

 

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publicado às 23:49

RITA RODRIGUES - #100CORRIDASEM2015

por The Cat, em 11.08.15

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É "aquela" sensação que se experimenta no final das primeiras corridas que faz com que voltemos a calçar os tênis para ir para a rua correr.

Uma sensação que vai melhorando. Que se torna maior e mais preenchedora. Que acaba por tomar conta de nós e dos nossos hábitos.

Mais cedo ou mais tarde é ela que nos comanda. Que nos põe o despertador para as sete da manhã. Que nos põe os tênis na mala quando vamos de férias. Que nos empurra para a rua quando está chuva, frio, vento ou um calor abrasador. E que, ocasionalmente, nos sussurra ao ouvido "não sejas preguiçosa, não venhas com desculpas, vai correr!"

Basicamente é à procura dessa sensação que corremos. Pode ser o primeiro mês de corrida ou a milionésima corridinha diária. Não interessa. Experimentada, pela primeira vez essa maravilhosa sensação de bem-estar, leveza, superação, vamos querê-la sempre.

Pois foi à procura dessa sensação (sobretudo a de superação) que no início deste ano lancei a mim mesma o desafio #100corridasem2015.

Vi pelo Instagram que algumas pessoas, noutros países, que também correm com frequência, estavam a preparar-se para no dia 1 de janeiro arrancar com esse desafio. E eu decidi alinhar.

Sabia que era um desafio ao meu alcance. Em 2014 tinha feito 214 corridas portanto 100 (menos de metade) era uma meta acessível. Por isso, lancei um desafio dentro do próprio desafio que era atingir as 100 corridas ainda no primeiro semestre.

Fui correndo ao meu ritmo normal. Quatro a cinco corridas por semana. Em média cinco quilômetros por corrida. Uma vez por semana tentava esticar a distância. Pelo meio ainda me preparei para a Meia Maratona de Lisboa que corri em Março, apetrechada com duas Go-Pro para fazer uma reportagem diferente para a TVI.

Fui correr muitas vezes quando o Sol ainda não tinha acordado. Muitas vezes cheia de roupa, tal era o frio na rua. Às vezes só aos 500 metros é que começava a acordar! Levei muita chuva na cara. Também corri muitas vezes sem vontade. É inegável. Não vale a pena dizer que há sempre vontade de correr e que contamos os minutos para sair para a rua. É mentira. Às vezes só queremos ficar na "ronha". Ficar a dormir até mais tarde. Sair do trabalho e deitar no sofá. Mas "o que tem de ser tem muita força". E vencida a preguiça, a tal sensação no final da corrida vale bem a pena o esforço.

Chegou Junho e o contador aproximava-se das 100. A adrenalina subia. Estava quase. Percebi que ia conseguir terminar a centena de corridas no primeiro semestre.

Quem me segue no instagram, apercebendo-se que as 100 estavam ao virar da esquina, reforçou os apoios e incentivos. Toda essa energia positiva dá uma força fantástica e uma motivação importantíssima.

  1. 2. 1. Faltava apenas uma corrida!

Era domingo. Estava um Sol lindo. E calor. A corrida não começou da melhor forma. A cabeça dizia-me "vai Rita é hoje" mas as pernas não respondiam. Aliás o corpo inteiro parecia estático. Quase petrificado!

Mas se há dias em que é a cabeça que nos põe abaixo e impede de fazermos a corrida que queríamos, hoje era o oposto. O corpo não queria sair do lugar mas a cabeça já estava na meta: nas #100de100 corridas em 2015. E foi assim que metro após metro cheguei ao fim daquela corrida, daquele desafio e me deixei abraçar por uma sensação ainda mais fantástica.

Nada como alcançar um objectivo.

É por isso que é tão importante sairmos das nossas zonas de conforto (hoje em dia um conceito muito em voga mas que efectivamente é pertinente) e impormo-nos desafios. Porque é nessa batalha que nos sentimos vivos e quando conseguimos alcançar o que nos tínhamos proposto sentimo-nos capazes de tudo. Sentimos que somos capazes de mais. E isso é viver!

 

Vale a pena.

 

Desafiem-se

 

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publicado às 16:50

QUALQUER DIA ESCREVO OUTRO LIVRO

por The Cat, em 10.08.15

Gosto de escrever quando estou de férias. A disponibilidade é outra.

Estou de férias ( por pouco tempo), e por isso volto a escrever, com a regulariade que é devida.

Tenho corrido praticamente todos os dias, mas o Muat Thai tem roubado algum protagonismo.

Este mês, Agosto, dizem, o blog do Gato apresenta como convidada das palavras alguém que tem sido mais do que inspiração.

Alguém que se revelou amiga, - sim, é uma mulher - alguém que é uma profissional de excelência, mas não só, e mais não digo.

Digo: adora correr.

Nas próximas horas, the cat run!

 

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publicado às 23:59

MÉNAGE À TROIS

por The Cat, em 06.08.15

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Começar um texto, qualquer que seja o tipo de texto, com uma negação, é matar, desde logo, esse texto. É como as vírgulas, essas doidas.

Por isso é que não comecei por escrever o que vou escrever agora. Esperto!

Não sou homem de uma só paixão.

Uma afirmação, uma negação, que não me matou o texto à nascença.

E nunca estive tão apaixonado.

Tenho em mãos - em pés, em pernas, em braços, joelhos, cotovelos, cabeça - duas paixões, ao mesmo tempo. Com o corpo todo, e a cabeça envolvida. Não dividida. Nem por sombras.

Eu, quando me apaixono, sou tramado. Apaixonadamente tramado.

Presentemente, vivo uma relação que começou há três anos, a par de uma outra relação que começou há dois meses.

Relações paralelas. Uma ménage à trois. Assumida. Together.

 

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publicado às 09:45


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