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Quem me conhece estranha-me.


Já me perguntaram se eu estava a ficar obcecado com isto da meia maratona.


A raça humana é curiosa. Quer saber tudo.


Não, não estou obcecado, mas satisfaço as curiosidades.


A vida pode ser olhada de milhares de maneiras. Milhões. É o que somos todos, muitos milhões. Não existe um olhar igual ao outro.


O que é então essa "obsessão"...


Não consigo explicar. É-me difícil perceber tantas cabeças. Difícil encontrar lógica na pergunta.


Não há respostas para todas as perguntas.


Não é obsessão nem nenhum parente da dita cuja.


Pode ser difícil entender, acredito, mas as coisas mudam, as pessoas aumentam de tamanho e de responsabilidade, a terra gira, o verão chove a inverno e o outono, aposto, não vai fazer cair as folhas das árvores.


E, ninguém é perfeito, por muito que insista.


Tenho o diploma de protótipo comodista - não confundir.


Foi assim toda a vida.


Deixei sempre para amanhã o que podia fazer hoje, salvo raras e preciosas excepções.


Quem me conhece habituou-se assim a mim. Quem não me conhece só me conhece assim.


Mas, a terra gira, que se farta - já viu há quantos milénios?


Por vezes a terra gira ao contrário...


São essas alturas, em que a lógica da vida se desvanece, que nos obrigam a reformular o olhar. Fechar e abrir de novo.


Nessas alturas de provação aprende-se com a impossibilidade de travar o curso das coisas; retiramos lições.


Um olhar. O meu.


Não é obsessão isto de ir correr a meia maratona.


É desafio.


Desafiar as capacidades. A dor e o prazer. Desafiar-me. Desafiar o meu passado comodista - não confundir.


É superação.


Avançar quando queres desistir. Subir quando queres descer. Secar quando queres beber.


É paixão quase amor.


Fechas os olhos e sorris. Escutas a melodia. A música, os pássaros, as pessoas, a cidade, o campo, os combóios.


Mais rápido. Ofegante. Prazer. Arrepio. Água que escorre pela boca, pelo corpo, pelas pernas.


É o vento que empurra.


Sãos as asas invisíveis que ganhas.


É exibicionismo. Claro que é. Todos gostamos, de uma forma mais directa ou mais indirecta, de mostrar aquilo que fazemos com coragem, intensidade, inteligência, paixão, responsabilidade.


Correr, para quem gosta, é só mais uma metáfora da vida com muitas metáforas da vida dentro.


Todos gostamos de mostrar o lado brilhante da vida, mesmo que seja através de filtros. Não é o caso.


Até aqui há uma deliciosa relação.


Mostrar, ser visto. Não, nada de fama, aqui. Mostrar para partilhar. Ser visto para trocar experiências. Beber conselhos e ensinamentos.


Tudo isto para dizer que faltam exactamente oito dias para o dia mais importante deste ano de corridas. Deste ano de aprendizagem.


Tenho aprendido a escutar, a observar, a resistir. Tenho aprendido a descobrir.


A obsessão que nos trouxe até aqui não é apenas um sinónimo de pragmatismo:


Definir um objectivo. Traçar um plano. Executar. Conseguir.


Se é essa a obsessão das dúvidas, então estou obcecado.


Se é outra, trocado por miúdos, está dada a resposta: é um desafio que me coloco. É também uma forma de estar nova. E é aprendizagem, caminho. A vida é isso.


Dizia eu que faltam exactamente oito dias para a meia maratona.


Ontem saltei o plano de treinos e descansei.


Faltava-me a última corrida longa, chegado ao fim da terceira de quatro semanas de preparação.


O sono é decisivo. Por isso acordei cedo.


Fui ver futebol. Saí a meio.


O meu jogador preferido ficou nas cabines ao intervalo e diz que o jogo ( de treino ) acabou mais cedo porque um dos miúdos quis mostrar aos espectadores que também sabia de artes marciais.


Em boa hora.


Não me enervei, que eu enervo-me com estas coisas.


Enquanto isso, já eu me cruzava com dezenas de pessoas coloridas, amarelo-limão, cor de laranja néon, azul céu com filtro de Instagram. Gosto de me cruzar com pessoas que trajam bem, mesmo quando correm.


Trocaram-se vários sorrisos, olhares. Nada de palavras, a não ser quando eu deixei escapar um "porra" por causa do puto gordo que se atravessou à frente, com o capacete a tombar-lhe no nariz.


Nem toda a gente corre.


Esta manhã gostei de correr. Esta manhã também gostei de ver pessoas completamente vestidas, com sapatos, a caminhar e a fumar o seu cigarrinho.


Podiam era ir caminhar para o lado de lá da linha do combóio. Nada que uma mão na boca e no nariz não resolva.


Ontem descansei, hoje corri.


AS opiniões dividem-se: dezoito quilómetros a oito dias da meia maratona é arriscado.


Outros entendem que oito dias são suficientes para recuperar - imagina lá as dores que isto dá, eu também não fazia ideia.


Parece que os músculos das pernas estão a ser afastados por tenazes invisíveis, em permanência.


Tudo isto já lá vai.


Hoje consegui perceber que estou pronto. Fiz o que tinha que ser feito. Se fosse hoje tinha conseguido algo em que nunca tinha sequer pensado.


Mas, hoje era apenas a última corrida longa do plano desenhado há já três semanas.


Quase três dias sem fumar ajudaram.


Não precisei pensar na respiração, foquei-me em outros detalhes - temos que manter o cérebro ao ritmo dele e não ao ritmo das pernas.


Senti-me diferente. Melhor.


Se fosse hoje tinha a certeza que conseguia o objectivo final: correr bem, chegar ao fim em menos de duas horas e trinta.


Só que nada faria prever que todo este trabalho estivesse em risco.


Há três dias comecei a sentir desconforto no calcanhar esquerdo.


Em tempos aconteceu-me no tornozelo direito. Foi a mais longa paragem neste último ano: nove dias.


As coisas que se aprendem com a corrida;


O ácido lácteo granulou - mau alongamento - e só massagens constantes podem ajudar. Nem gelo, nem correntes eléctricas, nem pomadas. Só esperar.


Ao fim de nove dias, depois de mais um tratamento, perante a petulância, a falta de respeito e arrogância da dor, decidi entrar no carro e...trocar de roupa - ando sempre com a mochila com o equipamento.


Corri, cerrei dentes, corri, alívio, mais, mais e mais. Passou. Nunca mais voltou.


Pensava eu.


Agora, parece ter-se mudado para o lado esquerdo. O lado do coração, ainda que muito mais abaixo. O coração está sempre num plano superior a qualquer dor.


Hoje, corri à hora da meia maratona, por volta das dez da manhã. Corri junto ao rio. Calor e vento. Muita gente. Recriei o cenário. Antevi-o.


Coloquei em prática o plano mental para a corrida.


Os primeiros cinco quilómetros a rolar. Os segundos passada larga até aguentar; Fartlek se fosse preciso e foi.


depois mais cinco.


Ao décimo quilómetro aquela imagem do Adamastor.


Entrada na zona crítica. Dos dez aos quinze faz-se.


Dos quinze para a frente também se faz, mas sabe-se lá como.


O Adamastor trouxe receio por antecipação.


Correr dezoito quilómetro é fazer a meia maratona, praticamente.


Ficam a faltar três. Estou pronto para o Grande Dia.


Com dor. Como ela me adora.


Soubesse ela que o meu retrato do tempo de comodista - não confundir - está gasto pelo tempo. Pobre, que não conhece quem ataca. Erro.


Estou preparado, a oito dias do Dia.


Estes oito dias vão ser passados como planeado. Nada será alterado.


Manter a condição apenas.


E tu, dor.


Gostas de fazer surpresas. Muito bem, eu gosto de surpresas.


Estes oito dias vão servir para conversar sobre umas coisas que tenho para te dizer.


Domingo veremos!


Se não me largares vamos juntos.


Voltando à obsessão...


Quando me voltarem a perguntar vou responder que sim; é uma obsessão.


Com prazo de validade.


 


 

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publicado às 16:52


 


O Artur a titular quase me tirou a vontade de correr.


Só que hoje é a última corrida longa antes da minha primeira meia maratona. Entre 15 a 17 quilómetros. O último tijolo que vai concluir a base.


Os dias que se seguem vão ser de manutenção e recuperação até domingo que vem.


Fica claro que não vou falar o Estoril-Benfica que está quase a começar. Só referi o Artur para chegar até aqui:


Se o Benfica perder e o Artur tiver culpa, podia encontrar aqui um motivo para sair do sofá.


Se o Benfica ganhar, mesmo com as brutais exibições ao contrário do Artur, podia encontrar aqui um motivo para sair do sofá.


Mas não. O Artur apenas personifica a dúvida que inúmeras vezes me colocam quando saio do sofá: em que pensas enquanto corres?


Será fácil entender que será difícil responder.


Durante uma ou duas horas de corrida penso em tudo até em nada, se estiver fresco, no fresco que está. Se estiver calor penso minuto a minuto como fazer para que ele não me derrube.


Quando corro junto ao rio e em paralelo os canoístas remam para Norte penso num desafio imaginário, correr mais que as remadas. Olhos as margens. A ponte. Cruzo-me com pessoas. Penso-lhes as caras, os ténis, imagino-lhes a vida e as vidas.


É uma pergunta sem resposta.


Na verdade, não penso. Os pensamentos é que chegam até mim. Por vezes ausentam-se. Eles mandam. Eu corro.


Correr durante muito tempo não tem apenas a ver com as pernas, com os pulmões, com os pés. Tem tudo a ver com a cabeça. E ela está formatada para pensar, para reagir. Até para pensar em nada.


Até aqui a liberdade é total.


Penso o que quero pensar. Não penso quando não quero pensar.


A ausência das imagens, dos sons, de tudo. Das pessoas.


Quando corro não sou obrigado a cumprimentar toda a gente com que me cruzo.


Não sou obrigado a falar com ninguém. Até mesmo com os conhecidos. Basta um sorriso, um piscar de olho, sem abrandar a passada, à passagem.


São momentos sem os quais já não consigo passar. A solidão, palavra crua mas tão saborosa.


Hoje é o segundo dia sem cigarros. Já me fartei de comer pipocas, é um facto, mas é dia de bola. Tenho desculpa e o milho não engorda porque o primeiro é para os canários.


Bem mais calmo do que ontem. Tranquilo. Sereno.


Em contra ponto, aquilo que os verdadeiros corredores identificam como sendo "o bloqueio mental" está a acontecer-me. Lá está; o sofá. Hoje com manta e tudo.


Tenho que calçar os ténis e ir para o asfalto, mas o sofá tem uma cola forte e o jogo só agora vai começar.


Será sacrilégio falhar o plano de treino por opção. Mas está-se tão bem cá dentro...


Só que lá fora está óptimo para uns quilómetros à séria.


Temos aqui duas hipóteses. Ou esta crónica continua mais logo ou acaba aqui.


Daqui a hora e meia se verá.


Espero não me arrepender!.

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publicado às 18:18


Diz-me a intuição que os momentos de tranquilidade não devem ser interrompidos de forma brusca.


O que não entendo é porque é que não sigo a minha intuição quando a devo seguir.


Ela também me diz que a nove dias do grande dia é agora que os frutos começam a ser colhidos.


Mentalmente existe um plano para um objectivo e, os quilómetros já corridos, garantem que tudo se conjuga. Há uma base construída.


Ter deixado de fumar - já passaram vinte e sete horas - foi uma óptima ideia. Irei fazer a meia-maratona com dez dias de "não fumador".


Acredito que irei notar a diferença. Não é a primeira vez que deixo de fumar, é só a primeira vez que deixo de fumar a uma semana de uma prova, quando tudo estava a rolar na perfeição.


Como não foi a primeira vez devia ter tido a capacidade de perceber que não ia ser fácil. Mas, hoje foi muito difícil.


Fiz o treino no ginásio, como planeado no programa de quatro semanas de preparação.


Não correu mal. Dupliquei os exercícios.


Pior foi durante a manhã.


Uma anormal aceleração mental. No mínimo.


Pensei que com o treino acalmasse e acalmei.


Comi, ao longo do dia, uma caixa de pastilhas inteira. Bebi água quase tanta quanto a que caiu há dias em Lisboa.


O fim de dia - início de noite - parecia estar a correr bem, para quem ainda há poucas horas ia à "sala de fumo" de meia em meia hora.


Nada mais errado!


Senti - inconscientemente - uma leve descompensação.


Voltei a falar muito. Agitado. Levantei-me uma meia-dúzia de vezes para ir...fumar (sentei-me na hora).


Nada do que descrevo foi abrupto. A quebra do tal estado de tranquilidade, de serenidade, isso foi abrupto. O processo não.


Ele foi sendo gradual. Retirou-me concentração.


Em dois momentos errei. Erro muito, mas é das piores coisas que me posso fazer. Errei num improviso - falhou-me a memória fruto da falta de capacidade em me concentrar - e num outro momento, inconscientemente, fugi da linha que devo manter.


O resto do tempo foi gerido com as técnicas e experiência. Não foi brilhante. Fez-se.


Foi tudo muito rápido. Não sei se alguém reparou. Eu reparei.


À vinda para casa, no momento kit-kat do dia, pensei sobre o que me estava a acontecer.


Chegado a casa continuei a pensar.


Há um antes, um agora e um depois.


Antes sentia-me óptimo, cada vez melhor.


Agora - hoje - entrei num quadro de alterações comportamentais, que, com o entrar da noite, foram saindo, gradualmente, tal como começaram.


Diziam-me que isto não é nada. Amanhã é pior. Um calvário.


Em boa hora estou de folga este fim de semana. Hoje foi um dia duro.


Amanhã não será, tenho a certeza. É que não é a primeira vez que deixo de fumar.


O depois; o depois é agora, este momento, daqui a pouco, quando acordar, o sábado. O domingo. A semana. A meia-maratona.


Passado o antes e o agora é o depois que me preocupa. Começo a ter dores num calcanhar. Já tive uma vez. No outro. Vai assim mesmo.


Diz o povo: um dia não são dias!


O povo tem sempre razão.


Hoje foi um dia mau, extraordinário e justificado. Acontece a todos.


Digamos que o céu estava limpo e de repente chegou uma tempestade que nem o IMA conseguiu antecipar.


Mas, o povo também diz que a seguir a uma tempestade vem sempre a bonança. É a lei natural das coisas e do tempo.


Foi só um dia mau.


Certo que foi o dia em que tudo mudou.


Digamos que foi um intervalo no jogo.


Agora vem a segunda parte.


A melhor parte.


Foi só um dia mau em troca de dias melhores.


É a lei natural das coisas e do tempo.


Tic-tac-tic-tac-tic-tac!


 


 


 

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publicado às 04:02


Escrevo a uma hora em que já devia estar a dormir.


Como se houvesse horas para escrever, para dormir!


Ontem falhei e não escrevi a crónica diária sobre a minha primeira meia-maratona, tal como me tinha comprometido, desde logo, comigo.


Falhar de novo era imperdoável. Há objectivos para cumprir.


Depois, um tipo vem das notícias às duas da manhã, vem cheio de adrenalina - mesmo que não a sinta - e dormir passa a ser a menor das prioridades, mesmo com uma meia-maratona à porta. Na verdade ainda falta uma semana, posso dar-me a este luxo.


Entre as opções que se colocam - a esta hora da madrugada - ver tv não me parece. Saí agora de lá de dentro dela. Das entranhas do chroma.


Jogar PS - nada de confusões - a esta hora ia espevitar-me os neurónios.


Toda a gente dorme.


Estou na varanda, só eu, a ouvir os cães lá ao longe, os grilos - aqui no campo ouvem-se os grilos - e um já familiar ruído de fundo do poste de alta tensão lá à frente.


Dizem que a humidade em contacto com as poeiras alojadas nos cabos de alta tensão provocam este ruído e não é prejudicial para o ser humano.


Pelo menos os pássaros nunca morreram de choque eléctrico, que eu bem os observo. Adiante.


A crónica de hoje tem razão de ser. As outras também.


Deixei de fumar e já aguentei duas horas e quarenta e um minutos.


Eu descompenso mesmo, quando deixo de fumar.


Depois de sair da Box, a fábrica, para os mais chegados e, como sempre faço, a caminho de casa, detive-me com os meus pensamentos.


A corrida também me dá isso; momentos só meus.


Sou por assim dizer um animal anti - social. Gosto muito do eu, de estar comigo - as folgas durante a semana são tempo meu -  de ter momentos em que a única pessoa para quem falo, a única que me escuta, sou eu.


Durante a corrida - normalmente uma hora, quatro a cinco vezes por semana - chego a semi-cerrar os olhos, não os posso fechar por motivos óbvios, e consigo perceber que a minha cabeça esta vazia.


Sim, uma espécie de côco, mas sem nada lá dentro.


Sigo a música e o bater do coração. A passada. O ritmo. Deixo-me ir enquanto observo o rio e a margem do lado de lá.


O truque é simples:


Vais bem se conseguires contar -te o filme que viste ontem. Em voz alta, como na tv. Sim, corro sozinho, conto-me o filme. O que eu quiser, desde que em voz alta. Às vezes devem achar que sou doido.


Se a respiração não o permitir, então, abrando. Retomo o ritmo do prazer. A culpa é das endorfinas, dizem os estudiosos, que eu leio sobre a matéria em consideração. São como sereias. Gozo o momento. Atraem.


Simples.


São os especialistas quem o diz.


Não sei mentir.


Eu já corri três meias maratonas. Esta é a primeira oficial. Oficial não quer dizer competição, longe disso, para mim.


Em dezembro, janeiro e fevereiro. Duas horas e cinquenta e seis, duas e quarenta e seis, duas e trinta e seis. Sem querer.


Saí para treinar à noite. A noite estava fresca. Fui indo, cinco, oito, dez, quinze, dezasseis.


Aqui, parei. Quase parei. Sim, admito, parei mesmo.


Estava prestes a entrar no patamar dos duros.


É a partir dos dezasseis quilómetros, mais coisa menos coisa, que as pernas se transformam em blocos de cimento.


A cabeça só pensa em parar. O corpo também.


E pensas. Pensas que estás a apenas cinco quilómetros de te superares. De chegares a algum lado.


E segues. Vais indo. Atrás da música. Já não pensas.


Arrastas os blocos de cimento. Dezoito. Faltam três e uns metros.


É nesse momento que tens uma certeza: eu faço três quilómetros em dezoito minutos. Se fizer em vinte aguento. E segues. Vais indo.


No último quilómetro decides corrigir a posição, alinhar a passada, os movimentos. O rosto muda. queres parecer bem à chegada. Não é sempre assim?


Parece que estás a começar a corrida.


Vês a linha de chegada. Olhas o relógio oficial, só por curiosidade. Não importa. Chegaste.


Mesmo que nada disto exista no meio da Lezíria.


Na Lezíria Grande, aqui no Ribatejo puro, existem touros e cavalos que passam o dia conversando e comendo, dormindo e correndo. Os touros e os cavalos também correm na Lezíria.


Seja a que horas for. Seja com o sol campino que nos dá este tom meio árabe - depois conto a história da influência árabe na cultura, na genética e na geografia da nossa tribo.


Corre-se na Lezíria, mesmo que os trinta graus reflectidos no feno dos campos pareçam cinquenta graus no corpo.


Corre-se sem pontos de abastecimento. Na Lezíria não há torneiras nos campos.


Refresco-me nas bombas de gasolina. Já me conhecem. Às vezes até me fiam uma bebida energética para os quilómetros finais. Pago no dia seguinte.


Vem isto a propósito de deixar de fumar, agora já é histórico; duas horas e cinquenta e oito, que deixei de fumar.


Na viagem para casa - agora já me deu o sono - dei comigo a pensar - tenho pensado muito nos últimos dias - que quando começar a minha primeira meia-maratona, como viu as outras três não tinham público sequer - sorriso - estarei sem fumar há uma semana e dois dias, tipo oito dias ou assim.


Nunca me senti tão bem fisicamente. Estou leve, sem dores musculares - que saudades, acompanhavam-me há um ano - a ganhar confiança e a tomar umas cenas que uma amiga me aconselhou e que só fazem é bem. É tudo natural. Como o ar.


Portanto, se o meu primeiro objectivo para o próximo dia cinco de outubro é correr os vinte e um quilómetros e cem se mantém intacto, correr e terminar bem.


Correr significa correr bem, sem problemas, sem náuseas, sem quebras de açúcar, se grandes dores nos gémeos, não significa correr como os outros. Sou um novato, ainda por cima gosto de correr sozinho. Vou correr sozinho entre uma multidão, durante muito tempo.


Dizia, se o primeiro objectivo se mantém intacto, o segundo acaba de ser revisto. Agora quero mesmo estrear-me numa meia-maratona, a minha primeira-meia maratona, e quero correr a distância em menos de duas horas e meia.


Isto de ter deixado de fumar - deixo de um momento para o outro - vai ser "aquilo" que me faltava.


Vamos ser sinceros: é bem mais difícil correr a meia-maratona que deixar de fumar.


Nem os quenianos me agarram, no fim, quando receber a medalha, de participação e voltar para casa, de carro, obviamente.


E quando cortar a meta irei levantar os braços e terei aplausos, nem que seja um ou dois, os meus.


Cheguei ao fim!

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publicado às 03:16


Já dizia Haruki Murakami:


" Um cavalheiro a sério nunca deve contar ao mundo o que faz para estar em forma. Como toda a gente sabe, não sou um cavalheiro, por isso não penso que à partida haja razão para me preocupar com questões desta natureza".


E é assim que vai ser!


Faltam doze dias, a partir de hoje, para fazer a minha primeira Meia-Maratona.


Sim, e o que é que tem a ver com isso para estar a ler isto?!


Tem razão, nada.


Nada a ver, mas só lê se quiser.


Aviso, no entanto, não espere ler um diário ou textos fundamentalistas sobre este desporto que virou moda, nem sequer linhas moralistas. Sou um pouco imoral, às vezes.


Aqui não há: "deixe o sofá, faça exercício, faça assim, faça assado".


Ninguém me puxou para as corridas, não serei eu que vou puxar alguém. Já influenciei pessoas. É diferente.


A doze dias da minha primeira Meia-Maratona decidi escrever aquilo que me trouxe até aqui.


Uma "Experiência" que dura há um ano. Eu era - e ainda sou - o tipo mais comodista do mundo animal.


Só agora decidi começar a escrever e vou fazê-lo até ao dia seguinte ao da prova, segunda-feira, seis de Outubro.


Tomei a decisão hoje, de forma consciente.


Há nove dias, de forma inconsciente.


Não vou aqui falar dos meus treinos, até porque gostava de deixar claro que sou um principiante, logo sem grande experiência para passar.


Pergunta então: se não tem experiência para que é que escreve?


Porque um ano é igual a dois pares de ténis, muitas bolhas e dores, endorfinas e prazer, quase dois mil quilómetros nas pernas.


Principiante.


Daqui a uma semana deixo de fumar. Mata. Não quero ser sempre principiante, aos quarenta e quatro anos. Quero mais. Quero melhor. Só gosto do Bom!


Que também não fiquem dúvidas ao longo das crónicas; será um elogio à corrida. Foi ela que alterou o meu olhar sobre as coisas. Ajudou a alterar, num altura em que vivemos profundas alterações.


Se quiser podemos ir pela parte litúrgica.


Mais à frente, agora não.


Estas crónicas tem a ver com os treinos diários, a forma como passamos a olhar o tempo de outra forma.


Assim, repetido na semântica, mas aleatório na passada.  Com ritmo.


A gestão do tempo. A passagem. Os minutos.


O corpo. Os sintomas. Bem. No limite. Conhecimento. Consciência.


Os lugares por onde passo. O campo. A cidade.


As pessoas. A ausência de pessoas.


O sol. A chuva. O vento, umas vezes bom outra mau.


O passo. A passada. A respiração. O olhar. Horas atrás de horas. Os mantras. Os bloqueios, quando as pernas pesam cimento e os pulmões fecham-se para contrariar a vontade.


Basicamente é sobre isto que vou escrever até dia seis de Outubro.


Dia cinco corro a minha primeira Meia-Maratona. Há em mim muito de respeito, neste momento. Estranho respeito ou como subir à montanha mais alta.


Na verdade, já corri três meias-maratonas, em três meses seguidos, contrariando tudo o que os especialistas recomendam para jovenzinhos amadores como eu.


Corri sozinho. A treinar. Mas, esta é a primeira oficial. A maratona não. Isso é só para heróis - por agora.


Mais à frente.


À medida que os dias vão encurtando e as sensações aumentando.


Agora, como tudo começou...


Bom, o receio, o medo, a consciência, as dificuldades e o desafio começaram a assombrar-me há nove dias.


Já levo quase dois mil quilómetros nas pernas. Não devia recear assim.


Há nove dias fiz a minha segunda prova de dez quilómetros no espaço de um ano. Já fiz duas de cinco, uma de oito e uma de quinze. Estou a ganhar vício. Aquilo é muito giro. Recomendo. Nem que seja a andar ou ao pé coxinho.


Ganhei respeito à corrida. O respeito, às vezes, impõe receios.


Mas, sobre isso já falamos.


Foi assim que começou esta ideia de correr a Meia-Maratona, mas devida e minimamente preparado.


Há nove dias percebi o que é fazer vinte e um quilómetros, às dez horas da manhã, e percebi, nessa prova de dez quilómetros, tais foram as dificuldades.


Foi o meu melhor tempo de sempre na distância.


Fiquei abaixo da hora. Fiz cinquenta e sete minutos, pela primeira vez.


Só que ia pagando um preço alto pela inconsciência. O entusiasmo inicial, onde um quilómetro demorou quatro minutos e pouco, quatro quilómetros dezassete minutos, algo que nunca me tinha acontecido.


Quando as luzes de alarme acenderam na minha cabeça tinha ainda seis quilómetros de calor, subidas e descidas pela frente.


Lição aprendia. Nunca mais tomes gel quando a água está longe. Podes agoniar. Agonias. E corres. Corres. Ponto.


a água vai aparecer, mesmo que a organização se engane nos quilómetros.


O exercício que eu fazia antes de me dedicar à corrida era intermitente.


Exclusivo do ginásio. Uma ou duas vezes por semana.


Uns comprimidos Fat Burner. E nada acontecia. Perdia uns quilos e ganhava o dobro.


Nunca tinha corrido na rua. Tinha horror só de pensar.


A minha profissão é como as corridas, parece fácil mas, em bom rigor, é como o tabaco que vou deixar; mata. Também mata lentamente. Bebemos shots de stress uns atrás dos outros. E isso provoca a queda de cabelo entre outras coisas. Os horários formatados em fusos horários diferentes e diários também ajudam ao caos que tento organizar.


A coisa dá-se. Mas, não é fácil. É preciso encontrar formas de escape fora da tão em voga zona de conforto. Desafios. Desafios que libertem.


As solicitações profissionais começaram a assumir contornos dramáticos e o ginásio foi ficando cada vez mais para baixo na lista das prioridades.


No sentido inverso o colesterol subia acima dos trezentos, os flancos alargavam-se, e o boneco da Michelin ao pé de mim era um protótipo de pneus. Os meus eram maiores.


É quando páras e pensas: quarenta e três anos. Por este caminho não dobras a idade.


Coincidiu, basicamente, com o boom da corrida. Virou moda. Não foi por ser moda. Mesmo que fosse. E, ainda bem. Hoje, um ano depois, vejo gente e gente e gente a correr, a caminhar, por todo o lado.


Os portugueses fazem mais exercício. Acreditemos em milagres.


Um ano e onze quilos depois corro cinco, dez, quinze e vinte e um quilómetros. No meu tempo. No meu ritmo. Com o meu prazer. E, medito até, enquanto corro.


Recordo-me - e recorda-me a app que regista as corridas - que comecei em Setembro de 2013, pelos motivos acima explicados, com cinco quilómetros.


Terminava esbaforido, quase a rebentar, ao fim de uns bons cinquenta minutos.


Foi assim na primeira semana.


Na segunda semana pareceram-me mais fáceis.


Já corria uns dez minutos mais rápidos. Acabava esbaforido.


A fórmula é simples e vem no Goolge - antigamente dizia vem nos livros.


Os cinco quilómetros serviram de base.


Com essa base cimentada fui definindo objectivos.


Duas semanas com treinos de seis, sete quilómetros. Voltava tudo ao início. Mais sofrimento. Menos pneus é verdade!


Quase uma hora de corrida. Acaba esbaforido.


Fui andando assim. Correndo. Uns dias mais lento, umas noites mais rápido, a qualquer hora, qualquer dia, qualquer noite, só o corpo e as dores me travam e nem sempre. Já lá vai um ano.


Metade desse ano foi passada a meter quilómetros nas pernas. A todo o custo. Momentos duros. Muito. Momentos de prazer. Muitos. Solitário. É assim que eu gosto. Sózinho, comigo.


É sobre esses momentos de prazer que vou falar a partir de agora.


E sobre muitas outras coisas mais.


Na verdade, apenas expliquei ao que venho.


Na próxima crónica é que vamos viajar. E, tem uma explicação:


Primeiro o enquadramento. Como em tudo na vida.


Agora sim, vamos correr...


Vamos?

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publicado às 18:51

OS PROBLEMAS DOS POEMAS

por The Cat, em 23.09.14

"Não sei se não te amo"


 


Ela disse que ele era poeta.


Ele escreveu um poema.


Um p(r)o(bl)ema;


Ele não sabia escrever poemas.


Os poetas cantam o amor e ele não sabia cantar. Amar, mal.


Ele sabia escrever. Poemas não, de amor, não.


Ela disse-lhe que nunca lhe tinham dito, assim. E ele armou-se em poeta. E escreveu.


Escreveu mais ou menos assim:


Se fosse um livro, uma louca história de amor, num livro escrito em espiral, não sabería dizer-lhe mais que "não sei se não te amo".


Sería o título de um livro escrito em espiral.


Porque ele só sabe amar assim. Escrever assim. Ele não é poeta.


Nem ele é poeta nem o que escreve é poesia. É preguiça mental. Limita-se a escrever. Isso não é poesia e ele sabe. Por isso receia escrever.


Sabes, foi uma prova de fogo. Como tudo.


Tudo um quase.


Um quase tudo.


Ela disse que ele era poeta. Ele não acreditou. Mesmo assim escreveu.


Tudo um quase.


Um quase tudo.


Tudo lá fora desfoca, enquanto caminha no muro alto, estreito, equilíbrio, desiquilíbrio, o fio da navalha, o doce veneno do abismo, a sensação da queda.


E mesmo assim arriscou.


Escreveu.


Na ténue linha que tinha. Só essa e a escrita e a música e a vida e o estado do espírito e o Santo Graal, o sorriso.


E, lembrou-se daquela música e da outro e da outra e de tudo e escreveu. Acto arriscado, escrever.


Escreveu que em mundos pequenos, em pedaços de coisas simples, o arco-íris tem um pote. Afinal sempre tem.


No final tem um pote com todos os sonhos e as cores.


É tudo tão longo.


Estreito.


Como o parapeito onde mantém, a custo o centro de gravidade do fio da navalha, nunca a navalha. Sempre no fio. Séculos a fio.


E a história dá-se. As mãos dão-se.


Os olhos olha-se. Olham-se almas dentro.


Caminhos.


Traços e sinais.


Às vezes apenas um beijo. Meio. Toque, apenas.


E o silêncio que fala.


Dizem que não se deve voar com as asas dos outros, não. Dizem tanta coisa e o silêncio que cala, cala tanto e a dança e o toque e o encosto e o abraço.


E voar sem sair do sítio. Voar até que os pés toquem terra que não querem tocar. Fica a brisa e o perfume.


Ela disse que ele era poeta.


E ele não escreveu.


Foi só uma viagem.


Bem vindo ao mundo dos sonhos!


 


 


 

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publicado às 18:50

CERTEZAS EM CONTRA-RELÓGIO 9/11

por The Cat, em 11.09.14


Não gosto nada destas coisas.


Tenho que escrever este texto rápido. Daqui a pouco é meia noite e ele deixará de fazer sentido. Sim, na onda da Gata Borralheira e sapatinhos de cristal e coisas assim.


Só me queixo logo a abrir porque correr contra o tempo remete para um grau de dificuldade que não aprecio lá muito.


Escrevo sempre rápido. Leio rápido. Tiro pedaços de prazer. Por opção. Quando quero. Assim não gosto.


Quando a opção é minha não me detenho.


Houve um dia em que me detive. Houve!


Houve dias assim.


Foi naquele dia que "nenhum dia o apagará da memória do tempo" (quem foi a NYC já deve ter visto o mural com esta frase, eu nunca lá fui e já vi).


Naquele tempo, treze anos lá para trás, naquele tempo havia um programa de televisão aos sábados de manhã que eu costumava apresentar.


Naquele tempo, treze anos lá atrás, naquele tempo eu trabalhava aos fins de semana. Como neste tempo. Treze anos.


O treze é o meu número fetiche, nasci a treze, no quarto cento e treze, e diz o mito urbano - aqui já coloco reticências - às treze e qualquer coisa.


Ao contrário do comum mortal eu folgo fora de horas, eu trabalho sem horas, mas folgo. Folgo, é verdade, em dias que não lembram a ninguém. Não cria rotina e dá para fazer umas coisas, não me queixo.


Eu gosto muito de dormir. Bem sei que quando morrer tenho tempo, mas gosto.


Descanso muito. (Aceita-se a gargalhada). Faço pela vida.


Há treze anos - só ver as horas; tenho treze minutos até ser dia doze senão deixa de fazer sentido, o treze é o meu número da sorte, eu já tinha dito - depois de dormir até tarde, fui como habitualmente "dar uma volta" ao centro comercial. Aquilo era um centro comercial gigantesco. Um quarteirão inteiro. Hoje não passa de um quarteirão vazio de tudo. Mas gigantesco.


É incrível, todos nos lembramos do que fizemos, onde estivemos, há treze anos.


Há treze anos, no dia onze de setembro.


É incrível, nenhum de nós se lembra do que fez, onde esteve, no dia onze de setembro dos anos que se seguiram.


Mas, no 9/11 vem-nos à memória detalhes tão íntimos que quase conseguimos descrever a roupa que usámos nesse dia.


Da roupa, confesso, não me recordo, mas ainda tenho os


"All Star "encarnados.


Quando o gigantesco centro comercial ainda tinha vida, a loja que eu mais gostava de ver, do lado de fora, era a loja da Singer.


Não me recordo da roupa que vestia, é verdade, difícil recordar todos os detalhes. Nunca a montra da loja da Singer.


Gostava de percorrer todas as televisões que enchiam a montra. Gostava de passear os olhos pelos ecrãs e ver do lado de fora.


Como que a pensar: isto é giro visto do lado de fora.


Era quase um ritual, nas minhas folgas.


Também era normal almoçar em Lisboa com o meu filho e com o tio emprestado.


Treze anos depois o meu filho estuda no liceu e o tio emprestado já tem dois filhos.


Nesse exacto momento as imagens do primeiro avião.


Uma vez, duas, três, mil, milhões, biliões, ecos, caras, pó, última hora, atentado. Uma vez, duas, três, mil, milhões, biliões!


Liguei para a TVI. É aqui que entra aquela parte que já ouviram falar, do jornalista vinte e quatro horas por dia.


Também era eu próprio, pasmado, um homem pasmado, quem estava a ligar.


Alguém com um canal directo com as notícias e a aproveitar-se disso. As notícias movem o mundo e o Homem.


Pouco sabiam.


Um atentado terrorista, um erro humano...e as notícias.


Corri. Entrei no carro. Liguei o rádio. As notícias. Cheguei a casa. Sentei-me, hoje, acho que no meu sofá azul, há treze anos limitei-me a sentar-me.


O treze atravessa-me. Desculpe, é a terceira vez que o digo.


O segundo avião.


O resto.


O tudo.


O tremor.


O terror.


O zero.


O Ground Zero, de que eu nunca tinha ouvido falar, a Lower Manhattan, onde eu nunca fui, o World Trade Center, onde eu nunca entrei, as Torres, que eu nunca subi. Dizem que tinha centenas de elevadores... 


Sempre quis lá ir.


Gosto muito de elevadores...


Tudo era muito familiar, naqueles instantes que se prolongam nos tempos, até que o tempo seja digno desse privilégio.


Enquanto o mundo discutia os bons e os maus, enquanto os analistas criavam cenários possíveis, enquanto poucos, muito poucos se iam dando conta de como a Humanidade é apenas uma mancha, eu mais não conseguia que olhar. Ver.


Apenas.


Só depois consegui ouvir.


Sem legendas.


Parece que esse dia não existiu, embora ele se prolongue nos tempos, até que o tempo seja digno desse privilégio.


Parece que um qualquer realizador norte-americano decidiu fazer um brutal filme sobre a ameaça negra. A Besta Negra e os Defensores do Mundo.


Eram pessoas que caíam lá de cima. Bonecos com vida, numa curta viagem para a morte. Alucinante. Eram pessoas encurraladas com a morte. Como nos filmes mais bem conseguidos.


É difícil esquecer.


Eu não esqueço os afectos. É isso que somos. Afectos. Longe ou perto.


Ainda hoje não me detenho nos bons e nos maus. Nem nos mortos nem nos vivos.


Ainda hoje parece que estou a assistir a um Truman Show, mas com mais efeitos especiais. Interminável. Assim será. "O" onze de setembro...


Não me recordo de todos os outros onze de setembro que se seguiram.


Até hoje. Recordo-me do onze de setembro de há treze anos - ainda é onze de setembro, ainda não é meia noite. E recordo-me do onze de setembro. Ponto.


Há filmes que nos marcam para sempre, nós somos os actores e somos os espectadores.


Há dias que nos marcam para sempre, num instante, num momento.


Há pessoas que nos marcam para sempre, belo, desafio.


Há feridas que nos marcam para sempre, amor, dor.


Há certezas que enfrentam incertezas.


Tenho a certeza que de hoje a um ano vou lembrar-me do onze de setembro de há treze anos.


Tenho a certeza que de hoje a um ano vou lembrar-me do dia de hoje.


Vou lembrar-me que almocei pizza com frutos do mar.


Talvez não me lembre da roupa que vesti, mas da pizza vou lembrar-me.


Tenho a certeza.


Absoluta!

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publicado às 23:39

A MINHA VIDA É TORTURA

por The Cat, em 11.09.14


Estou metido num sério problema.


"Nem para mim sou bom".


Devia ter sido detido quando decidi o que decidi.


Decidi ir ao encontro de quem gosta de ler os devaneios que escrevo, resultado de verdadeiros bloqueios psicológicos.


Uma espécie de chá psicoactivo.


Há quem goste destes textos, fruto de efeitos psicadélicos provocados sabe-se lá por quê. Fazer o quê...


Acho que isso é considerado completamente normal, gostar de coisas estranhas, mas avancemos na narrativa.


Basicamente, decidi brincar com algumas pessoas na minha página do Facebook. Pedi-lhes para sugerirem temas, que eu escrevia sobre eles.


Assim, libertava-me de mim e passava a ser quase eles.


Mas, era uma brincadeira. Eu raramente levo o Facebook muito a sério.


Mas isso sou eu que tenho manias estranhas.


Levaram a sério e agora estou metido num sério problema.


Depilação masculina. Escrever um texto sobre este "não-tema".


É por aqui que vamos. Sim, se parar de rir, sorrir, vá, era agradável, sinal que ia continuar a prestar atenção à prosa. Bom...


A depilação masculina remete-me sempre para a Idade das Trevas, para a Santa Inquisição.


Eu acho - confesso que não pesquisei, estes textos são de escrita corrida, saem, não há espaço para grandes pesquisas, excepção a uma palavra, uma frase, pouco mais e não gosto de acordos ortográficos, não há cá disso - que homem que se depila já foi sujeito a sessões de tortura em vidas anteriores. Ele sabe ao que vai.


Sim senhor; já vivemos outras vidas ou achava que só havia esta vida (não sei se reparou no detalhe de o (a) tratar por você)?


É fácil fazer a analogia entre a depilação masculina e a tortura que a Inquisição tão bem aplicava. Daí aquela situação das vidas passadas. Eu sei que entendeu, apenas reforcei a ideia, nada de ressentimentos!


Bom, antes que deitem as garras de fora, minhas senhoras, de-pi-la-ção mas-cu-li-na. Apanharam?


Nem pensem. Não vão deixar de ler - já falta pouco para acabar - porque este assunto também vos diz respeito. Somos machistas neste aspecto e só neste. Neste texto, mas ele também vos diz respeito, mais que não seja porque algumas de vós também fazem a depilação.


A razão é simples, redutora, clarinha: nós, homens, nunca fomos mulheres. Mais que justificado o facto de não termos termo de comparação, ao contrário da depilação masculina que sempre podemos comparar com a tortura da Inquisição.


Vá, continue(m) a ler que este texto que, em boa verdade, também tem o seu toque feminino. Isso agora...


Posto isto: homem que é homem não se depila, homem que é homem muda de pele com cera quente - podia ser azeite a ferver.


Quem nunca se depilou que atire a primeira pedra.


Serve também para os Machos-Alfa.


Sim, meus caros, fazer a barba ( ou desfazer ) é depilar. É, garanto. Portanto, este texto - que está mesmo mesmo a acabar - pode continuar. Estamos no mesmo comprimento de onda.


Eu costumo retirar alguns pelos de algumas zonas do corpo em função de determinados objectivos.


Se vou de férias. Por causa da corrida - muito mais higiénico, giro e sexy. porque acho que me dá um ar mais saudável, mais limpinho. Porque sim.


Ainda assim, passo temporadas em que me lembro de Tony Ramos na novela da Escrava Isaura, acho que era essa, vi uma série delas, era puto, lembro-me mal.


Há temporadas em que a Amazónia não passa de um pequeno jardim comparado com a minha vegetação negra, seja em espessura seja em área abrangida.


(Que exagero, não é  nada disto,  exagero, negetaça~parado com a minha vegetaçaa Escrava Isaura, acho que era essa, vi uma spsicolnada disto, mas ficou a imagem, não ficou?)


Muito bem, há quase dois meses decidi fazer a depilação com cera quente.


Foi engraçado, até meti uma foto no Facebook.


Que pedante, eu sei, eu gosto.


Quase dois meses depois ainda sinto o quente da cera, a tocar no muito quente, na pele, no peito, nas pernas, nas costas, nos braços, a espátula em aço inox (acho eu, se não é fica assim que dá jeito ao texto) que parecia mais uma espada. Não sabia se cortava se queimava. Apenas lhe via o brilho enquanto não cerrava os olhos de dor e, que estranho, algum prazer à mistura.


A cara dela. As vestes longas. A marquesa. As luzes.


Jamais esquecerei.


A espátula toca-me a zona da barriga, sobe até ao pescoço, espaço a espaço. Uma, duas e uma terceira vez. Quente. Fecho as mãos. A cara fica tensa. Olho fixamente.


Entre o peito é horrível.


A tortura atinge o ponto mais sádico, até ao momento, no momento em que ela, com luvas a lembrar pelica, pega na ponta de um pedaço de cera, mesmo numa ponta, entretanto fria, e puxa, de baixo para cima. Num repente, e outra vez e uma outra. E sorri!


A cada puxão os meus olhos revoltam-se e reviram-se. Chegam a ver o cérebro, nesse rodar louco. Não esqueça que isto é uma espécie de chá psicoactivo. Eu avisei.


São sensações que nenhum ser humano esquecerá, depois de as sentir (redundância assumida). Horrível!


Na masmorra senti-me um masoquista puro. Dor e prazer. A pele arrancada. O quente. O frio. Coragem - não venham com argumentos.


Vem isto a propósito da Inquisição. Da Santa Inquisição.


Passados todos estes séculos já alguém pensou que naquele tempo houve carrascos enganados em toda a linha?


E não resulta, uma vez mais, de nenhuma pesquisa. Diz-me a intuição.


Sei lá eu se a própria Joana d´Arc terá alguma vez reflectido nisto!


Então, imagine que um masoquista puro, como eu fui naquela masmorra branca, era detido e torturado - não vem ao caso se depois era queimado ou enforcado, raramente saiam de lá com vida e eu saí vivinho -.


Havia algo melhor que uma masmorra escura e carrascos maus - eu conheci um Carrasco bom, era o senhor Artur Carrasco, tinha uma mercearia na rua da minha avó - para um masoquista, puro, tem que ser puro, que uma tortura, com pés e cabeça e porque não com bracinhos e mãozinhas. Tudo misturado.


Não será isto o paraíso!


É por isso que esta história da depilação masculina me faz acreditar, ainda mais, que um dia, um dia longe no tempo, eu fui prisioneiro nas mãos da Santa Inquisição.


Agora sim, acredito que em outra vida fui torturado e só agora é que estou a pagar pelos males dos meus pecados.


Vivemos tempos de Pecado, tempos de Inquisição. Vivemos sim. Toda a vida. Uma vida inteira. Do princípio até ao fim.


Um dia conto o segredo. Sou um gajo de afectos e fiquei afectado com aquilo que me aconteceu.


Ainda sinto a dor...


O prazer!


Na próxima vez podiam sugerir temas menos dolorosos.


Bem sei que depois fica bonito, mas é doloroso.


Ninguém gosta de ser torturado. Depilado, perdão!

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publicado às 00:17

O Purgatório existe!

por The Cat, em 08.09.14

Setembro é o purgatório. Ele nem é carne nem é peixe e chega até - às vezes - a ser prejudicial para a saúde!
Ele está entre o verão e o inverno, entre a primavera e o outono. Ali, no meio, a ver tudo, em trânsito.
Setembro provoca mudanças. Não pede sequer licença! Setembro é estranho!
Não se decidiu nunca, não será agora que vai decidir!
Ou por outra, setembro há muito que se terá decidido; ele tomou a decisão, desde o primeiro momento, mas nunca a conseguiu foi colocar em prática, por isso é um mês ao qual se deve dar toda a importância, mas nunca fiando...
Dizia, setembro quando se decidiu, sem comunicar a decisão a ninguém: gosto muito do sol, gosto muito da chuva, gosto muito do calor, gosto muito do frio, não gosto de andar agasalhado e ao mesmo tempo ter frio, nem de andar em tronco nu e continuar com calor, mas se é assim que tem que ser assim será!
Setembro é o purgatório, com tudo o que de bom e de mau ele encerra.
Setembro decidiu ser aquele mês que muda a vida das pessoas sem lhes dar cavaco. Limita-se a ser um factor de mudança. Unilateral!
E é quando chega setembro, este estranho setembro das vidas de cada um, que o céu e inferno se unem para o demover. Mas ele tem ideias fixas. É teimoso!
Às vezes perverso, tão perverso que se limita a observar e a processar aquilo que observa!
Ali, no meio, ele olha para a esquerda.
Neste lado está quente, há luxúria, há desejo, há gente que pensa pouco e vive muito, há um senhor de encarnado que dá as boas vindas e deseja uma boa estadia a quem chega!
Espreitando o inferno de setembro apetece entrar. Ficar. Porque não participar...porque não o inferno?!
Ali, no meio, ele olha para a direita.
Neste lado está ameno, tudo muito mais calmo, mais decidido, mais ordenado, mais azul, mais branco, como quando os aviões cruzam as nuvens. Porque não o céu?!
Num lado está o inferno da vida. No outro o Paraíso. No meio está setembro a fazer o papel de purgatório.
Ele é uma sala de espera.
Se for verdade o que contam sobre o céu e o inferno.
Sobre isso, na verdade, não meto as mãos no fogo. Em nenhum fogo, nem no apelativo fogo do inferno. Livra!
Nesta zona da vida que fica para lá da vida, há gente que cruza olhares interrogativos, gente que anda em círculos, em si mesmo, gente que tem que tomar decisões. Por aqui ou por ali?
Um lado ou o outro. O céu ou o inferno. A paz ou o prazer.
E, andam ali, em círculos como que a aguardar um sinal divino. Uma campainha que toque, um toque que os guie e os conduza até um dos dois lados. O mais certo. Mas, serão as certezas absolutas?!
Não creio!
Setembro não é o mês que divide o ano. Bem feitas as contas é junho o detentor desse feito, mas é setembro que nos senta na cadeira da reflexão.
As folhas vão começar a cair das árvores. Os pássaros vão deixar de se escutar. O sol resolve ser tímido, até desaparecer. Os dias curtos, como o tempo que temos.
Setembro prende-nos no meio dos dois lados.
Compete-nos decidir se queremos receber outubro ou se rasgamos o calendário.
Compete-nos decidir se entramos num lado ou no outro. Se saímos do purgatório.
Ou então, podemos sempre trocar as voltas ao setembro das nossas vidas.
É ir a loja dos chineses, comprar um anjo e um diabo em pvc, colocá-los um em cada ombro e escutá-los quando precisarmos de desabafar sobre a nossa indecisão.
Aviso que vai ser pior a emenda que o soneto.
Perceber qual o setembro que queremos para nós.
No ombro direito o diabo vai dizer: anda, aqui há festa. Aqui esta-se bem, aqui cumprimos os nossos desejos mais profundos!
No ombro esquerdo o anjo vai dizer, anda aqui terás o paraíso. Aqui tudo flui com tranquilidade, aqui a escolha é assumida e é assim que deve ser!
Eis quando sai a pergunta: e não dá para ter os dois?
Setembro responde: dar até dava, mas o anjo e o diabo são da loja do chinês. Não garanto, por isso, a qualidade.
Sem grandes margens fica-se nostálgico. Perdido até!
Eles não sabem, mas já lá estivemos várias vezes. Visitas tipo amigo-surpresa. Visitas rápidas ao céu e ao inferno.
O inferno não é nada mau, mas o céu garante uma vida com zero sobressaltos.
O céu e o inferno, tal como setembro, não cuidam sequer de se entender. Não têm como! Passam a vida nisto!
Estão desfasados no tempo, no espaço, na ordem das coisas!
Que se acabe com setembro mesmo que setembro insista em não ir embora! Há decisões que nem setembro consegue travar!
Que um novo mês nos leve para um dos lados.
Setembro não quer ser o céu nem o inferno. Ele gosta de ser setembro. Assim, tal e qual! É obstinado!
Embora saiba que no purgatório tudo é transitório e por isso tomar decisões custa. Tomem-se. Ponto!
Como se assim fosse mais fácil!
Pelo menos parece e o mundo também vive das aparências!
O céu e o inferno vivem lado a lado com setembro. Como o verão e o outono, mais a primavera e o inverno.
Juntam-se todos e esquecem quem precisa de decidir para onde ir quando terminar setembro.
São egoístas, as vezes! Tem boa fé, mas pensam que há sempre um caminho. Quem quiser que decida! E estão-se nas tintas. Todos juntos.
É que ao calendário ninguém escapa. Há sempre um caminho. Setembro acha que é o único. É apenas um caminho!
E, ele sabe destas coisas do purgatório! Tem a mania que sabe. Sabe nada!
Há setembros muito estranhos!
Acho que outubro é um tudo nada mais simpático.
Vou convidá-lo para um café, pode ser que vá com a minha cara e eu tenha mais sorte com o tempo. Sempre o tempo. Tempo longo que faz a história de setembro. Tempo que foge quando ele quer dizer que não é bem como o pintam!
Não gosto de chuva. Em setembro!
Simplesmente, não gosto de chuva.
Menos ainda do purgatório. Já por lá andei a ver as modas e não gostei.
Acho que vou escolher o inferno, sempre há mais festas e a gente diverte-se imenso. Tem até miniaturas, salgadinhos e coca-cola e Gin. Com muito gelo.
O inferno tem tudo aquilo que o diabo nos ensinou!
O networking depois fará o resto.
O paraíso, que estava mesmo aqui ao lado olhou, e do alto da sua superioridade, que a paz e a tranquilidade lhe conferem, olhou mas não quis saber. Também tem maus hábitos, afinal.
O inferno também deixou ao critério de cada um a decisão de escolher o caminho e o destino. O inferno tem mais hábitos, mas são públicos!
Não é como o céu que vive em indecisões sobre a quem abre as portas e manda entrar.
É esse o seu problema, o céu é indeciso e não sei se não tem o secreto desejo de ser um bocadinho de inferno.
No purgatório é que não.
Nem faz frio nem faz calor. É uma autêntica pasmaceira.
Para isso já bastam os outros meses da vida!
As escolhas somos nós quem as faz. Nenhum setembro decide nada sozinho, embora ele tenha essa mania.
Eu já lhe o disse, mas não adianta.
Setembro é obstinado.
Só o tempo o poderá ajudar.
Mal chegue outubro. O céu ou o inferno.
Ninguém gosta destas cenas dos purgatórios. Até porque purgatório é um nome feio de dizer. Céu ou inferno não!
Custa mais, mas diz-se com mais facilidade. Até nem soam mal.
O que eles não sabem é que são apenas os nossos dias!
Não passam disso e isso é a vida.
Acho que nunca se deram conta disso!
Não ser agora, na mudança da estação, que vão perceber.
É que as folhas caem das árvores a partir de setembro, mas voltam a nascer ainda mais bonitas quando chega a primavera.
Aguardemos que o legislador mande acabar com setembro.
Depois, tal como o ciclo da vida, observemos as mudanças.
Até que chegue um novo setembro e tudo volte ao princípio.
Em cada fim, na verdade, há um começo!
Na vida também!

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publicado às 22:12

SEI O QUE FIZESTE O NO VERÃO PASSADO

por The Cat, em 04.09.14

Passava pouco da meia-noite.
O ano tinha virado.
Nunca antes tinha virado da forma como virou naquela passagem de ano, a última.
A corrente quebrou-se, como que por feitiço.
A sala estava cheia de gente cheia de afecto, de amizade, de ternura, de amor, de carinho, de paz. Grandes e pequenos.
Estava a ser uma noite estranha e calma. As noites de passagem de ano não costumam ser assim. Um jantar grande, velas, conversas, pouco samba, vozes serenas.
Uma noite desigual, mas nem tudo estava perdido: a televisão - aqui cumpriu-se a tradição - encarregou-se de dar a contagem decrescente, já era ano novo no outro lado de tudo. Do mundo, do Oceano, do Céu. Não importa. É sempre assim.
10,9,8,7,6,5,4,3,2,1...Feliz Ano Novo!!
É sempre assim.
Abriram-se garrafas de champanhe, deram-se abraços e trocaram-se olhares resumidos a um ano e a outro que chega. Olhares que dizem tudo num abraço.
A sala estava cheia de gente cheia de uma paz irrepetível.
Da varanda vê-se o fogo que ilumina o céu escuro.
O céu não é escuro. O fogo só o ilumina.
Artifício. O belo.
A varanda cheia de gente cheia de brilho no olhar a olhar o céu mais claro, às cores. Muitas. Azuis, encarnados, laranjas, amarelos, estrelas e estrelas que aparecem do nada e sobem ao céu e com ele se confundem.
O Ano Novo chegou assim.
Parecia ser um ano redondo.
Mas, logo aos primeiros minutos do novo ano alguém se calou. E todos se olharam. Calaram.
- É a primeira vez em toda a minha vida que isto me acontece!
Não comi as doze passas e não formulei os doze desejos.
Largaram-se a rir. Uma sala cheia de gente cheia de vontade de rir.
- Como é que te foste esquecer de comer as passas...
- Confesso que não sei. Vocês riem-se, mas também não comeram as passas.
Se o momento fosse triste a indignação teria invadido os espíritos de cada um, mas o momento era de celebração.
Todos voltaram a rir.
Só que o momento era sério.
Quebrou-se a corrente. Matou-se a tradição e ficámos a mercê da nossa sorte. Gente cheia de desejos esquecidos de serem celebrados. Garantidos com o carimbo divino.
Criámos a desordem e celebrámos o feito.
Aconteceu qualquer coisa de premonitório sem que tivessem dado conta. Por isso riam.
Ainda tentou inverter a situação mas à terceira passa parou.
Agoniava-se. Estava fora do tempo.
Tomou consciência que estava a ficar ainda mais à mercê da sua sorte.
As doze badaladas há muito que se tinham calado.
O fogo de artifício resumia-se agora às canas espalhadas pelos campos e pelas ruas.
O céu teimava em parecer escuro como a noite.
A corrente quebrou.
Tanto estava para acontecer. Desta vez sem qualquer tipo de controlo, como se o destino não estivesse nas mãos, ainda que escrito por outro qualquer.
Há sempre uma celebração em cada encontro, no meio do caos, de cada caos. Cada um de nós vive o seu próprio caos e o dos outros.
O ano que era redondo ainda só agora vai a caminho do outono.
Há já folhas que caíram lá trás.
Algumas já despiram as árvores e a chuva já molhou os olhos da planície.
Houve perda, paixão, amor até, raiva e revolta, injustiça. Desilusão?
Tudo misturado!
Cada um sentiu brilho no olhar e borboletas na barriga, orgulho e alegria, momentos felizes e abraços prolongados.
Tudo misturado!
Depois chegaram as férias.
Elas partiram o ano ao meio. O verão e o céus encarnado-dia.
O vento que vem de África e que sufoca até que passa.
Até ao verão que vem tanto irá acontecer.
Nesse verão que há-de vir, feito de mudança, saberás o que fizeste no verão passado. Agora é que não.
Não tens como saber. É muito cedo.
Cedo para partir. É sempre cedo para partir, mesmo que as estrelas te conduzam a um lugar mágico. É sempre cedo para partir.
Agora não sabes, mas no verão que virá sabes o que fizeste no verão passado.
Sabes que as passas são para se comer. Pelo menos isso tu sabes.
Só assim controlarás os teus próprios desejos e paixões, desafios e embates, provas e experiências.
Ou então nada disto faz sentido, nem este verão.
Fará sentido o outono chegar antes do tempo?
Não faz, mas as folhas caíram lá atrás.
Fará sentido o verão ser assim?
Não faz, mas os olhos da planície molharam-se de chuva salgada.
Fará sentido seguir esconder?
Não faz, mas a noite gosta de brincar às escondidas.
Fará sentido não acreditar?
Não faz, mas o céu tem várias cores.
Faz todo o sentido.
O verão é que não, nem o outono. Assim não!
Não comeu as doze passas e virou o mundo pelo avesso.
Mas não fez por mal. Ele é mesmo assim.
Faz sentido continuar a viagem sem pontos de interrogação, sem pontuação. A vida não se coaduna com gramáticas e semânticas. Só por si não se coaduna, precisa de se libertar das gralhas e das letras grandes, das vírgulas.
A vida já não se coaduna com vírgulas, não senhor.
Pelo lado sul ou pelo lado norte.
No verão que vem - com tanta coisa a acontecer até ele chegar - sei o que fizeste no verão passado, se a viagem seguiu por sul ou por norte.
Não há viagens em dois sentidos ao mesmo tempo. Por muito que a viagem seja longa. Por muito que os dois sentidos sejam um só.
Há muito de coragem inocente neste acto de não comer doze passas à passagem das doze badaladas.
Muito mais coragem depois.
É nessa altura que tentas ordenar as respostas e tal como aconteceu com as passas voltas a esquecer-te que não há ordem no caos, embora pareça.
Há coragem e pouco mais.
A viagem não fácil, mas nunca ninguém disse que era suposto ser.
A ver se não me esqueço de comer as doze passas daqui a meia dúzia de meses. E o verão ainda não terminou. O outono é que insiste em chegar fora de tempo. O verão está em tons cinza.
Havemos de nos encontrar. E celebrar.
Basta um abraço e um brinde, acompanhado das respectivas passas.
Logo eu que detesto passas. E champanhe!
Não é hora de celebrar. É melhor ficar para o verão que vem!
É que está muita coisa a acontecer!

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publicado às 03:17


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