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VAI CORRER

por The Cat, em 31.03.15

evora foto 1.JPG

 

 

 

Se correres como eu, vais chegar às seguintes conclusões:

- O vício de correr não se explica;

- Corro para sorrir;

- Corro porque gosto e não para os «gostos»;

- Corro para ter tempo para mim;

- Corro pela necessidade de respirar fundo;

- Corro para ser livre;

- Corro para limpar;

- Corro para descontrair;

- Corro para viajar pelo mundo de borla;

- Corro para pensar;

- Corro pela liberdade;

- Corro pelo vento, pela chuva e pelo sol;

- Também corro pelo duche :)

 

Mas, acima de tudo corro por mim. E quando chegares à conclusão que corro por mim e não para ti, vais começar a correr por ti e não para mim. Vai correr. Porque quem corre por gosto, não se cansa.

 

Alexandre Évora - Jornalista - Runner

 

 

 

 

 

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publicado às 18:30

CORRO POR MIM E NÃO PARA TI

por The Cat, em 31.03.15

evora foto 2.JPGEstá frio. Não me apetece. É muito tarde. Não gosto de correr. Vou amanhã. Está muito calor. Ainda ontem corri. Não sei correr. Não gosto de correr sozinho. Está muito vento. Não aguento 5 minutos. Está a chover. É muito cedo. Não tenho tempo. Estou cansado. Não gosto de correr acompanhado...Vai correr e deixa de pensar no mais fácil. Vai correr e pensa. Pensa no antes e no depois. Pára e vê o pôr do Sol. Pensa e avalia. Corre acompanhado. Corre e ouve a tua música. Corre e toma decisões. Corre e chora. Corre e ri-te às gargalhadas. Corre e descobre o teu corpo. Corre e escolhe os caminhos da tua vida. Corre e ouve o mundo. Corre pela moda e não para ficar na moda. A moda que te faz viver hoje, muito provavelmente acrescenta-te alguns minutos de vida saudável no futuro. Corre, pára e vê o nascer do sol. Corre e pensa nos teus amigos. Corre e sorri. Corre e levanta a mão ao teu companheiro que vem em sentido contrário. Corre sozinho. Corre e regista o momento. Corre e deixa-te levar pela música. Corre e incentiva, com uma mão nas costas, o teu companheiro que está parado. Corre e pensa no amor. Corre, publica e empurra os teus amigos nas redes sociais. Corre, pára, respira fundo e sente o ar. Corre e pensa na vida. Corre e sente o teu corpo. Corre e pensa na tua família. Corre e canta. Corre porque é difícil. Corre para tornar tudo mais fácil. Corre de forma responsável. Corre.

 

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publicado às 16:45

OS AMIGOS DE ALEX

por The Cat, em 31.03.15

IMG_4273.JPG

 

O Alexandre Évora é jornalista e corre.

Trabalhámos juntos até ao dia em que ele foi embora.

Mantivemos o contacto nas redes sociais.

O Alex é runner.

Inspiram-me as suas corridas, digo eu.

Inspiro-o para correr, diz ele.

O gato lembrou-se então de convidar o Alex para escrever. Ele aceitou.

Daqui a pouco podemos ler o seu primeiro texto e ao fim do dia o segundo.

Outros convites se vão seguir a outras pessoas. Por agora fica assim.

Obrigado, Alex

 

 

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publicado às 14:55

A VIDA E MORTE DE UM PAR DE TÉNIS

por The Cat, em 30.03.15

TENIS 1.jpg

 

Quem pensa que os ténis que nos acompanham durante tanta passada não têm vida está redondamente enganado(a).

Um par de ténis - ninguém corre só com um calçado, descalço acredito - nasce, cresce - é utilizado à bruta - e morre, no limite reforma-se e é arrumado na prateleira da vida. Como qualquer um de nós.

Há quem diga que duram uns 500 a 800 quilómetros, em média, depende de pé para pé. Umas 200 horas de asfalto comido a ponto do pecado da gula parecer uma brincadeira de anjinhos.

Diz que depois disso a sola perde 30% da capacidade de amortecimento. Pode não parecer importante mas, se olharmos bem para o nosso par de ténis, fiéis companheiros, somos obrigados a reflectir na sua existência, naquilo que sentem, os ténis têm sentimentos, pobres coitados, leais amigos. É verdade. Quem nunca correu que atire a primeira sapatilha.

Mas, sejamos pragmáticos.

Quando um par de ténis corre mais de 1.000 quilómetros a pressão plantar aumenta quase 65% e choca com os tais 30% de perda de eficácia no amortecimento.

Agora, imagine, 1.000 quilómetros, dos quais metade são corridos, quase diariamente, como se os pés estivessem praticamente desprotegidos, sem que disso se dê conta.

Pois é, são situações destas que legitimam e incendeiam algumas discussões à mesa do café.

Há uns meses, num outro blog que tinha e que entretanto este mandou encerrar, escutei uma conversa entre dois pares de ténis.

Eram ambos da mesma marca. Os primeiros tinham corrido 1.000 quilómetros num ano. Ainda não se falava do tempo de vida de um par de ténis nessa altura, outros tempos.

Os primeiros ténis não lidaram bem com a rejeição, que não foi mais que a ordem natural das coisas.

TENIS 2.jpg

 

Passou um ano. Os novos ténis correram mais que os velhos. Palmilharam 1.200 quilómetros.

Um ano passou, o bastante para se esquecerem - a memória é curta - daquele domingo em que apareceram e arrumaram com os outros ténis a um canto. Chegou a hora.

Decidi então comprar uns aviões, estreados numa meia maratona. Há o mito de que não se estreiam ténis em provas.

É esse o tema de uma forte discussão - que poderá ler pela manhã, pela fresca - entre os seis ténis, os três pares, sentados a mesa do café - dois deles estão em cima de umas almofadas gigantes às riscas.

E, no final, sempre ficou a saber que pode poupar pés, pernas, joelhos e coluna, escolhendo bem os seus ténis. Sobretudo no timing certo.

Passe por cá ás dez da manhã, depois da corrida, enquanto relaxa antes de começar o dia e divirta-se. Eu diverti-me com a conversa, juro.

 

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publicado às 00:54

RATO DE LABORATÓRIO AOS FINS DE SEMANA

por The Cat, em 28.03.15

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Vim para o Oeste. Não que estivesse cansado. Para arejar.

A vista do quarto é soberba. Dunas e além o mar.

Diz que está calor lá para as minhas bandas. 

Antes de vir espreitei o estado do tempo para os próximos dias. Agradável.

Só que eu vim para o Oeste e no Oeste está frio quando está quente lá para as minhas bandas.

Não me atrevi a sair para correr. Estava mesmo desagradável. 

Com três quilómetros em atraso e com 19 para correr - o programador da aplicação móvel devia ter a mania que era malandro - não tive outro remédio senão fazer-me à passadeira que eu tanto amava. Amava.

Já não amo.

Senti-me um rato de laboratório a correr sem nunca sair do lugar.

Por isso decidi colocar uma música e uns efeitos.

Vê-se e entende-se melhor.

Um gato preso num corpo de rato, de laboratório.

 

 

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publicado às 20:43

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Agora, era fácil dizer que gosto de correr desde sempre - toda a gente sabe que é mentira - ou que o atletismo sempre foi qualquer coisa que me apaixonou desde que me conheço - atletismo é desporto, não é correr, correr é ocuparmo-nos das questões últimas e em última análise é desporto, como o atletismo, é assim que vejo a coisa.

Contra mim falo.

Quando era miúdo a televisão transmitia muitas provas de atletismo, mas aquilo nunca me puxou. Ver uns tipos a fazerem sempre o mesmo era chato.

Parava, quando calhava, para ver as finais dos Jogos Olímpicos e era uma sorte.

É um bocado como ser jornalista. Eu nunca quis ser jornalista. Não era um sonho de pequenino, não era uma meta. Só tomei a decisão de ser técnico instalador de palavras, de correr linhas de escrita, como ofício, já homenzinho. Calhou. Um dia conto essa história.

Aqui chegados, dizer que quem corre também sofre.

Há algo metafísico aqui: sofrer e ter prazer. Sádico? Masoquista? Ambos?

Como será fácil imaginar, tenho, desde há dois anos os músculos das pernas constantemente inflamados, cansados, rijos. Austeros.

Mesmo quem não corre e está a ler este texto percebe com facilidade que quem corre regularmente, com pouco tempo de descanso pelo meio, - ao contrário do que é aconselhado - passe a vida a mergulhar as pernas em água fria, a besuntar os gémeos com loções chinesas ou a fazer alongamentos involuntários sempre que o sub-consciente descobre um degrau imaginário para colocar as pontas dos pés e esticar as pernas. Alongamentos quase imaginários.

Faz parte.

As bolhas que já não existem nos pés, as virilhas assadas em corridas passadas, as quebras de açúcar em agonia, as tonturas, as securas, tudo isso ficou na linha de partida. Lá atrás, já longe.

Mas, cada vez que parto sei que volto e por vezes voltar custa mais que partir.

A meio da viagem arrependo-me, por vezes.

 

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É a meio da viagem que concluo que devia ter visto mais provas de atletismo quando era miúdo. Como não vi e como já não vou para novo, sempre que corro, sempre que o corpo embirra comigo a correr e a cabeça embirra com o corpo que corre, vem-me à memória a única corrida que guardei.

Em cada momento que decido parar vejo Carlos Lopes. Jogos Olímpicos. Los Angeles, Agosto. 1984.

O homem que foi atropelado - involuntariamente - por um comandante da TAP, enquanto treinava, na Segunda Circular, em Lisboa, uma semana antes de ganhar a medalha de ouro na maratona, uma semana antes de bater o recorde olímpico e tornar-se um dos melhores do mundo, da história, de sempre.

É tão simples:

Basta recordar aquela imagem, a entrada no estádio, a camisola branca com buraquinhos, o verde e o vermelho, basta olhar de novo os traços do rosto suado, as pernas torneadas e rígidas, a passada leve mas sofrida e aquele sorriso no final, já nem falo quando todos nos levantámos e cantámos o nosso hino, em todo o mundo!

É tão simples:

Carlos Lopes foi o nosso "mais grande". Eu não sou nada.

Mas penso nele sempre que quero parar, sempre que as pernas se transformam em pesados blocos de cimento.

Cerro os dentes e imagino-me a cortar a meta, em LA, a sorrir como ele, quando coloco a minha própria medalha de ouro ao peito e tiro a foto com a bandeira portuguesa a meu lado. Só para a foto!

É tão simples:

Bate os teus próprios recordes.

Bate os teus medos mais profundos e serás sempre um campeão. 

A selfie vem no fim.

 

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publicado às 13:31

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Correr é moda. Correr é uma moda. Correr é para quem quer aparecer. Correr serve para tirar fotos e meter nas redes sociais. Para ser visto. Qualquer dia é outra coisa.

E, não é que é totalmente verdade!

Quantas vezes já não ouvimos (os que correm) este tipo de frases, com sotaque trocista e algum acento tónico na ironia?

E continua a correr, o tipo que é como os gatos, o gato,  porque tem várias vidas, porque é vários tipos, todos diferentes.

Quanto aos gatos não estou certo que as sete vidas sejam todas iguais.

- Ainda bem que é moda. Por ser moda despertou-me a curiosidade. Depois o apetite.

-Tens fome quando corres?

- Alguma, quando vejo as fotos das corridas dos outros.

- Fome?

- Esquece.

Ainda bem que é moda. Foi por causa da moda que comecei a correr e agora sou isto que vês na foto.

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- Também combinas os ténis com a cor da camisola, os calçoes com as meias'

- Combino o que quiser.

- Não enerva, vá.

- Nada.

Mas deixas-me continuar?

 Os caracteres estão a chegar ao limite, pode ser?

- Claro, desculpa.

- Vou tentar concluir se não me interromperes mais.

Comecei a correr por necessidade. Comecei a correr porque é moda e gosto mais desta moda do que da moda dos ginásios. Depois a coisa foi-se dando.

- E agora…

- Podes ouvir?

- Desculpa.

- Agora corro porque respiro, porque como, porque amo, porque trabalho, porque vivo, porque rio, porque choro, porque adoro o vento na cara, a chuva nos olhos, o sol nos ombros, as pernas moídas.

Agora, corro porque sou outro tipo, o tal tipo diferente do outro tipo que referiste no início do penultimo post e no início deste.

- Corres porque estás viciado e qualquer dia arranjas outro passatempo?

- A tua vida é um passatempo, viver é um passatempo?

- Não, mas correr é. Bom, viver, se quiseres também é.

- Aí tens a resposta.

A minha vida passou ela toda a ser o meu passatempo e a corrida é parte da vida.

Não há como parar mais.

- Portanto, seguiste a moda, viciaste-te, percebeste o que de bem correr faz e estás um tipo diferente?

- Isso, diferente, melhor nem pior. Apenas corro.

E já não consigo viver sem correr.

 

Como o entendo, há tanto ainda para correr.

 

 

 

 

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publicado às 21:00

O GATO CONTINUA A CORRER

por The Cat, em 27.03.15

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Esta é a continuação da história sobre um tipo que quando deu por ele era um tipo totalmente diferente do que tinha sido até então, porque um dia decidiu começar a correr.

O tal tipo,  que no penúltimo post se levantou sem pagar os cafés e saiu para correr porque lhe faltava uma resposta, é sobre esse tipo, esta história que completa a outra, se bem se lembra, se não se lembra é ir reler. O dono do blog agradece.

O tipo voltou. Ele volta sempre.

Eu continuava na mesma mesa, na mesma cadeira, à espera.

Apenas tinha pago a conta, no penúltimo post.

- Correu bem?

- Correr corre sempre bem, pá.

- E já tens resposta para a minha pergunta?

- Se estou diferente por causa da corrida?

- Não, por causa do tempo.

- Para que é que queres saber isso?

 

Mal sabia ele que eu preciso de conteúdos para escrever, de ideias, de motivação e ás vezes ando ás voltas sobre mim mesmo até ficar tonto de não encontrar a chamada inspiração, porque assuntos não faltam.

 

- Quero saber porque sou teu amigo e porque a corrida modificou a minha vida de alto a baixo. É normal querer saber se contigo aconteceu o mesmo.

- Se tu tens a resposta para que é que me perguntas?

- Porque é sobre ti que quero saber. Básico.

- Eu?

- Não, a resposta.

 

Não entendi, nesta fase, a dificuldade que este meu amigo, este tipo, que passou a ser outro tipo, tem em me responder a uma coisa tão simples. Acho que se está a proteger.

 

- Eu respondo-te, mas acho que não é relevante ao ponto de andarmos há dois dias nisto.

- Estás a guardar algum segredo?

-Eu? Não!

- Então reponde, que a paciência tem limites.

- Eu, quando me sinto assim, com pouca paciência,  corro.

- Está bem, vamos terminar o assunto.

Os cafés estão pagos, já correste, já voltaste e continuas a fugir à pergunta.

- Mas eu respondo-te: a corrida mexeu comigo sim. Modificou-me, por isso tiveste o mote para escrever. Escrever sobre as mudanças que a corrida me trouxe à vida e aos dias.

Nos  últimos dois anos passei por uma metamorfose, confesso.

 

- Uma quê?

- Uma mudança.

- Porra, é isso que eu te estou a perguntar desde ontem.

- Então cala-te e escuta o que te vou escrever.

- Escreve, estou a escutar.

 

Finalmente o tipo ia dar-me assunto para escrever.

 

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- Comecei a correr porque estava gordo, a ficar velho, sentia-me menos bem com tudo.

Sempre detestei correr. Na rua nem pensar. Fi-lo por absoluta necessidade.

- Está bem, mas depois podias ter abrandado ou...

- Ou isso.

Nem abrandar, nem parar, nem sequer pensar em tal ousadia.

- Como assim?

- Passaram apenas dois anos mas correr já faz efectivamente parte da minha vida. É como outra qualquer tarefa que tenho que fazer no meu dia-a-dia, olha, respirar, por exemplo.

- Isso é vicío.

- É vicío, barato, legal e nem faz mal à saúde. Um vicío do caraças, sim.

- Vais dizer que começaste a correr porque gostas de estar na moda?

- Não, sabes que não. Mas, sim, claro que sim.

Graças a Deus (se ele existir).

À moda devo a corrida. Mas, se quiseres continuar, continuamos mais logo. Agora foi desfilar.

- Vais correr.

- Eu não corro, eu desfilo. Eu sou um corredor. Até já.

-Até já, gato.

- Por isso desfilo.

(E deixou escapar uma gargalhada que se ouviu lá no fundo, lá no fim da corrida)

 

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publicado às 15:33

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Sem tirar nem pôr.

O blog Desconcertezas morreu. O gato matou-o. E matou-o com traços de sadismo.

Primeiro ele entrou-lhe pelas definições dentro. Depois selecionou tudo. Não satisfeito e já com o Desconcertezas a definhar, o gato ( The Cat Run para os amigos e amigas) seleccionou-o todo, transformou-o em um ficheiro e, aqui é de arrepiar, exportou-o. Para aqui, para este blog.

Um crime que compensou.

 

A partir de hoje todos os textos que viviam no blog Desconcertezas moram agora aqui no The Cat Run. Todos.

 

O dono deste blog, que adora escrever, que adora correr, já foi ao funeral do outro blog. Foi uma festa. Toda a gente divertida.

 

Por isso é possível que passe a encontrar um ou outro texto que não sobre corrida. Ninguém é perfeito. Nem o gato.

Vai gostar, se tudo correr bem.

Lá está, correr, corrida, vai dar tudo à mesma meta.

Escusa de googlar desconcertezas.blogs.sapo.pt porque ele morreu, o gato matou-o. Isso é não acreditar no que eu escrevo.

Paz à sua alma.

Viva o gato!

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publicado às 01:33

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Esta é a história de um tipo que já foi tantas coisas e muitas delas ao mesmo tempo.

Alguma vez imaginava ele que um dia ia correr alguns quilómetros, quanto mais uma meia maratona ou coisa parecida. Jamais!

 

Esta é a história de um tipo que já foi mais novo, como as pessoas, regra geral, de um tipo que quando decide olhar para trás percebe que já não é a mesma pessoa, o mesmo tipo.

Sim, acontece com as pessoas, regra geral, eu sei, mas é assim, vá-se lá dizer o contrário.

Ele começou a correr com regularidade há uns dois anos, por aí.

 

Entrou nos quarenta com excedente primário em termos de camada adiposa, leia-se alguma excessiva gordura em redor de todo o seu corpo, excepto a cabeça. Vá, a zona do pescoço e as bochechas. Fumava, claro, após longas paragens, mas fumava.

Podia dedicar-se à comercialização de pneus humanos, um nicho de negócio que lhe foi aconselhado em resultado dos vários protótipos que exibia com alguma insatisfação disfarçada.

 

Este tipo era um gato, quando era novo, como a foto comprova, pena os óculos inclinados, mas tudo bem, um gato que já tinha entrado nos quarenta; melhor não mostrar foto.

 

IMG_0168.JPG

 

 Um gato que um dia deixou crescer a barba e deixou de ser gato, talvez urso, assim cresça a barba.

Que, de um dia para o outro, passados muitos dias, deixou de ser urso, ou gato e passou a ser outro tipo, que não ele. Deu-se conta disso ainda a tempo.

A bem do rigor ele continua a ser gato, já teve três vidas neste texto, faltam quatro para as sete, vidas, bem entendido.

Passou de gato a urso e tornou-se corredor, runner que é mais elegante. Começou a correr.

 

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Uma espécie de estagiário - ele só corre há dois anos - que se apaixonou perdidamente. As paixões também se vivem a correr.

Outras transformam-se em amor. Vício. Na verdade há paixões que assumem contornos de loucura. Se assim não fosse correr era outra coisa qualquer.

Há dias encontrei-o:

(Conversa forçada e imaginária)

 

- Estás um tipo diferente.

- Pois estou.

- É da corrida?

 

A pausa foi quase uma branca.

 

- Já pediste os cafés?

- Sim e um pastel de nata e uma miniatura.

- Boa!

Não sei se é da corrida. Se a perspectiva é emparelhar a corrida com a forma de viver, como se costuma dizer: com a forma de estar - não evitou o sorriso felino, como de um qualquer gato que se preze - se calhar é da corrida, ou da vida, ou não será uma a mesma e outra coisa?

- Bem, vamos ver...

- Vamos ver nada, vamos correr, correr, pode ser?

 

Deixei-o sem resposta. Primeiro era um gato, depois deixou crescer a barba e no fim fez-se runner.

 Levantou-se, de repente, como quem "não quer a coisa" e foi correr. Não saiu a correr, foi correr.

Paguei os cafés, o pastel de nata e a miniatura e fiquei a vê-lo afastar-se, passada larga como a esperança que carrega nos pés.

Daqui nada já conto o resto da história. Isto não acaba assim. Ele volta. Eu sei que volta.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 00:48

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