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HÁ DIAS ASSIM...

por The Cat, em 30.10.14

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Ontem foi um dos dias mais fantásticos deste ano fustigado por provações, que dispensava, num abrir e fechar de olhos.


É sobre ele que vou escrever. Como sempre escrevo. Gosto de escrever sobre os dias. Nada os pára. Correm rápido.


O que escrevo nem é propriamente para ser lido. Admito a confissão.


Este blog é uma máquina de escrever e eu sou um técnico instalador de palavras. Só isso, aqui encontro o meu canto. A minha escrita. Só isso.


Enquanto isso não ficar claro, poderá abrir caminho a determinadas dúvidas existenciais de terceiros que, porventura, leiam o que aqui escrevo. Sei lá, há gente para tudo.


Escrevo para mim. Sou um sacana egoísta que encontra aqui o seu próprio espaço, mais um pedaço do seu próprio espaço.


Porque escrevo para mim, ainda que, porventura, terceiros me leiam, faço-o de uma maneira só minha. Por isso utilizo muitas vezes a expressão " de mim para comigo".


Não retrato, nesta máquina de escrever, fotografias tristes, avulsas e gratuitas. Escrevo os meus dias, nem todos. Conto-os a mim próprio em letra alta - que não leio os textos em voz alta. Não há aqui lamechas, apenas há verdades.


Os olhos que por estes textos passam olham para eles como bem entenderem. Tanto se me dá. Sou um sacana egoísta, em determinadas coisas.


A corrida de ontem. É para isso que aqui estou. Sempre a corrida. Isto acaba por ser terapêutico, a corrida, a escrita, as minhas histórias, que só a mim interessam, porque no fim, algo de alívio fica durante algum tempo. Até ao próximo texto. Até à próxima corrida. Até ao dia seguinte.


Ontem foi um dos dias mais fantásticos deste ano.


Quem não me conhece, facilmente pode ser levado a concluir que gosto de me exibir nas redes sociais e assim. Sou muito activo, dizem. Antes assim. Não há cá tempo para "passividades", seja no que for.


Quem me conhece, facilmente consegue entender as coisas que escrevo. Sabe que não sou nada do que disse.


O superficial versus para lá disso. É com cada um, é como cada qual.


Um acordar diferente.


Depois de todas as rotinas - as poucas a que me permito - matinais, mal acordo, do género beber logo água quente com limão, sei lá, lavar os dentes, coisas dessas, depois dessas rotinas é que, normalmente, faço a primeira corrida do dia.


Corro os jornais, as redes sociais, os emails. Corro pelo mundo em poucos minutos.


Fiz tudo isso.


Mas, nunca tinha recebido uma mensagem como a que recebi ontem pela manhã.


Uma mensagem de alguém que não conheço.


Alguém me disse um dia que conhecer uma pessoa dentro de um ecrã da televisão e conhecer essa pessoa fora dele, saber o que ela pensa, como se posiciona na vida, coisas dessas, dava para formular uma opinião sobre essa pessoa e sobre o seu trabalho muito mais consistente e verdadeira. Concordo.


Só há pouco tempo é que interiorizei aquela coisa de as pessoas te conhecerem na rua. Já acontece há anos, mas sempre passou um pouco ao lado. Agora é um pouco mais claro para mim.


Já não me surpreendem mensagens de quem não conheço. Umas respondo, outras apago, outras ficam ali, a olhar para mim com cara de parvas até que eu tome uma decisão.


Mas, esta mensagem de uma pessoa estranha mexeu muito comigo.


Não me fez sentir o maior do mundo, ao contrário do que as primeiras imagens mostram. Não me fez sentir uma estrela neste estranho firmamento. Não me fez pensar que sou diferente de outros. Nem melhor. Mas, fez-me pensar.


Se o treino programado exigia que saísse para correr, depois de ler a surpreendente mensagem obriguei-me sem reservas a correr.


Era alguém com filhos. Alguém que se levanta às cinco e meia da manhã. Alguém que nunca pensou em fazer exercício, enquanto "auto-terapia".


Esse alguém, que não conheço, a quem apenas agradeci as palavras e informei que lhe dedicava este texto, revelou-me que lia os textos que saem desta máquina de escrever.


E, que foi por causa deles que tomou uma decisão que está a mudar-lhe a vida.


Não dá para pensar em orgulho ou exibicionismo. É mesmo de pasmo que se trata.


Alguém que me diz que está a mudar a sua vida para melhor porque lê aquilo que escrevo, que tomou a decisão de acordar às cinco e meia, enquanto a cidade dorme tranquila, para ir correr, porque me leu, tamanha ousadia pensar que na verdade é mesmo assim. Essealguém que me diz isso é um exemplo para mim, ao contrário do que possa parecer. Gosto de bons exemplos na vida.


Mas, é assim mesmo. Foi ela quem o disse.


Não me levo tão a sério, a este ponto. Quem me conhece sabe que não. Mas, isto é sério.


Depois de correr, este alguém que não conheço, começa então o seu dia. As crianças, o trabalho, o normal, num dia normal. Onte não foi um dia normal.


Talvez sugestionado pelo que tinha acabado de acontecer, talvez, não sei, a minha corrida de ontem teve ali uns dois ou três momentos que quase tocaram a insanidade, mas que me deram o toque para esta crónica sobre a  corrida, sobre a vida, sobre mim e sobre os outros.


Sim, porque eu tenho opinião sobre a vida dos outros. Sou como as cuscas. E?!


Sou jornalista, depois de ser isto, que sou aqui. Defeito profissional, ou de fabrico, se calhar.


Corri empurrado por aquela mensagem, com a sensação que os maratonistas devem ter quando correm distâncias mais curtas para matar saudades. Uma corrida a um ritmo confortável, dizia o programa de treino. Os oito quilómetros do costume. Não, os maratonistas devem ter essa sensação de prazer ou alívio. Eu não a tive bem assim, afinal corri praticamente a distância habitual, não foi mais curta.


Eu tenho que esperar mais um dia ou dois que é quando o programa indica uma corrida de seis quilómetros - não esquecer que sou um iniciado com 44 anos, quase quase 45.


Ainda assim, aproveitei e abusei da indicação "corrida a um ritmo contínuo e agradável".


Lembro-me de olhar o rio, à esquerda, ao passar pela ponte, de carro. Quase gritei - em voz alta - foda-se o rio está lindo (desculpem-me a asneira, a sério, há crianças a ler isto).


Estava lindo!


Calmo. Espelho, com o céu em reflexo. Reflexos meus. O meu rio é lindo. 


Esta mmanhã de verão de outono estranho materializou a mensagem que tinha recebi uma hora antes. Estava tudo ali, eu, tu, todos nós, quem quiser.


É ali o meu santuário. Cada um é livre de escolher os seus. Eu tenho mais santuários, mas o rio, como estava hoje, o rio...


Por causa das coisas que ando a ler, decidi começar a correr de forma diferente, dizem que a forma correcta é apoiando primeiro a parte da frente do pé, no impacto com o chão. Braços quase colados, a um ritmo e movimentos constantes.


Parece resultar. A passada sente-se leve, mais longa, maior controlo da corrida. Foi assim até ao quarto quilómetro, sempre lado-a-lado com o meu rio. Às vezes passavam remadores, velozes e musculados.


Isto é terra de campeões do rio.


O Gineto era daqui, Batista Pereira foi o primeiro ser humano a atravessar (várias vezes) o Canal da Mancha a nado. Passo sempre pelo busto do Gineto, junto às piscinas. Lembro-me sempre do Tito, seu filho e meu professor de Química no liceu. Meu amigo, anos mais tarde. Morreu há pouco tempo - eu disse lá em cima que este ano foi um ano de provações.


No fim da pista contam quatro quilómetros bem medidos desde o Jardim em Vila Franca.


O meu primo acordou cedo. Queria tomar o pequeno almoço. Só se me levasse de carro depois. Ele não tem carro. Dei-lhe um abraço (Telmo) e segui viagem.


Estava a meio.


O treino de ontem marcava oito quilómetros - hoje já - tenho ginásio com o Nuno, grande PT que encontrei no Fitness Hub.


No fim da pista está a casa-museu Dr. Sousa Martins, com os velhotes sentados à porta. Turistas também e peregrinos.


Vejo imensos turistas a pé, na minha pista, na minha corrida, ou sentados, junto aos velhotes, nos bancos à porta da casa do médico que todos veneram - o jazigo, no cemitério de Alhandra, é palco de homenagens dos crentes, às centenas, todos os anos. Quando é caso disso também me cruzo com muitos peregrinos que vão a caminho de Fátima.


Ao longo do rio, enquanto corro e olho tudo em redor, lembro-me muito de Alves Redol.


Vejo-o sempre num mural que há no Jardim, na parede exterior do pavilhão desportivo.


À vinda para cá - adoro esta redundância - vi uma miúda, com pouco mais do que a idade da minha filha, sentada por baixo da ponte pedonal que liga a pista ao Campo de Cevadeiro, um espaço onde se realizam eventos e se pode praticar desporto.


Já tinha reparado nela quando ia para lá - não sei se é uma redundância, neste caso.


Estava sentada. Livros apoiados nas pernas cruzadas. Óculos, cabelos longos. Ouvia música. Estava mesmo a estudar. Ali, sentada, sózinha, à minha passagem. Duas vezes.


Estava a estudar, garanto. Não estava à espera do namorado para depois fumarem um cigarro e darem uns beijos mal saborosos, da idade.


Estava estudar, que nestas coisas não me engano. Quase nunca, vá.


Olhou-me nas duas vezes.


Já antes, junto à antiga (e abandonada) fábrica de produtos de amianto - a propósito, está lá tudo, a céu aberto, há anos, amianto, sim - que é o único ponto negro, aquilo contamina tudo, vi um bando de borboletas, não encontro melhor expressão, um bando de borboletas brancas que se atravessam na minha frente, provocadoras, sedutoras, voavam quase que à minha volta.


Acelerei. Não gosto de fraquejar. Quando ouço o voar das borboletas brancas corro.


No fim, ainda fui dar um beijo à minha mãe. Conto-lhe sempre como foi a minha corrida. Vejo-a quase todos os dias, falo com ela todos os dias. Faz-me bem.


À noite, em casa, a mãe diz-lhe: "acho que tens pinta para ser arquitecto".


Ele deve ter-lhe dito qualquer coisa, inteligente.


Nestas coisas não me engano. Nestas coisas dos filhos quase nunca me engano.


Ele deve ter-lhe respondido: "sim, se calhar arquitecto, para construir arranha-céus".


Sou pai.


Só corro porque sou homem. Nestas coisas não me engano.


Sou pai e sou filho.


Ontem corri pelas filhas, pelos filhos, por uma mãe que não conheço, que começou a correr porque lê o que eu escrevo, corre às cinco da manhã, enquanto toda a cidade ainda dorme, tranquila.


E cá vamos indo, correndo.


Segunda feira vou ver o conerto de Jorge Palma. Espero que ele cante "Esta Cidade" dos Xutos.


Por muita vontade que me dê para correr quando  ouço o Palma a cantar esta música, vou ficar sentado, parado.


Vou apenas escutar, "Esta Cidade".


"Filhos da puta sem razão e sem sentido..."


 


 


 


 

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publicado às 10:48

AS DUAS CARAS DA MESMA CORRIDA

por The Cat, em 27.10.14

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Ontem, fui correr. A corrida tinha carácter humanitário. Revertia para a Cáritas Portuguesa.


Gosto de correr ao domingo de manhã, o que não acontece tantas vezes quanto gostava.


Aprendi a gostar de correr em provas. A mancha de gente, colorida. Muitas cores. Gosto de apreciar a forma como as pessoas se equipam em dia de corrida.


Os calções micro nas senhoras, coloridos. Bem giros.


Os tops de marca ou as camisolas técnicas cortadas nas mangas.


Gosto de apreciar os ténis dos homens. Há com cada um, daqueles que não me importava de ter. Um par para cada dia.


Gosto de olhar em redor, no meio daquela mancha colorida e, em instantes, reparar em quem é quem.


Eu consigo perceber quem é quem entre milhares de pessoas que decidem correr a um domingo de manhã pelas ruas de uma das mais belas cidades do mundo. Deve ter aqui alguma coisa de anormal.


Não há luz como a de Lisboa. Não há luz como a de Lisboa a um domingo pela manhã.


Por isso, deixei o carro perto do Saldanha. Nove e meia da manhã.


Não que tenha tido um início de dia lá muito pacífico.


Na verdade, acordei cedo, com tempo. Ando sempre a correr contra o tempo. Nos dias de corrida gosto de ter tempo e correr depois.


Olhei os "relógios", todos. Check.


É quando estou na cozinha, enquanto a casa dorme ainda, que entro em choque. São nove da manhã. Falta uma hora para a corrida.


Fico sempre preocupado em dia de corrida por causa do carro e da zona onde devo estacionar. Não é fácil: partes daqui, chegas ali e o carro tem que ficar não muito longe.


Pois, o relógio da cozinha é o único que não é digital. Não acerta a hora sózinho.


Bom. Não só dormi mais uma hora, como faltavam duas horas para a corrida.


Deixei o carro perto do Saldanha. Nove e meia da manhã.


Porreiro, descer a meio da Fontes Pereira de Melo, Marquês de Pombal - passei junto às Palavras Ditas -, continuar pela Avenida da Liberdade.


Era laranja por todo o lado. Laranja choque. Uma expressão agora sacada por mim que se pode aplicar a uma outra actividade que não é para aqui chamada.


Pareciam formigas cor de laranja. Espalhadas, mas todas caminhando na mesma direcção. Em direcção ao rio, ao mar, como o meu pai me ensinou. Sempre em direcção ao rio, ao mar.


Óptimo para aquecimento. Dois quilómetros a passo lento. Puro prazer! As montras das lojas caras estavam lindas.


Foi bom chegar até ao Rossio.


Já antes, no Marquês de Pombal,  sentia-se a atmosfera, que se foi intensificando passo-a-passo. Só que corre percebe.


Dois quilómetros depois, sim, do meio da Fontes Pereira de Melo ao Rossio são dois quilómetros bem corridos, uns alongamentos, uma ou duas fotos. Começou!


Uma janela de tempo de uma hora para correr dez mil metros. Dez quilómetros.


Adoro janelas. Abrem-se. Mostram. Revelam.


Partimos do Rossio. Nos passeios havia gente que aplaudia, como que a dar os bons dias aos corredores. (Só vi os primeiros corredores quase no virar dos cinco quilómetros e, nunca mais lhes coloquei a vista em cima, ia eu num sentido e eles já vinham no outro).


Virámos para Santos.


Agora, imagine: milhares de pessoas a correr, a caminhar, camisolas coloridas, ténis mágicos, calções de todos os formatos. Já imaginou?


Agora, imagine: na 24 de Julho também havia dezenas de pessoas nos passeios. Dez da manhã. Bom, ali já eram dez e um quarto, por aí.


Muita gente. Óculos escuros, copo na mão, cambaleantes, sorridentes, sentados. Olhavam-nos. Alguns dançavam. Nós também. Para mim correr passa por dançar com o asfalto, com o chão e com o céu. Estranho!


Eu - que em outra vida também ali estive, às dez da manhã, copo na mão, cambaleante, sentado - a correr, e aquela gente ainda nem à cama foi! Resistentes.


Do outro lado da avenida os turistas faziam a sua deliciosa caminhada matinal pela cidade dos marinheiros e das peixeiras de Alcântara.


Ao quinto quilómetro voltámos para trás. Cinco quilómetros para a chegada triunfal.


Triunfal. Não foi nem lapso nem é exagero. Chegar à Praça do Comércio, virar à esquerda, passar por baixo do arco triunfal, virar à direita, de novo à direita, de novo o arco triunfal, e a meta. Ali à frente.


Quando vi a meta, juro, vi alguém passar por mim, como se estivesse a fazer depender a sua existência daquele sprint louco.


Cinco quilómetros lá atrás, era chegado o momento chave da corrida. Estava a meio. Momento de fazer check-up.


Cabeça: check! É para ir até ao fim.


Pernas: check! ( se poupares até ao quilómetro sete, acelerares pouco ao oito, abrandares ao nono e bazares no último - a meta tem que se cortar com dignidade).


Pulmões: check. Respiram.


Estratégia: check. Duas garrafas de água no último abastecimento. Molhar as pernas. Os gémeos. São uns duros. As coxas. Vi algumas a correr, juro. A cara, bonitas e feias, a cabeça - esta parte não comento.


Com isto já via o Cais do Sodré lá ao fundo.


As pessoas aplaudiam, nas bermas. Foi uma constante. Ajuda. Só que lá anda é que sabe. É como quando se fala da casa dos Segredos ou do BB e dizem: "só quem está na casa é que sabe..."


É mais ou menos assim, nada de transcendente.


Foi aqui que tive o primeiro momento tocante. Neste instante em que corria e me refrescava para correr até ao fim.


Eu gosto das corridas porque gosto de falar com as pessoas.


Falo com desconhecidos, se me apetecer.


"Então, correu bem a prova?"


"Correu, fiz abaixo de uma hora..."


"Fez quanto?"


" 58 minutos..."


" Muito bom, eu fiz 59 e só tenho 44 anos..."


"Eu faço 78 no mês que vem".


Mesmo mesmo a chegar ao Cais do Sodré colo-me a três miúdas giras, com passada regular. Era o que eu estava a precisar. É uma técnica que ainda não domino; manter a passada regular, a corrida regular. Por vezes há uma ou outra música que ajudam, mas é raro. Dou por mim a correr ao som das músicas e esqueço-me que elas apenas servem para ajudar no processo, ele não depende delas. É um processo muito senhor do seu nariz.


Nas corridas tenho esse hábito, conforme me sinto, assim me junto a alguém, numa relação próxima - corro quase colado. Basta um olhar. Está entendido. Segue-se a marcha lado-a-lado até que alguém decida por si e se vá embora ou fique para trás.


Normalmente é a partir dos sete quilómetros que ganho resistência, até lá é sofrimento.


Por isso colo-me às pessoas. Apanho boleias de estranhos.


Gosto de correr e olhar para o chão. Para o horizonte, só quando me apetece. Não gosto de ser obrigado a nada. Nem na vida nem na corrida.


Quando levanto o olhar, naquele instante,  vejo à minha frente uma mulher e uma miúda.


A mulher devia ter uns quarenta. A miúda uns treze. Corriam, também elas, com um ritmo constante. A mais velha um pouco mais à frente. A mais nova, entre ela e eu e as minhas três companheiras momentâneas.


É quando reparo que a corrida parou. Parou tudo. Congelou a cena. Cores mil, paradas. Pessoas paradas. Enquanto a corrida se desenrolava. Faltavam três quilómetros para o fim.


Aquela dupla parecia ir acabar a corrida.


Eis quando, num instante surpreendente, a mais velha, na casa dos quarenta, deixa cair o braço direito para trás.


A mais nova estende-lhe o braço esquerdo. Encontram as mãos. Ela puxa-a. Puxa por ela, literalmente. Mesmo ali à minha frente, num gesto carregado de ternura, enquanto corremos. Eram mãe e filha, estou certo. Ternura daquelas só podem ser mãe e filha, se bem que na corrida a solidariedade é permanente.


Larga-lhe a mão e com a mesma mão empurra-a, com gentileza e carinho, pelas costas.


Ela ganha asas nos pés. Eu sorrio e sigo. Olha para trás, de forma disfarçada, envergonhada, mas sorrio, e sigo.


Passo no Cais do Sodré, vou feliz. O Cais do Sodré faz-me recordar a palavra feliz.


Está quase.


O Tejo já está ali ao meu lado.


Um quilómetros e pouco.


Vou-me embora.


Viro à esquerda, junto aos ministérios. O único erro. Penso que a meta é ali e acelero. Muito.


Fiz mal os trabalhos de casa.


A meta era ali mas ainda tinha uma volta para dar pela Baixa. Tive pena de não ver o marquês de Pombal a passear as suas girafas, os carvoeiros, os marinheiros, os barcos e as carroças. O Terreiro do Paço.


Mágico.


Passo por baixo do arco triunfal. Viro à direita, de novo à direita.


Por mim passa o tal jovem, numa louca correria. A vida dependia daquele sprint final.


De novo o arco triunfal. E a meta.


A meta corta-se com dignidade.


Acabei. Um segundo a mais que na última corrida de dez quilómetros, mas essa tinha subidas, esta não, mas para essa preparei-me, para esta não, não quis. Apenas quis passar uma manhã de domingo diferente, comigo e com os meus pensamentos.


Depois, atrofiei um bocado. Milhares de pessoas que tiram o chip dos ténis não é propriamente o cenário mais agradável, no fim de dez quilómetros de aventuras, quando apenas queres ver o rio.


Saltei as baias. Encontrei o Paulo. Tirámos uma foto.


Um abraço.


O regresso. Há sempre um regresso quando se parte.


Pelo caminho, até ao Rossio, abordei um casal que caminhava a meu lado e falámos de corrida e do prazer. Deram-me os parabéns por ter deixado de fumar.


No Rossio pedi um copo de água num dos restaurantes históricos.


O empregado estava em sentido, na esplanada, observando clientes e corredores, à espera de um pedido, um sinal.


"Claro que sim, venha comigo..."
"Estou assim, todo transpirado..."


"Venha, entre...O senhor não é jornalista na TVI?"


"É...sou!"


"É daqueles que eu ainda admiro, e vão sendo cada vez menos, posso tirar uma fotografia consigo?" (literal)


"Meu amigo, claro que sim, muito obrigado..."


"Óh Gomes, tira-me aqui uma fotografia com o senhor..."


"Quaresma..."


"É isso, Zé Quaresma"...


A parte que mais gostei, tirando o maravilhoso copo de água fresca, foi a parte em que tirámos a foto na esplanada e ele dizia:


"Gosto mesmo de o ver..."


E, depois, meio estranhamente virava-se para quem passava e para os clientes e, a rir, dizia:


"Foi ele que ganhou a corrida".


Por momentos senti-me um corredor de fundo. Nesta corrida não houve medalha, mas há sempre uma vitória.


Segui caminho.


Poucos metros mais à frente, a estação do Rossio à esquerda, a Praça à direita. Atravesso.


Páro. Detenho-me. Gelado.


Pela segunda vez, nesta manhã,  parou tudo. Um momento. Mais um.


Parei para tirar a foto que ilustra este texto.


Fiz questão de a tirar e de me mostrar. Fiz questão de não lhe mostrar a cara. Nem foi preciso pedir-me.


Tenho vergonha da minha cara.


No momento em que tirei a foto que ilustra este texto, no momento em que me detive, a corrida deu-me mais uma lição de vida, senti o outro lado da corrida.


A luz de Lisboa. Uma bela manhã de domingo.


O outro lado da corrida. A outra face da mesma moeda.


Era onze e meia da manhã quando tirei a foto que ilustra este texto.


Enquanto milhares de pessoas, vestidos com cores mil, vencedores, gente feliz, milhares que passavam como se ninguém ali estivesse. Não reparavam. Estava misturado com a multidão. Sózinho, ali.


Senti-me um derrotado.Momentos antes um campeão. Um derrotado.


Enquanto houver semelhantes e domingos destes serei sempre um derrotado. Por muito que a minha corrida chegue ao fim.


Domingo. Portugal, Lisboa, Rossio, 11,30am. Século vinte e um.


 

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publicado às 17:55

DAR CORDA AOS SAPATOS É PEANUTS

por The Cat, em 25.10.14

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Já me ri sózinho com os comentários no Facebook sobre o prémio do euromilhões (já deve ter reparado que utilizo muito pouco a pontuação. Escrevo como falo, lamento).


A coisa não está fácil. Fazemos piadas ordenadas pelo nosso sub-consciente. Brincamos com o assunto com uma secreta e remota, ténue esperança, que possa ter saído a um amigo de um amigo, vá. Andamos "de aflitos" neste pedaço de lugar nem sempre bem frequentado.


Na verdade, o euromilhões era qualquer coisa de inexplicável. Acho que aqui, ao contrário de outras matérias há consenso.


Admito. Até porque já há relatos frequentes de pessoas atingidas por raios. Algumas morreram e tudo. Portanto - utilizando esta palavra tão cara a Jorge Jesus (portanto) - há sempre um possibilidade de me tocar qualquer tipo de coisa, ainda que remota, como alguns sítios por onde vou andar brevemente.


Pelo menos deu para rir um pouco e, nunca se sabe, a senhora minha mãe pode ser milionária neste preciso momento.


Nós costumamos falar todos os dias. Hoje, ainda não conversámos. Estranho silêncio o dela.


Talvez me bata à porta e me abrace a chorar. Era isso que ela faría.


Vou ficar ansioso até que as redes sociais me digam que o novo milionário não é da vila.


Mesmo pagando mais impostos, se for, ai meu Deus, como diría o outro.


Agora, um ponto final nesta minha alucinação do dia.


O que me traz aqui são as corridas, falar sobre corridas, sobre as minhas corridas. Falar sobre a vida. As corridas são parte da vida, para quem corre.


Lá está, o euromilhões...


Não dá felicidade, mas dá para viajar, para fazer coisas. Haja saúde!


Ora, se fosse eu o milionário, por via da minha mãe, fazia aquilo que toda a gente diz que faria: umas obras na casa, o carrinho em segunda mão para os filhos, quando fizessem dezoito anos, um fim de semana no Gerês com a patrôa, um almoço com a família - amigos era a rodos - e uma contazinha a prazo.


Depois disso, depois da vidinha arrumada ia viajar. À bruta. Bem sei que isso é o que fará que ganhou aquele barril de dinheiro. Mas comigo era comigo.


Escolhia destinos onde correr fosse mais que correr. Ia aos quatro cantos. E aos outros todos. Daqui até ali.


Tirava um ano de licença de mim próprio, desenhava um roteiro, marcava viagens e hotéis, comprava equipamento novo, ténis novos e ia embora. Depois voltava. Um dia. farto de correr apesar de não me fartar de correr. Mundo.


Quem quisesse que comprasse carros, casas, acções (acções?), empresas, negócios, o que quisesse. (Não te metas nisso, mamã)


Por mim, viagens. Correr. Quase como um profissional, só que milionário. Filho de milionários. Aposto que a Paris Hilton ia, finalmente, seguir-me no Instagram. E a malta do futebol e assim.


Acho que até comprava um turbante branco no Dubai. (À noite deve dar para correr no Dubai, não deve? Se não, a Emirates arranja um playground climatizado). Sabe que música ouvia no Dubai, enquanto corria?


Midnight in Harlem dos Derek Trucks. Bom!


Em Cape Town, acho que corria em tronco nú, com colares e pulseiras étnicas. Amo África do Sul e isso é público. Voltava lá ao som dos Mango Groove.


Em Londres, o Hide Park não me escapava, acho que ia adorar correr contornando os esquilos, trocando olhar com as mamãs que empurram os carrinhos de bebé, mirando os casais de namorados no barco a remos, nem Portobello Road me escapava.


Havia de parar para comprar um ramo de flores. Ainda me apaixonava.


Depois corria nos jardins monumentais. Nas ruas da City. Matisyahu era presença obrigatória. Uma qualquer.


 


E Paris!


Nunca fui a Paris. Só passei lá ao lado e só a vi do ar.


Ainda assim, vejo-me a caminhar com as três baguetes na mão, depois de um bruch no Liza Soughayar´s.


A caminho do hotel. Passo apressado, descontraído, contudo.


As baguetes vão dar jeito depois de correr pelas veias da cidade-bela. Hei-de escolher uma música, no momento.


Como não preciso de olhar a conta bancária, opto pelo Vaticano. Vou correr no Vaticano.


E, Francisco vai correr comigo. Ou literalmente ou literalmente. Do vaticano ou no Vaticano.


Acho que ele vai gostar de me conhecer.


Claro que hei-de correr em Roma. Hei-de correr a ouvir Janis Jopplin, prometo. E Hei-de andar de Vespa e beber vinho. Claro que vou comer massa - pasta - e vou ver a Roma jogar, depois de correr com Francisco. Não sei que música ele irá ouvir. Calculo que Rolling Stones ou Happy, não sei.


Há qualquer coisa que me mata, em Miami. Acho que ia as compras ao Bayside Marketplace. Depois ia correr, como nos filmes, misturado por gente que transpira dinheiro. Bonita. Gente bonita e cara.


Acho que fazia uns quinze quilómetros, devagarinho, para apreciar.


À noite compensava. Promess!


Enquanto corria ouvia a versão Bossa Nova de Walking On The Moon.


Imagine...


Nova Iorque. Palavras para quê? Acho que em Nova Iorque corria uma maratona só para ir a todos os sítios.


O que é que eu fazia depois?


Bom, ao fim de umas cinco horas a correr - não faço ideia se aguento, mas gostava - travata do corpo. Não, não é o que imagina.


Relaxava numa sessão de massagens num daqueles hotéis brutais. Passeava. Gastava dinheiro que nem um doido. Tudo aquilo a que tinha direito. Like a King. Like a Boss.


Play like a pirate.


Jantava no Shishi Nakazawa, ali em Greenwich Village. Ouvia Bryan Adams, Heaven e cruzavam-me com os runners que só conheço das redes sociais.


Estava capaz de passar uns dias em Sardenha. Apreciar um Pecorino Sardo, acompanhado por um branco gelado de alto teor alcoólico.


Deve ser maravilhoso correr num sítio do planeta sem auto-estradas. Isso diz tudo sobre o acto de correr, eu acho.


Na ilha da Páscoa; chega-se lá de avião, que é um dos pontos do planeta mais misterioso de todos, correr entre aquela misteriosa exposição de esculturas,, com mais de mil e quinhentos anos deve ser uma experiência do género Shaman. Digo eu que nunca lá fui. Nem em sonhos.


Aquilo tem algo de muito imponente para a natureza humana. Acho que metia uma powersong e corria a ouvir Pig´s dos Pink Floyd.


Em Buenos Aires ouvia Aloe Blacc. Garantidamente. E Tango. Sacava de um trunfo: The Gotan Project!


Corria nos viadutos, à noite, nas grandes avenidas, passava e corria em volta da casa do Boca, o la Bombonera. E, dançava contigo.


Era homem, digo sem pestanejar, para correr junto às pirâmides, no Egipto, ou numa praia da ilha de Lamu. D.A.D. era a banda que me acompanhava. Laugh n´a Half, volume no máximo, que nem sempre gosto de correr com a música alta.


Com isto já se passou o quê? Um ano? Seis meses?


Perdi a noção do tempo. Será que o dinheiro faz perder a noção do tempo? Não sei.


Correr faz-me perder a noção do tempo.


O espaço. O mundo. Em dois metros quadrados. Ali, à minha frente.


Sigo os passos, passo-a-passo, olho o chão. Conto as pedras, ganho outra noção do espaço. Do meu próprio espaço. O silêncio sente-se só.


Passou o quê? Seis meses? Um ano?


Não voltei porque tivesse o que quer que fosse para fazer.


Voltei para retomar. Voltei para partir de novo. Partir e voltar.


Qualquer corrida tem sempre uma partida e uma chegada.


Uma volta. Bem visto cada corrida tem uma volta a qualquer coisa.


Na verdade, voltei e ainda não sei se o Euromilhões não estará no meio de nós.


Falo todos os dias com a minha mãe e, estranhamente, ainda não falei com ela hoje. Ela gosta de me fazer surpresas, a dona Adelaide. Gira, a minha mãe. Tenho orgulho nela.


É mulher para me bater à porta pelas seis da manhã, quando acordar ,e dar-me um abraço, a chorar. Acho que era isso que ela faria.


Depois, bom, depois continuava a correr pelo mundo. Pelo meu mundo fora.


Até lá, e enquanto a mamã não dá notícias é esperar por domingo.


Domingo são conhecidos os testes de stress à banca. Eu tenho a corrida do Montepio. Vou correr numa Lisboa que não conheço a correr. As receitas revertem todas para a Cáritas. Dez quilómetros ao domingo, pela manhã. Adoro. E à noite joga o Benfica.


Se isto não é o euromilhões...


O resto são peanuts ( vou só ali escolher mais uns destinos espectaculares, que é como quem diz vou dormir que amanhã é dia de trabalho ).


No fim disto tudo aconselho Garden State. Para dormir com(o) os anjos, que hoje é dia de descanso.


As pernas gritam por socorro!


 


 


 


 


 

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publicado às 00:29

CONVERSAS EM SEGREDO

por The Cat, em 20.10.14

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Parece que estou a imaginar a conversa entre os meus ténis de corrida. Especiais de corrida:


- O gajo ficou doido com isto das corridas...


- Achas?


- Agora até pede para lhe fazerem o horário para ir às provas. Ele nem gostava de provas...


- Mas aquilo é giro...


- Achas giro quase dois mil quilómetros na sola?


- Até parece! Não foste feito para correr?


- Fui...


- Tens que admitir que é giro. Domingo de manhã...


- Se estiver bom tempo...


- É verdade, mas mesmo com mau tempo...


- Com mau tempo não se vê nada...


- Claro que vê, mas com bom tempo são umas manhãs bem passadas...


- É muita miúda gira em calções...


- Pela fresquinha...


- Na última corrida...


( A conversa ia descambar)


É quando eu entro na varanda. Estão secos. Está ameno. O dia foi bonito. Eles não sabem que imagino as conversas. Fico na dúvida. Eu fico muitas vezes na dúvida.


- Então, porque é que te queixas?


- Não me queixo...


- Gostas de estar a falar, é isso...Tu gostas mesmo é de falar...


- Não... também gosto de correr. Também gosto de pessoas. 


Repara: ele começou a correr porque estava farto de ser pesado, física e emocionalmente...


- Vens com as filosofias?


- Espera. Escuta. Ele começou assim...


- Mas, sabes que quanto mais eles correm mais querem correr...


- Eu gostava mesmo era que ele fosse veloz, fogo...


- Às vezes ele é veloz...


- Depende da música que vai a ouvir, eu sei...


- E das pernas...


- Pois, mas nós é que temos que estar sempre em forma...Detesto quando ele pára ao quilómetro três e tal, lá no passeio ribeirinho...Porque é que ele faz isso...


- Só tu! Detestas ficar ali a contemplar o rio?...


- Sim, quando chove...


- Pá, deixa-te disso...


- É verdade...


- Ele tem cuidado...


- Eu sei, ele é cuidadoso, por isso é que às vezes se esquece de se concentrar no fundamental.


Não gosto quando ele vai lá fazer os aparelhos, porque ainda no domingo, andava toda a gente janota e, ele sujou-me todo com lama...


- Aquilo não era lama. E, eu vi que ele teve o cuidado de te meter em cima da tábua que estava no chão...


- Sim, mas sujou-me na mesma...


- Porque é que não dizes que ele, mal te viu com lama, te meteu dentro da poça de água? Isso não dizes.


- Estás sempre a defendê-lo...


- É mentira?


- Não...


- Então, cale-se...


- E corra...(ah ah ah ah)


Decidi deixá-los novamente na varanda. Continuam na varanda, pelo menos até ao fim desta crónica.


Quando for apanhar a roupa levo-os para dentro. Hoje não sei se vou correr. Já se vê. Eles não precisam de saber. Nem sequer que eu imagino-lhes as conversas. Eu gosto de imaginar conversas. Gosto de lhes fazer surpresas. Eles acham que quando chegarmos aos dois mil quilómetros vão ter o mesmo destino dos outros que estiveram antes deles.


Lamentavelmente, acho que foram para o lixo - ainda vou à arrecadação ver se estão lá e, se estiverem, vou fazer uma festa em sua homenagem. Foram os primeiros. Fizeram mil quilómetros. Depois desistiram. O tempo esgravata a borracha da sola. Abriram pelos lados. Estão, lamentavelmente, no lixo ou na arrecadação.


Não se deita fora nem se arrecada aquilo que nos liga ao coração.


- Agora vai correr mais uma prova no domingo...


- Acho que também vai correr outra vez uma meia-maratona no mês que vem. Medo (sorrisos).


- E não nos dá descanso...


-Descanso para quê?


Para depois estares dentro do armário a queixares-te. Já viste que és o único dentro do armário que se queixa, que está sempre a queixar-se. Aproveita a vida, homem.


- Eu não sou um homem, sou um sapato de corrida.


- Então corre...


- Tu achas que ele se vai livrar de nós quando fizermos dois mil quilómetros?


- Acho que não. Ele só muda de nível aos dois mil duzentos e cinquenta. (Eh eh eh eh ).


- Humor negro?


Aos dois mil duzentos e cinquenta quilómetros ou vamos para o lixo ou para a arrecadação...


- Querias o quê? Ficar numa moldura na sala?


- Não é justo.


- E foi justo para os nossos antecessores?


Olha os Adidas pretos, não saem do armário...


- O gajo apega-se a nós...


- A(pé)ga-se é lindo...


- Tens razão, coitados dos Adidas pretos...


- Mudemos de assunto que as pessoas são sensíveis e ainda vão comentar que há aqui qualquer coisa de racista na conversa.


- Mas achas que vamos para o lixo?


- Acho que não. Ele arrepende-se montes de vezes de ter deitado os outros para o lixo, os ténis, os primeiros telemóveis, os primeiros computadores, os gravadores, o gajo deitou tudo fora e agora arrepende-se, por isso acho que mesmo quando chegarmos ao fim vamos continuar com ele...


- Fogo..


- É, por muito que chegues ao fim regressas sempre ao começo. Há sempre um (re)começo.


- Pois há. Hoje o dia foi bonito.


- Digamos que foi um dia de recomeços.


- De descanso da alma...


- E das pernas...


- Sabes que mais? Vamos ajudá-lo no domingo...


- E depois na meia-maratona...


- Isso...


- Mas, olha que já ouvi dizer que ele nem se vai preparar como da outra vez...


- Então?


- Acho que no domingo e na meia-maratona no mês que vem vai só mesmo por prazer.


- Isso é o que ele faz sempre...


- Sim, mas vai só mesmo para viver o momento...


- E, tem razão. Há momentos...


- Para serem vividos...


- Para serem vividos...


- A ver se ele nos vem buscar à varanda que está a começar a ficar frio...


- Está-se melhor cá fora que lá dentro.


- Tirando os mosquitos...


- Mordem...


Sabes que só as fêmeas é que mordem...


- Ai é?


Então o melhor é correr, anda, vamos correr!


 

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publicado às 19:24

BLOQUEIO TOTAL OU O PIOR DIA DO ANO

por The Cat, em 17.10.14

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Hoje tive um bloqueio total. Fui ao tapete, com os queixos no chão. Cabeça, corpo, espírito. Tudo bloqueou, e o tempo prolongou-se por uma eternidade inédita e espinhosa. Foi, provavelmente, o pior dia deste malfadado ano.


Estou a falar sobre corrida. Sobre a minha corrida de hoje de manhã.


Sem ponta de ironia, quando Marco Fortes disse que de manhã era bom era na caminha, o mundo e com razão soltou as garras.


Confesso que o entendo. Não o entendi, mas agora entendo o que ele quis dizer nessa altura. A diferença é que não o devia nem podia ter dito. Tal e qual como eu em determinadas situações. Adiante.


Lembrei-me dele e dessa polémica frase porque hoje fui correr de manhã, antes de começar o dia, que é como quem diz por volta das onze.


Devo ter aquela doença do sono (vulgo tripanossomíase africana) e a outra que não te deixa sair da cama - dessa não sei o nome porque o Google só me deu aquele nome estranho, duas frase acima - porque até posso e gosto de acordar cedo, mas raramente consigo.


Fico preso à cama com correntes enormes e pesadas. Num ambiente artificialmente controlado, temperatura amena. Podia ser sintoma de depressão, não é o caso, de todo. É mesmo querer ficar a saborear o mundo lá fora, cá dentro.


São raras as vezes que me levanto para ir correr.


Psicologicamente é todos os dias: "amanhã, sete da manhã..."


Já fui, várias vezes. Correr pela manhã, prazer para os sentidos, todos.


Mas, custa-me soltar as correntes pesadas. Fazer o quê?


Um dia hei-de conseguir ser mais forte que a tal doença da qual não me recordo o nome.


Posto isto, como ontem não consegui correr hoje não dava para falhar.


Fazer aquela gestão do caos não é difícil, basta ir encaixando as peças, as horas, os acontecimentos, as tarefas.


Hoje era dia de jantarmos todos juntos. As agendas dos moradores cá de casa era comum, jantarmos juntos, por isso só conseguia correr de manhã.


Facilmente se percebe que durmo - quando posso - nunca menos de oito horas. Normalmente durmo entre seis a quatro. Custa-me muito mais correr, mas para ir a todas alguma coisa tem que cair. Mas descanso. Esteja descansado(a).


Lá fui.


Antes de sair de casa planeei o percurso mentalmente. Que tipo de corrida me apetecia fazer. Curta. Decidido. Dentro da cidade, campo, passeio marítimo ou naquele caminho das vivendas?, o caminho das vivendas.


Mais isolado - não gosto dos cães, ladram muito, dentro das vivendas - com menos carros e quase todo a direito e plano.


Seis quilómetros - corro sempre mais um - rápidos, só para rolar.


Os primeiros sintomas apareceram mal saí a porta do prédio: uma súbita vontade de voltar para trás.


Ainda dei uns passos, mas optei por uns raros alongamentos iniciais. Algo estava mal.


Da porta do prédio à porta de saída do condomínio onde vivo são mais de cem metros, ou por aí. Tentei começar, devagar, muito. Meia-dúzia de passadas e páro. A passo até à portaria.


Encaro a estrada, olho para um lado, depois para o outro, atravesso e começo.


Uns duzentos metros à frente nova quebra.


Era altura de tomar a única decisão aceitável e possível: ir até ao fim como planeado. Tinha pouco tempo para correr. Tinha no máximo quarenta e cinco minutos. Seis quilómetros, já estava a abdicar daquele quilómetro extra.


Comecei a sentir as dificuldades a intensificarem-se à medida que ia avançando. Ponderei encurtar para quatro quilómetros, mas quatro quilómetros é aquecimento. Pelo menos seis, sabiam a pouco mas dava para encarar o dia com aquela tranquilidade.


Ao primeiro quilómetro tinha gasto quase sete minutos e meio. Tempo de principiante, que é o que sou, os meus melhores tempos são verdadeiros milagres. Sorte de principiante. E muitos quilómetros nas pernas.


Está decidido, mais um quilómetro e volto para casa. Fico-me nos quatro.


O problema foi chegar ao segundo quilómetro. Os sete minutos estavam a parecer-me uma hora. O quilómetro uma daquelas maratonas que nunca corri.


As pernas decidiram parar. Os pulmões divertiam-se, ora se cansavam, ora se abriam. A cabeça começava a questionar-se. Os braços mexiam, já não era mau.


Ao segundo quilómetro tudo era claro. O bloqueio era total. Estava prestes a ter o meu pior dia de sempre desde que corro. Sentia-o. E tudo me passou pela cabeça.


Corri uns quatro quilómetros, entremeados com outros três de caminhada. Sete, no total. Quase cinquenta minutos, ou coisa que valha.


Não corri. Hoje o que aconteceu foi uma espécie de descida ao ponto de interrogação mais profundo. A procura de uma resposta. Cinquenta minutos cheios de pontos pretos de interrogação.


O que é que me estava a acontecer?


Não me considero um atleta. Mas estou certo que estou preparado para correr até ao dia em que deixe de conseguir correr. A manhã de hoje não estava a fazer qualquer sentido. Nem quando comecei, há um ano, sofri tanto numa corrida como hoje. De repente o tempo não estava a correr. Eu não estava a correr. Como se nunca tivesse corrido.


Bem sei que os bloqueios são as verdadeiras chagas de quem gosta tanto de correr. Acontece regularmente. Um pouco como os sismos. A Terra treme em permanência, ainda bem, assim não "parte". Quando um dos sismos é de maior intensidade, já se sabe. A metáfora para o que me aconteceu hoje é esta.


Bloqueei dos pés à cabeça, por dentro e por fora. Parei no tempo. O tempo parou. Parar. Parar. Só me apetecia parar. Lembrava-me de coisas que li sobre o prazer e o sofrimento, sobre a corrida e a vida, lembrei-me dos meus amigos que correm maratonas e ultra-maratonas, lembrei-me da minha fantástica meia-maratona - para um principiante foi fantástico - lembrei-me que estou formatado para correr até vinte e poucos quilómetros.


Não fazia sentido o que me estava acontecer. O que me aconteceu.


Apelei ao sol, estava sol, saltei músicas no iPhone, alonguei, transpirei, caminhei, corri, tão pouco, tão difícil.


Terminei a passo.


Sete quilómetros a uma média de quase sete minutos por quilómetro. Até nem é uma média assim tão desenquadrada, para mim, mas é como aqueles jogos de futebol equilibrados que acabam com uma equipa goleada.


Esta média não tem nada a ver com a realidade.


A realidade é o que acontece durante a corrida, não é só o tempo que fazes, a forma como corres e respiras, o que observas e escutas. É isso e tudo o que o teu corpo ordena.


A cabeça manda mais. Hoje, até ela decidiu encostar-se e dificultar-me a vida. Uma cabala. O Universo unido contra mim.


Juro que vou ler mais ainda sobre os "bloqueios mentais e outros". Tenho que perceber e descodificar esta estranha viagem.


À noite, no regresso a casa, como habitualmente, fiz a viagem mental do meu dia. Gosto de perceber onde estive bem e menos bem, de me descentrar, sair de mim e auto-observar-me na relação com os outros. É uma rotina.


Claro que a minha corrida marcou presença. Quase que me apetecia ir correr de novo. Andei ali às voltas à procura da resposta.


Os meus músculos ainda se estão a queixar de tão estúpida corrida matinal.


A pior de todas.


Encontrei respostas para todas as questões que atravessaram o meu dia. Menos uma.


Sobre a minha corrida matinal, duas coisas, para fechar o assunto:


Não fui feito para correr de manhã.


De manhã é bom é na caminha.


Afinal são três coisas;


Vou bloquear pessoas no Facebook, sempre é mais agradável que estes bloqueios mentais, já que correr está fora de questão.


Detesto minutos cheios de pontos pretos de interrogação.


 

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publicado às 23:47

EU, PECADOR, ME CONFESSO

por The Cat, em 17.10.14

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Duas Francesinhas no espaço de cinco dias. Uma no domingo, uma hoje. Em cinco dias comi duas Francesinhas. Sinto-me ( em termos de Francesinhas) omnipotente.


Depois penso: " muito bem, agora são dez quilómetros de corrida por Francesinha. Os primeiros dez estão feitos. Amanhã lá tenho que me fazer ao alcatrão.


Quem me acompanha aqui neste lugar escondido da multidão já sabe que a minha religião é a corrida. Livre.


Cada religião tem os seus próprios pecados. Cada pecado a sua penitência.


A libertação da alma e do corpo.


Há aqui muito de devoção.


Ontem à noite, quando olhei para a agenda e reparei que hoje ia ser difícil correr, confesso que fiquei um tudo nada bravo. Moderadamente bravo.


Vou ter uma corrida dia vinte e seis, mas não estou preocupado. Vão ser dez quilómetros de prazer. Moderadamente bravo porque me apetecia mesmo correr. Ontem corri à noite, oito quilómetros. Hoje apetecia-me rolar um bocado, soltar-me.


Mas, já ontem à noite eu estava a ver a agenda mal - parada.


Reunião de manhã na Etic, o resto do dia na televisão, à noite reunião por causa do Out Of The Office e-Book ( que estará à venda no início de Novembro). Correr só quando chegasse a casa, como ontem.


Só que a um amigo não se diz que não e, o Carlos Gonçalves, meu parceiro de projecto, sugeriu jantarmos uma Francesinha.


Não tive coragem de lhe dizer que me apetecia ir correr, a bem dizer até estava com fome.


Não me preocupa o facto de amanhã, em vez de fazer cinco ou seis quilómetros, fazer dez. Não é isso que me preocupa. O que me preocupa é que já passa da meia noite, estou a acabar esta crónica e não me apetece ir dormir. Apetece-me ir correr.


Penitenciar-me com o prazer, redimir-me dos meus pecados (com as Francesinhas).


Claro que não vou. Claro que ainda não foi hoje que acordei às sete da manhã para ir correr - o despertador bem tentou -, mas apetece-me. Apetece-me aquilo que me dá prazer. A vida dá-me prazer. A corrida também.


Por mim, eram queimadas na fogueira, as Francesinhas, almas do demónio, tentações da carne. Queimadas na fogueira das bruxas, no centro da praça. Malditas.


Mas, com queijo derretido, por favor. E, um pouco de picante.


Uma imperial, sempre, ou uma Túlipa, vá!


As Francesinhas.


Eu, pecador, me confesso.


 


PS:


"Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.


 


Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,


e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.


 


Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças
do mesmo todo.


 


Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.


 


Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.


 


Me confesso de ser homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.


 


Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!"


 


 


Miguel Torga, O Outro Livro de Job (1936).


 



 



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publicado às 00:20

AS BARREIRAS OU A NATUREZA HUMANA

por The Cat, em 16.10.14

 


 


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Há uma coisa que me falta descobrir na corrida: correr dentro de uma cidade. Nas suas vísceras, literalmente. Pelas vielas, pelas avenidas, pelos bairros, pelos jardins, pelas estradas. À noite. Como esta noite.


Saí mais cedo da televisão. Compromisso de pai. Reunião com o coordenador técnico do clube onde ele joga. Reunião de pais.


Pelo meio a minha filha acabava o treino de Muai Thay - que isto não há cá dinheiro para shotguns -, esta era a altura em que eu tinha que me desdobrar ou em alternativa tudo ia bater certo.


A reunião era às sete e meia - começou atrasada e justificada como todas as reuniões - e o treino dela terminava às nove da noite.


Havia o treino dele que acabava às nove e meia, mas neste caso a coisa já está mecanizada, o Tó, o João ou o Mauro dão-lhe sempre boleia para casa.


Tudo certinho. Gosto de alguma ordem no meu caos.


Mas havia um dilema, uma necessidade, uma ansiedade, uma vontade. Correr. Ontem não corri. No dia antes corri dez quilómetros. Hoje tinha que correr. Seis quilómetros só para matar o vício - faço sempre mais um ou dois, mas de início tento convencer-me que serão apenas seis -.


E, hoje, bateu-me aquela ideia: correr na cidade. Samora Correia é cidade. Não consegui ir para a pista junto ao Rio, na outra margem, estava escuro pra correr no campo, não me apetecia ir correr junto às vivendas, farto de cães histéricos e, correr na estrada nacional é impensável.


A pergunta sacramental: correr, quando, onde e como?


Seguindo a lógica, a reunião termina, ele tem boleia garantida, eu parto para o jardim, pego na miúda e sigo para casa.


Pois.


Correr só depois de chegar a casa.


Eu gosto. Gosto de correr à noite. É o período do dia que mais gosto para correr. Correr é aquele momento kit-kat do dia. Uma hora (pelo menos) só para mim. Às vezes menos, mas sempre mais do que cinquenta minutos.


É nesse momento que me deixo a sós comigo. Durante aqueles longos minutos, eu gosto de corridas longas, gosto de correr. Também gosto de corridas curtas. Mas, nas corridas longas tenho mais tempo para mim.


Sinto os órgãos a funcionar, um-a-um, os poros a abrir, sinto-me respirar, sinto dores e vontade de parar, de andar, vá. Sigo. Foi para isso que saí.


Chamemos-lhe o " momento de verdade". Eu e eu, só os dois, comigo, enquanto corremos juntos. Gosto muito de correr sózinho. De fazer o meu próprio treino, como me apetece. Gosto de correr com outras pessoas. Com a multidão, nas provas. Eu não gostava de ir a provas, agora gosto. Gosto muito.


Por causa da app que utilizo, de repente, comecei a ter muitos seguidores de todas as partes do mundo, do Japão, Austrália, EUA, Grã-Bretanha, Singapura, Hungria, Holanda, França, até de Portugal.


Por isso, hoje, depois de correr, depois de aproveitar um pedaço de noite fresca, agradavelmente fresca, decidi "brindar" a minha corrida a esses meus (novos) amigos espalhados pelo mundo e, tirei a foto e publiquei-a no Instagram, em inglês, para que eles percebessem.


A legenda era simples: meus amigos das corridas, vocês tem muita sorte por terem onde correr. A minha câmara é assim que olha para aqueles que gostam de correr.


É uma metáfora mascarada de realidade.


Na verdade, eles não tem sorte. Eu é que tenho azar. Tenho muitos amigos que correm em sítios onde é suposto correr. Cá em Portugal, aqui ao lado, a seguir à ponte.


A coisa não é generalizada. Há muitos sítios para correr em Portugal, não há é onde eu vivo. E, eu vivo numa das maiores freguesias do país, senão a maior.


É uma questão de visão.


Portugal não tem cultura desportiva.


Vai começando a ter. Aqui e ali.


Há mais de vinte anos vivi em Joanesburgo, África do Sul. Há mais de vinte anos qualquer escola secundária, primária, de bairro, tinha meia-dúzia de campos relvados e pistas de atletismo. Os relvados eram utilizados para jogar futebol, rugby ou cricket.


Aos fins de semana havia os campeonatos regionais, de manhã e, os pais e amigos, familiares e professores, enchiam as escolas. Mas isso foi há mais de vinte anos e em África (do Sul), agora não interessa nada, afinal estamos no século vinte e qualquer coisa.


Em Portugal, se calhar levados pela crise - mais uma evidência de que a corrida e a vida ligam-se - há cada vez mais pessoas nas ruas, nos parques, nos jardins, nas estradas, nas pistas. Uns caminham, uns correm em ritmo de jogging, outros são rápidos. Há aqueles que vão de bicicleta. Rostos que se cruzam, familiares, palavras que não se trocam, olhares rápidos de cumplicidade, sofrimento e prazer em comunhão, em meia-dúzia de passadas.


Há aqui muito de relações humanas. Rápidas. Blind date com caras familiares. Running date, diria.


E não é assim só onde vivo. É assim em todo o país. Portugal está a mexer-se. Correr implica um investimento ao alcance da maioria, capacidade de sofrimento, crença no prazer, mas sobretudo gostar dos shots de endorfina. É isso que tranquiliza a cabeça dos milhares que gostam ou, como eu, aprenderam a gostar de fazer exercício.


Há depois a parte estética e a parte da saúde.


Tudo isto, mais aquela coisa da superação faz com que correr, no caso, seja muito mais que correr.


Vai para além do acto mecânico. É o momento em que a minha tendência para engordar é encarada como uma benção. Gosto de comer. Como e corro. Senão engordo.


Repara, portanto, caro(a) leitor(a), que há nisto da corrida muito do que é a própria existência humana.


Não perceber isto é não entender a natureza humana. A tomada de consciência. A movida. A alavanca colectiva que está a ser a corrida e a caminhada, a bicicleta, para as pessoas. Os portugueses querem viver mais saudáveis.


O exercício ajuda a enfrentar os dias mais duros e a relaxar mais nos dias mais relaxantes.


O meu despertador está desde hoje para despertar às sete da manhã de segunda a sexta.


Uma foto da Rita Rodrigues fez-me pensar que correr ainda de noite e acabar ainda de noite, ou com o dia a nascer, mesmo que depois volte para a cama mais um bocado, ou não, deve ser uma experiência refrescantemente saborosa.


Não entender isto é não entender a natureza humana.


A fotografia desta crónica, escrita como todas em nome pessoal, sem qualquer análise ou postura profissional, apenas pessoal, utilizando aquele direito de cidadão, o da liberdade de expressão, ilustra quem não entende a natureza humana.


Não quer isto dizer que não cuide das suas populações, que não faça o seu trabalho para o bem-estar das suas populações, nem sequer quer dizer que seja incompetência.


São políticos, daqueles que não entendem a natureza humana. Apenas isso e sem qualquer tipo de ofensa inerente. Crítica sim. Enquanto cidadão que gosta de correr ao ar livre. Ainda não está taxado, lamento.


Por isso, não entendem isto.


Correr vai para além do entendimento. É bom. É muito bom. Mesmo que para isso a estrada seja a minha pista e as baias em ferro os meus obstáculos.


Desde que corra!


(Tenho pena de não conseguir acompanhar as minhas crónicas com as músicas que ouço enquanto as escrevo)


 


 

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publicado às 01:41

ROOM 215

por The Cat, em 12.10.14

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E pronto; já estou dentro do combóio. Está na hora de partir.


Vamos a caminho de casa.


O Porto fica para trás. Ponto de passagem.


Há fins de semana que não deviam terminar.


Tudo acaba e é aqui que começa esta crónica. No fim da viagem que acaba de começar.


Um fim de semana no Douro.


Nunca tinha vindo ao Douro. O Porto serve de ponto de passagem. O Douro recorta-se mais acima.


Régua, Pinhão, Tua.


Decidimos fazer esta viagem por dois motivos - na verdade três:


1- Faz bem um fim de semana a dois.


2- Correr no Douro deve ser experiência única.


3- Três dias sem carro. Só combóio.


Em relação ao ponto 1, não parece ser relevante para quem lê, passo.


Em relação ao ponto 3, a CP mesmo em tempo de crise consegue ser criativa e colocar à disposição de quem quiser uma viagem de combóio, a partir de qualquer ponto do país e fazer a linha do Tua no combóio histórico. Acaba dia 15, mas vale muito a pena, por tudo.


Sobre o ponto 1 e o ponto 3 irei escrever mais à frente, naturalmente, quando falar do ponto 2. Não que me apeteça, mas faz parte. Já vai perceber porquê!


Correr.


Como já reparou - se é que se dá ao trabalho de ler o que por aqui se escreve - este blog é uma máquina de escrever. Escreve sobre tudo.


Como qualquer enamorado, em processo de enamoramento, este blog está a perder em auto-controle aquilo que está a ganhar em auto-estima.


O dono do blog mudou de religião. O blog, fiel ao dono, está a mudar também.


Nos últimos tempos tem se falado muito de corrida por estas bandas.


É por aí que este blog está a caminhar, a correr, as corridas, tudo o que envolve as corridas e é tanto.


Correr é viajar muito, muito intensamente.


As minhas Desconcertezas passam a ter um fio de prumo. Alinhadas.


Este blog vai continuar a escrever sobre tudo, mas vai escrever sempre sobre corrida.


A minha nova religião tem tanto de fanatismo, como de paixão, como qualquer religião.


Por isso, vai ser aqui que cada crónica será sempre uma analogia entre a vida e a corrida. Uma faz parte da outra. Para mim faz.


É por isso que os pontos 1 e 3 não são determinantes enquanto informação, mas fazem parte da construção da narrativa.


Não é fácil escrever num combóio em andamento, aviso já. (Chegámos a Coimbra B, no momento em que faço a correcção  nesta frase - nunca percebi o porquê de Coimbra B).


O Porto é passado.


Cada momento em que escrevo, em que "teclo", encaixa-se no ritmo da música que ouço. Escrevo aos pulos. Batida a batida. O combóio pula, as mãos pulam, as teclas pulam e eu encosto-me.


Aproveito as paragens, mas este combóio pouco pára. A vida não pára. Como nas corridas, a vida não passa de algumas pedras, às vezes, na pista que se quer lisa, suave. Apenas pedras pequenas que desaparecem a cada passada.


Passo de novo pelo Porto para regressar à Régua, enquanto volto para Lisboa e estou parado em Coimbra B.


A confusão instalou-se. Na minha cabeça. Não chega a ser confusão. Bom, primeiro instalou-se, depois deu lugar a um estranho lugar na minha cabeça.


Deixei de ter capacidade para perceber se a corrida me leva ou se eu corro porque quero ir.


Tem isto a ver com este fim de semana fantástico no Douro. No Douro verdadeiro. No Douro fantástico.


As motivações que nos levam a escolher destinos, viagens, locais, são milhares. Vamos pela comida, pela natureza, pela cultura, pela diversão, vamos porque vamos. Apenas por ir.


Tudo o que fazemos depois adapta-se.


Tem sido assim as minhas viagens. Ao longo da vida.


Vou com um propósito. Tudo o que tenha que fazer extra propósito encaixa-se. Não é prioridade, tal como as pequenas pedras que se atravessam no caminho e que são chutadas a cada passada. Desaparecem.


Se bem se lembra mudei de religião.


São mudanças profundas.


Reflexões que dão lugar a comportamentos, atitudes que se refazem.


Esse processo em que alguma lógica se inverte é carregado de mudança. A quantidade não releva. Mudança, apenas.


Descobri, neste fim de semana no Douro, que manda a minha religião, colocar o prazer da corrida no topo das prioridades. Tudo o resto adapta-se. Inverter a lógica. A lógica tem sempre lógica e assim será.


No sábado - ontem - acordei cedo.


Às nove e meia estava a tomar o pequeno almoço. Uns ovos, pouco pão, um ou dois doces, pouca fruta, sumo, café, muito, sem açúcar. Água.


Adoro tomar o pequeno almoço nos hotéis, de calções, havaianas e t-shirt.


A sexta feira serviu para fazer a viagem desde Lisboa, descansar, aproveitar.


O Sábado tinha uma agenda definida, mas com espaço para fazer tudo o que tivesse que ser feito.


Já não consigo viajar sem o equipamento e os ténis, os phones e a bolsa. É obrigatório. Nem que a viagem seja de casa para a TVI...


Subi ao quarto e equipei-me.


Desci e comecei a correr.A música isola-me do mundo exterior. Tem efeito imediato. É ela que me ajuda a seguir viagem.


Saí pela esquerda, uma descida íngreme para começar. Óptimo. Gosto de descidas. Quanto mais alucinantes melhor embala.


Desço a rua, contorno o hotel pela esquerda, entro na pista.


Ao meu lado direito - finalmente - o Douro. O ar está fresco, os primeiros raios de sol começam a torná-lo mais e mais acolhedor. É sábado, mas parece uma daquelas manhãs de domingo que adoro.


O rio, as margens desenhadas em socalcos.E barcos que descem. Barcos que passam. Tudo é tão transitório.


Ao meu lado esquerdo as traseiras do hotel, primeiro, árvores, sombras, relva a seguir.


Até às pontes perto de um quilómetro escoltado pela beleza esmagadora das encostas, o embalar do rio e o verde ali ao lado.


Por baixo da primeira ponte uma curva à esquerda. Uma subida que obriga quase a ir a passo. Inesperada. Estava planificado um circuito mental para os meus seis quilómetros de sábado.


Correr em redor desta pista que do lado de cima mistura a estrada com a confusão da cidade e em baixo a natureza bela. Estado quase bruto.


Como se o hotel e tudo o que lhe seguia fosse um gigantesco quarteirão.


Do lado de cima a estrada, do lado de baixo a pista e o rio. Correr à volta.


Ao fim de cada volta uma descida e de novo ao fim uma subida. Há sempre que subir quando se desce e às vezes desce-se muito. As subidas tornam-se mais duras. Desafiantes.


Meia-dúzia de voltas. Subir, descer, estrada, plano, pista, rio, em círculos.


(Ainda passei depois pelo ginásio)


A minha corrida de sábado junto ao Douro fez parte do meu fim de semana de higiene mental. Foi a parte fundamental. O "momento".


Cruzei-me com pescadores de fim de semana, sentados na margem de cá. Gente que corria mais rápido do que eu, gente apenas a caminhar. Claro, gente com cães - porque raio esta gente acha que as pistas são para os cães - e crianças.


Risos, vozes altas, gente baixa. Baixinha.


Na parte de baixo do meu percurso de sábado, na pista, junto ao rio, bem a meio, havia um pequeno parque infantil. As crianças brincavam aí.


Ao longo da margem bancos em cimento.


Fiquei com aquela sensação que quando terminava a subida que começava por baixo da ponte e contornava a esquina para descer ao hotel para á em baixo voltar pelo mesmo caminho, os senhores da loja de rações já me conheciam.


Passei ali umas quatro ou cinco vezes. A confiança foi aumentando (rir, sff).


Enquanto corria, eles bebiam uma Mini matinal e fumavam um cigarro.


Falavam do Euromilhões, que em uma das vezes eu consegui escutar.


,Sempre que passava eles baixavam o tom e miravam-me como que a pensar "o que anda este maluco aqui a fazer às voltas?"


Às onze da manhã já estava completamente noutro patamar da minha existência.


Nada para perturbar o ambiente. Tudo perfeito. Alongamentos. Muitos. Novo.


Descanso. Leitura. Sol na varanda com vista para as Caves Sandeman, para o rio e para a pista.


O fim de semana estava apresentado: eu não tinha ido ao Douro e à Régua para ir fazer uma viagem no combóio histórico da CP.


Eu tinha idoao Doutro e à Régua porque aprendi a ter prazer em correr em sítios bonitos.


Essa é a viagem. A minha viagem. A partir de agora vou correr em sítios que escolho. A viagem vem depois.


Foi por isso que quando entrámos no combóio, depois de uma manhã tranquila, e fizemos a viagem até à estação do Tua, com paragem no Pinhão, me pareceu como que o "prémio de presença".


Eu já estava integrado com a paisagem, apesar de ser esmagadora. O tempo parecia ter parado.


Agora era uma de várias peças que se iam encaixando como elos de uma corrente.


Parado no tempo. O tempo parado em mim.


Uma carruagem carregada de história, gente vestida ao passado, cantando esganiçadas notas, acompanhadas pelo acordeão.


Porto Vintage, rebuçados de Lamego.


O vinhedo. As encostas. Tons amarelos e castanhos, verde e azul.


Parado no tempo.


A viagem. O regresso.


A minha companhia atirou: " vais provavelmente ao melhor restaurante onde alguma vez estiveste".


Normalmente ela não se engana. Tem gosto refinado. É uma mulher bonita. Gosto de mulheres bonitas.


Subimos as escadas. Atrás do balcão, um jovem.


À minha frente, um menino.


Nunca fui recebido num restaurante - em toda a minha vida - com tamanha delicadeza, simpatia, vontade.


"Mesa para dois? Junto à janela? Não sei se tenho, mas vou ver, por favor, queiram acompanhar-me. Afinal sim, uma mesa junto à janela. Tenham a bondade. Um excelente jantar".


A minha companhia atirou:
"Então..."


Fiquei ali, pasmado.


O Douro In é um dos melhores restaurantes onde alguma vez jantei. É um facto. E, este empregado é o melhor empregado de mesa que alguma vez me atendeu.


O dia correu tão suave, tão feliz, tão intimamente ligado, que tive que fazer alguma ginástica mental para não passar o jantar a observar aquele Cristiano Ronaldo das mesas.


Disse-o à minha companhia: " aquele empregado é um miúdo, não tem cara de adulto. Se for um miúdo é o Cristiano Ronaldo."


Disfarçadamente, enquanto os pimentos Padrón iam acompanhando os míscaros grelhados e alheira com cama de espargos, eu reparava na forma como ele abria as garrafas de vinho, o cuidado, a subtileza a servir. A mão atrás das costas.


O meu Pacheca Superior Branco estava deliciosa e estupidamente gelado.


Não resisti a perguntar a idade. Não a ele. Nem o nome.


A empregada que nos atendia parecia a Pipi das Meias Altas. Tinha o cabelo igual e a cara sardenta.


Perguntei a ela. A idade dele. Inspirava-me confiança. Ela, igualmente excelente.


"Dezasseis anos, está a estagiar", respondeu-me.


Fiquei abismado.


Um dia vamos ouvir falar deste puto da Régua, a quem não perguntei o nome. Acho que com esta idade pode trabalhar no melhor restaurante do mundo quando quiser. Será cobiçado pelos melhores, pago a peso Douro.


Uma viagem.


Estou de regresso à cidade das pedras no caminho. O Porto ficou lá atrás, no passado. Ao Douro hei-de voltar. As luzes na carruagem estão meio apagadas, acolhedora luz. Há silêncio.


Há quem durma. A Joana vai lá mais à frente, que coincidência, a Joana na mesma carruagem.


A minha companhia, de sempre, vai ao meu lado, como sempre.


Só ainda não a convenci a começar a correr, mas está quase.


É que há viagens que são irrepetíveis.


Correr é estar a viajar. É sair do lugar.


Vou desligar o computador e dormir um pouco.


De certeza que alguém em acorda quando eu chegar, desta viagem, desta corrida.


É que o combóio não pára em todas as estações. A vida também não.


 


 


 


 

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publicado às 20:51


 Esta é a última crónica sobre a minha primeira meia maratona.


Amanhã volto aos meus devaneios e tanto que tenho para escrever.


Quanto mais conheço as pessoas mais apaixonado fico. Depois, a desilusão da vulgaridade, mas isso não é para hoje.


Depois de uma viagem fisiologicamente apertada, já em condições normais, depois de sair do autocarro, tinha agora uns minutos, poucos, para chegar à linha de partida.


Mesmo para verdinhos (literalmente) como eu é importante partir na cabeça da corrida, sob pena de perder uns largos minutos a andar por entre todos aquelas que não correm.


Vinte minutos. O tempo que tinha até até chegar à partida.


O João atava os ténis. O João é polícia. Das Brigadas. Treina sózinho, em casa, na rua. O João é meu amigo e pai de um colega do meu filho.


Tinha tanto de provável como de improvável encontrar alguém conhecido entre os mais de vinte e três mil doidos que subiram à ponte!


Encontrei vários...


Mas, foi o João quem me fez companhia até à partida.


Fomos caminhando, já ansiosos, falámos dos tempos que queríamos fazer, de como nos sentíamos. Foi rápido. Chegámos à linha de partida praticamente quando a corrida começou.


- "Grande abraço, João, dá-lhe", gritei. E, começámos a correr.


Cruzei-me com o João mais tarde, já eu tinha passado a estação de Santa Apolónia, já ele estava a voltar. Corre mais do que eu, mais rápido, há mais tempo. É mais novo.


Tinham-me dito para correr de trás para a frente, quer dizer; começar devagar e guardar-me para o fim.


Dizia-me a pouca experiência de corridas que o início é muito rápido. Vamos na onda. Numa prova curta podemos recuperar, numa prova longa como a meia maratona, correr muito rápido no princípio pode revelar-se fatal no fim. Era a minha primeia meia maratona. Estava doente. Não queria fazer muito má figura.


Segui os conselhos. A seguir à ponte a primeira descida. Aproveitar para relaxar, embora tivesse quase quilómetro nenhum nas pernas. Fui deixando ir o corpo solto até chegar cá a baixo à rotunda.


Os primeiros cinco quilómetros estavam a correr muito bem. Ia fazer meia-hora. Ritmo de seis minutos por quilómetro. Podia ter feito bastante menos. Estava bem. A manhã estava como gosto, fresca e bonita.


Mas, faltavam ainda uns longos dezasseis quilómetros. Deixa ver como corre até aos dez.


Foi quase na zona da Matinha - já a Expo estava para trás - que comecei a colocar em prática os planos mentais. Com dois pontos de abastecimento feitos, água sempre à mão, aos quatorze quilómetros decidi tomar o gel que levava comigo.


Ganhei asas.


Corri sózinho, mas na verdade nunca corri sózinho.


Fui indo enconstado aqui, encostado ali, a olhar para os pés de uns, para os rabos de outras. Sim, para distrair, não vejo mal. Não toquei. Não mexi.


Fiz os primeiros dez quilómetros a tentar ver se via o Filipe Mendonça que estava a correr a Maratona e já vinha de Cascais. Chegado ali à zona de Santa Apolónia desisti e decidi concentrar-me no que estava a fazer, eis quando baixo a cabeça ouço aos gritos: Zééééééééé...


Era ele. Filipeeeeeeeee....


Quase caíamos os dois embrulhados nos que corriam junto a nós. Para ele não sei, para mim foi o que faltava. O incentivo que faltava.


Depois ainda voltei a ver o João, com quem me tinha cruzado na partida.


Quando corres uma meia maratona e viras os dez quilómetros sabes que é a partir daí que a prova fica realmente dura.


Preparei-me a seguir aos dez quilómetros. Tinha rolado lento. Estava fresco. Sem dores. A gripe ficou para segundo plano. A gripe estava KO.


É a partir dos quinze quilómetros que as pernas viram blocos de cimento pesado. Incrível, a seis quilómteros do fim - seis quilómetros é para aquecer - e sem forças nas pernas. A cabeça manda, elas não cumprem. Estranhamente, à passagem pelo décimo quinto quilómetro aconteceu o inesperado: não houve bloqueio!


Essa estranha sensação deu-me asas. Por pouco tempo. Nunca me tinha acontecido.


Quilómetro dezoito. Cheira a meta. Cheira a fim. Cheira a objectivo cumprido. Três simples quilómetros, que em ocasiões especiais são corridos em quinze/dezoito minutos, ali tão próximos, mas tão absolutamente quase impossíveis.


Tive que ir buscar forças ainda não sei bem onde para os próximos três quilómetros.


"Zé, raiva meu. Não pode. Vai. Vai. Não pode", dizia-me a mim próprio.


Até ao décimo nono quilómetro só me interessava manter o registo abaixo dos seis minutos. Nessa altura já sabia que ia bater os meus melhores tempos alguma vez sonhados. Ia feliz. 


Entrei no quilómetro vinte. A meio da corrida emocionei-me. Quando passei pelo Filipe - chorei sim - e quando me lembrei do meu amigo Vitor, que foi a enterrar na véspera.


Faltava um quilómetro. Estava com as pernas a começar a doer. Os gémeos tinham dado sinal três quilómetros antes. Pensei: que vergonha, agora que é só gente nas bermas é que vais começar a andar?


Na verdade, ao longo da corrida - a primeira que fiz sem parar, sem andar, sempre a correr - tive vontade imensas vezes de simplesmente parar ou apenas caminhar. Quase quase.


Pensei depois: estou aqui para correr. Correr muito. O que conseguir. Não estou aqui para andar nem para estar parado. O tabaco, ter deixado de fumar dez dias antes fez toda a diferença, garanto.


Digamos que faltavam uns oitecentos metros.


As palmas e as palavras de incentivo que gritavam desde a berma estavam a fazer aumentar a passada. Cem metros mais à frente vejo o Miguel Guerreiro. Já antes me tinha cruzado com ele na corrida. Acabou a Maratona abaixo das quatro horas - como o Filipe - heróis de carne e osso, garanto.


O Miguel decidiu gritar-me e dar-me um "five"...


Foi uma espécie de Power Song final.


Arranquei como se estivesse a começar a corrida. Tão louco ia que comemorei a minha vitória antes do tempo, numa zona em que me parecia a meta. Só depois olhei e vi o relógio e a meta uns cem metros mais à frente.


Entrei na recta final qual queniano meio anafado, um tudo nada mais claro, mas igualmente rápido naqueles cem metros.


Cortei a meta com os braços no ar e lágrimas nos olhos. Ninguém sabe o que o dia de ontem significou para mim.


Ele não se resumiu à minha mais fantástica corrida de toda uma vida.


Ele representou uma radical mudança.


Na forma como olho os outros, como me relaciono, como me decepciono, como me alegro com as pessoas. Ontem, tudo equacionei. Ontem foi dia de corrida, de grandes decisões, de grandes e profundas mudanças.


Ontem, aprendi estar longe do que faz mal. Dos interesses. Das inverdades. Há mundos que não são o meu. Nem me permitirei jamais voltar a entrar neles. Aprendi isso. Eu gosto de aprender.


É que ontem também eu estive no paraíso.


E, no paraíso, na minha corrida mando eu. Como na vida. Eu decido quando abro e fecho portas, quem entra quem sai, quando entra quando sai. Quando eu quero. Eu, como quando corro. Apenas eu.


Ontem, a corrida ensinou-me que há mais preocupação, mais afecto, mais dedicação, mais estima, mais incentivo, menos, mas muito menos interesses quando se corre do que na vida.


Na corrida, ninguém se conhece, ninguém tem nada para ganhar, a não ser os que vão para ganhar. Não são vitórias. São verdades individuais que se transformam em objectivos pessoais. Atingidos com trabalho e não a qualquer preço.


Na vida colecionam-se medalhas. Exibem-se troféus, mas dificilmente se corta a meta com os braços no ar.


A minha vitória foi chegar ao fim, com o meu melhor tempo de sempre, na minha primeira meia maratona oficial.


O meu troféu foi uma medalha, que aos meus olhos, é a mais bela do mundo.


Eu nunca fui uma medalha.


Talvez por isso não tivesse ninguém à minha espera à chegada.


Deixei que a menina me colocasse a medalha ao pescoço. Senti-me Campeão. Ela estava lá à minha espera. Não só, mas também!


Vi um pouco dos UHF que cantaram Zeca Afonso e fui à minha vida.


Pelo meio, o que me acontece sempre, seja onde for, nas aulas, na rua, no centro comercial, no café: olha o Quaresma da TVI, pode tirar-nos uma foto? Pode tirar uma foto connosco?


Digo que sempre que sim. Digo sempre sim a quem me aborda.


Ao início impressiono muito. Depois perdem o interesse. Felizmente. São as águas que se separam naturalmente!


Não tinha ninguém a minha espera na chegada, mas vi o Alexandre Évora, e tirámos uma foto, não vi a Rita nem o Filipe, afinal eramos mais de 23 mil, mas vi as fotos.


Foi um dia especial para todos. Um dia em que todos fomos vencedores perante a vida e o desafio que quisemos enfrentar. É sempre, sempre uma questão de opção.


Vinte e três mil e eu.


Amanhã volto a outros devaneios. As crónicas sobre a minha primeira meia maratona acabam aqui.


Amanhã vou escrever sobre Anjos com alma de Diabo. Sem asas.


Daqueles que voam baixinho apesar de pensarem em altos vôos.


Mas, isso é amanhã.


Por hoje, dizer apenas - vou repetir-me - que esta alucinação que durou uma semana não é da minha responsabilidade. É da gripe.


A gripe não mente. Nem eu!


(Agradeço: Ana Sofia Vinhas, Raquel Matos Cruz, Filipe Mendonça, Joana e Nuno Malcata, Ana Morais, Rita Rodrigues, Correr Na Cidade, Nuno Francisco e Fitness Hut e pouco mais. Agradeço também aos amigos que não conheço pessoalmente, mas que conheço do Facebook. Não é preciso conhecer pessoalmente para sentir essa amizade. Agradeço o facto de me terem empurrado até aqui - se me esqueço de alguém peço desculpa-. Agora é comigo. Obrigado. A próxima há-de ser numa capital europeia, é um sonho, sim, eu também sonho)


 


 


 


 

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publicado às 18:43


 


 


Nada será como antes.


Era o que eu temia. Respiro, suspiro. Relaxo. Agora, fora da bolha.


Pela primeira vez na vida propus-me algo que entendia ser uma prova de superação pessoal. Defini o objectivo. Preparei-me. Tive apoio. Objectivo cumprido. Fica a sensação que a partir de hoje sou mais eu!


Propus dar-me uma lição. Está concluída.


Sou alguém diferente do que era, a partir de hoje.


Tive receio de adormecer. Coloquei a despertar tudo o que era passível de despertar.


Dormi cedo. Dormi bem.


Às sete e meia da manhã de domingo havia um mega concerto de despertadores cá em casa.


Tinha cinco donzelas a dormir. Apressei-me a desligar tudo.


Bebi meio litro de água morna com limão - cada maluco a sua ideia - e fui tomar duche, que gosto de correr fresquinho e cheiroso, claro que não meti perfume. Menos...


Vamos lá ao "tal" pequeno almoço. Entro na cozinha e a única coisa que me apetece é um café. Nespresso, por isso cortei o cabelo assim, como o tipo do anúncio.


Não pode!


Saco de um iogurte líquido. De morango.


Lavo os dentes. equipo-me, tomo o Nespresso e faço-me à estrada.


Sempre sózinho, como gosto.


Em todos os momentos importantes na minha vida tive sempre que ter o meu próprio momento, espaço e tempo.


Parei no Forno. O habitual; um pastel de nata e um café. Mais um.


Cruise control até ao parque das Nações.


Já tinha umas duas ou três mensagens de incentivo, uma ou duas fotos do Facebook/Instagram e mais umas mensagens de incentivo.


A manhã estava fresca, como gosto. Sentia que podia ser um domingo memorável.


Só me lembrava da gripe quando por vezes tossia.


Estacionei no parque de um hotel com receio de chegar mais à frente e não ter hipótese. Cinco minutos a pé e estava junto aos autocarros que transportaram 22 mil pessoas até ao tabuleiro da Ponte Vasco da Gama.


Filas gigantescas que se moviam a um ritmo fantástico. Pouca espera.


Olho para os WC cor de laranja.


A água das sete e meia da manhã - com limão - mais os dois cafés começavam a produzir efeito. Sair da fila naquela altura era atrasar tudo. Faltava meia hora para o início.


Seguia a fila e em minutos estava dentro de um dos autocarros.


Bastou iniciar viagem para começar o meu único pesadelo do dia.


Quando entrámos na ponte já estava no limite. Pergunto a uns tipos se falta muito.


Uns dez minutos, vamos à estação de serviço e voltamos para trás.


Pedi a todos os anjinhos que me ajudassem. Estava tudo a correr tão bem, nem me lembrava da gripe, porque raio não fui ao WC cor de laranja.


Juntamente com esse três amigos imediatos, ponderámos responder às minhas necessidades fisiológicas entre a quase inexistente abertura das portas.


Basicamente eles afastavam as portas uns centímetros e eu, pronto, deixava de estar a viver no inferno.


Ainda me fiz ao lance, mas olhei em redor, o autocarro ia cheio.


Não, acho melhor não.


Acho melhor não, responde um deles.


Já não tinha mais como controlar. Estava com suores frios, a transpirar. Juro, pensei, que se lixe, é mesmo dentro do autocarro.


Por vezes colocava-me em bicos dos pés e perguntava aos meus amigos do momento se faltava muito. Sempre que me colocava em bicos dos pés era pior. Muito pior.


É lá mais à frente, dizia outro.


Obrigadinho, pensei eu.


Acho que temos mesmo que afastar as portas, estou a passar-me.


Acho melhor não disseram os três.


Olhei em volta; é melhor não. Estava para morrer.


Não aguentava mais, era o limite.


O autocarro pára.


Sou o primeiro a sair - reparei no ar espantado dos polícias a pensarem que me ia suicidar - em direcção ao gradeamento da ponte. Encostei-me a um dos postes e, meus amigos, eu estive no paraíso.


Perdi a noção do tempo. Estava pronto para correr.


Fui furando até lá à frente. Já avistava a linha de partida. Tudo muito rápido.


Passou pouco tempo desde que o primeiro partiu até que eu cruzasse a linha de partida.


Era o momento de meter a app a funcionar e começar a correr.


Sobre a corrida escrevo na última crónica, amanhã.


Tive tempo para olhar o rio dos dois lados. Vi gente gira a tirar fotos, auto-retratos, vi o senhor da bandeja e do laçarote, vi gente com idade para ser meus avós, e miúdas "muita giras".


As corridas tem milhares de miúdas giras. Gente gira.


Que mais pode um homem querer; passar uma manhã rodeado de milhares de miúdas giras, em calções e top. (Na verdade nem dá para reparar).


Não fosse aquele episódio fisiológico e esta era a última crónica.


Assim a corrida fica para amanhã.


Por hoje ficamos assim. Vá, se está aflito(a) vá lá, que eu sei bem o que isso é.


Vai ver...o paraíso. Depois conte...


Bom domingo. Como o meu. Alíviado!


 


 

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publicado às 16:58

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