Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Os Trollibãs

por The Cat, em 26.08.17

ExercitodeTrollsEasyResizecom.jpg

 

 

 

No outro dia, quando acordei, veio-me à ideia uma ideia.

Como sou trabalhador nocturno costumo levantar-me só ao fim da manhã.

Qual viciado a primeira coisa que faço é ver as redes sociais, depois os push ups. Fazia.

Aquilo começou a irritar o meu irritado acordar e decidi mudar de táctica.

As caixas de comentários dos digital media e das redes sociais são extremamente tóxicas, muitas vezes e isso, acho eu, influêncía o sub-consciente, pobre coitado, que nem sequer ainda lavou a cara.

Agora, qual viciado a primeira coisa que faço é acordar, depois, então, ligo-me.

Tem resultado. Tenho acordado mais bem disposto.

Há dias, enquanto bebia uma bebida de aveia com café, dei comigo a pensar num nome que retratasse alguma fauna que habita dentro do Facebook e Twitter, sobretudo.

Pequenos seres que desejam o extermínio virtual (às vezes real) de determinada pessoa, só porque sim. Pequenos seres que ostentam fotos na sua cronologia, nas quais somos todos isto e aquilo, até Charlies.

Esses são Talibãs.

Uma outra sub - espécie, que deriva dos Talibãs, são os Troll.

Pequenos seres que têm opinião imaculada, forte e imbecil sobre tudo e qualquer coisa. Só não opinam sobre o vazio das suas opiniões, julgando-se sempre detentores da sabedoria e da verdade. Nem sobre os muitos erros de português que dão.

O Facebook e o Twitter foram povoados pelos Trolls e pelos Talibã virtuais.

Eles nascem nas caixas de comentários dos jornais online, alimentam-se e partem para a sua aventura nas redes sociais.

Há, depois, as pessoas normais, urbanas, civilizadas, que respeitam, argumentam com ideias, e que também povoam as redes sociais, mas em menor número.

Troll com Talibã dá Trollibã, sem espinhas.

Engoli o último trago do meu café da manhã, sem leite, que isso faz-me azia, como os Trollibãs.

O que os lixa, na sua Sharia virtual é que os normais continuam a pensar e a retirar do mau algo de bom.

A saber,

Profissionalmente, através o Facebook (que o Instagram e o LinkedIn são outra coisa) consegui trabalho, arranjei trabalho, conheci pessoas, troquei ideias.

É lá que sigo quem me segue e ao meu trabalho, é lá que está o meu barómetro.

Pessoalmente, reencontrei amigos que há muito não via, soube do desaparecimento de outros, mas também dos aniversários de muitos, fui assediado, se calhar, sem me dar conta, ou não, assediei, resolvi problemas da tv cabo, comprei carro e mota, quase vendi a casa.

O ócio.

Farto-me de rir, por causa das coisas non sense que dizem e escrevem, e também porque há gente com imenso sentido de humor e inteligência, informo-me, vejo o mundo ao segundo, com fotos e vídeos, opino, “desopino”, desopilo.

Tudo isto no Facebook, que o Twitter visito poucas vezes, que aquilo é intelectuais a mais para um pobre como eu.

Tal como os Trollibãs que se me atravessam pela frente, silenciosamente, desopilam e só dão conta muito tempo depois.

Eu já fui Troll. Eu já fui Talibã.

Mas, eles não sabem. Nunca calçaram os meus sapatos.

Um amigo disse que inventei o “termo do ano”.

Não, respondi-lhe.

Eles existem, eu só os juntei, para os irritar.

Esta noite, o McGregor luta com o Mayweather.

Há lá alguma coisa mais alucinante que um bom e duro combate?!

Os Trollibãs também vão ver, mas não vão perceber rigorosamente nada.

 

(Vídeo nice, este, dedicado aos Trollibãs)

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:09

LEVEI OS PAIS AO PARQUE INFANTIL

por The Cat, em 05.06.17

IMG_20170604_114712_2.jpg

 

 

 

O meu domingo foi especial.

Levei os meus pais a uma corrida.

Foi, aos 65 e 68 anos, a sua primeira vez, e a minha, também.

Uma das mais belas manhãs dos meus domingos, e como os meus domingos são belos, mesmo aqueles que teimam em fazer-me cara de mau. Às vezes acontece-me o domingo fazer-me cara de mau, que não há dias perfeitos.

Nem eu sou perfeito, eu atraso-me, em tudo, até mesmo enquanto corro.

Mas, nunca me atraso quando vou correr, isso nunca.

Às sete e meia da manhã estava à porta de casa dos meus pais.

O meu filho disse que queria ir, o meu irmão também disse, mas eles são tão, mas tão parecidos, que até nesta falta de afecto, porque esta foi uma prova de afecto, eles falham da mesma foram.

Irrito-me, quando os meus não dão o valor devido às coisas, ao casamento, aos pais, aos momentos únicos.

Depois, tudo passa.

Eles ficaram a dormir, bons sonhos a ambos.

Foi a única coisa que me irritou, nesta especial manhã de domingo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:27

EM NOME DO PAI

por The Cat, em 03.06.17

IMG_20170525_225655.jpg

 

 

Zé Manel é um homem do Douro.

O Douro é ele próprio, dentro e fora de si. Salta-lhe pelos olhos brilhantes, por detrás daqueles grossos óculos de massa preta.

Basta olhar para ele.

Observa-se à primeira, entende-se-lhe os sinais e os segredos da vinha, da terra e do sol.

Também transporta chuva no olhar e vento na alma, que os olhos não mentem, nunca. Nunca nos mentem, os sacanas.

Zé Manel é um profundo, culto, sábio e exímio contador de histórias, histórias da vida, da vida dele, sobretudo, que pouco gosta de falar da vida dos outros.

Numa dessas noites, em redor da mesa grande, disse-lhe eu:

“O senhor conta histórias com tinta que lhe sai da medula”.

A frase é do Gabriel, o Pensador, o outro, não eu, não minha, desta vez.

Mas, não era fácil acompanhar aquela inteligência, sentada à minha frente, por isso plagiei, plagiador, me confesso.

Culto, intelectualmente muito desenvolvido, homem das artes, do vinho e da beleza, Zé Manel ficou a pensar que aquela frase do caraças era minha.

E, eu senti-me bem com isso.

Zé Manel é casado – há uma vida – com Luísa.

São das pessoas mais fantásticas que conheci até hoje, e olhe que já levo uns anos por cá.

Conhecemo-nos há uma semana, por alturas em que escrevo este texto, uma semana depois.

São ambos do Douro.

Herdaram a Quinta da Senhora da Graça, ali pelos lados de Santa Marta de Penaguião.

A filha, produtora de cinema e televisão vive em Lisboa, visita-os regularmente, naquele refúgio que deve continuar secreto – ou quase – para todo o sempre.

São gente feliz, gente boa, gente de quem não apetece sair de perto.

Cheguei na quarta feira, a corrida era no domingo.

Na primeira noite dormi. Ponto.

Na segunda noite chamaram-me, e eu fui.

“Carla, tenho ali um arroz de forno e vou fazer umas alheiras, querem vir?”.

Fomos.

IMG4481EasyResizecom.jpg

 

Ali ficamos pela noite dentro, comendo, bebendo, conversando, que à mesa, no Douro, conversa-se.

Zé Manuel é um homem marcado pela guerra. Nunca a quis, nunca a entendeu, nunca a esqueceu. Nem ao pai.

Chamava-se Armindo Lopes.

Nem a mãe, li, olhos molhados, um dos muitos poemas que Ze Manel escreveu, durante a guerra.

Operações Especiais, na Guiné.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:53

CORRIDA A CORES

por The Cat, em 16.05.17

IMG20170514082000EasyResizecom.jpg

(Huwaei P10 & Leica)

 

 

Dois dias sem correr é o suficiente para me deixar cheio de comichões, a sentir-me inchar, deixa-me inquieto, ao mesmo tempo sinto as pernas a aliviar.

É uma sensação de bem-estar disfarçada, que eu sei.

Dois dias sem correr é o meu limite.

Vem isto a propósito da foto que acompanha este texto, lá em cima.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:38

ISTO FOI UM PEDAÇO DO MEU DIA

por The Cat, em 12.05.17

Coisas minhas, que partilho, porque acredito.

Acredito que longe da multidão nós não somos aquilo que parecemos.

Foi um pedaço do meu dia, em paz, paz de corrida.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:40

EU, CORREDOR, ME CONFESSO

por The Cat, em 12.05.17

IMG20170512205553EasyResize.com.jpg

 

 

 

 

Encontrei muitos peregrinos nestas duas últimas semanas.

Quando digo muitos quero dizer muitos mesmo.

Vinham todos da Estrela do Sul, lá do lado longe, que lhes oferece a caminhada obstinada, que se-me atravessam ao caminho, de frente, fé.

Durantes as duas últimas semanas encontrei e cruzei-me com muitos peregrinos, todos os dias, enquanto corria no meu santuário espiritual, junto ao meu rio de afectos. Via-lhes no rosto, afecto, felicidade, ou quando saía da auto-estrada, para entrar no meu mundo secreto, casa, família, trilhos.

Todos os dias, nas duas últimas semanas.

As imagens que guardo são dos dias de corrida.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:13

AO DOMINGO NÃO SE CORRE

por The Cat, em 09.05.17

IMG_20170507_232147_resized_20170507_112208429.jpg

( HUAWEI P10 & LEICA) 

 

Os domingos são dias mágicos, por isso corro quase todos os domingos, como que por magia.

Mas, aos domingos não se corre, porque o céu de domingo não se compadece com coisas mundanas.

O domingo é o dia litúrgico, o mais de todos, o dia da celebração da brisa que nos toca o rosto, do mar de peregrinos que se te atravessam na pista, o louco que te obriga a ser parte da sua própria e solitária loucura.

Como o sagrado e o profano.

Um mar de peregrinos, no teu caminho, que te engole a cada passada, em contra-mão.

Um mar que abres, enquanto corres por ele adentro, com movimentos das mãos, como Moisés, eventualmente, terá feito, quando abriu o Mar Vermelho durante o Êxodo.

Os peregrinos, em contra-mão, afastam-se abrindo caminho pelo centro da corrente.

Deixei-me, continuei, as mãos em movimento, por eles adentro, como se a pista fosse um mar e eu apenas «o mais humilde do que todos os homens que havia sobre a face da terra» .

Aquele momento recordou-me outros momentos. Alterei o trajecto, na volta do caminho, impelido para aquela rua onde brinquei, lá mesmo no fim da volta do caminho, onde tudo também começa.

As minhas corridas são também as minhas peregrinações.

De quando em vez mudo de rumo e deixo-me viajar pelos sítios que me fizeram, e revivo.

É aos domingos que eu faço as minhas peregrinações, porque os domingos são dias litúrgicos, os mais de todos, e essa magia transporta-me sempre para memórias que ainda estão por chegar. Só, eu, comigo, em viagem.

Na volta do fim do caminho, segui para o largo da vila.

Detive-me junto da estátua do médico-santo, que é objecto de romaria anual, há muitos anos, mas isso é lá em cima, no castelo, no cemitério, onde dá consultas do outro mundo, a crentes que não eu.

Nem as flores de plástico vivem para sempre, aprendi há muito tempo.

IMG_20170507_232405_resized_20170507_112434759.jpg

( HUAWEI P10 & LEICA)

 

Fui com fé, diferente da fé deles.

Meti-me pela rua da morgue, onde, logo ao início, fica o antigo hospital, agora lar da Misericórdia.

Misericórdia. Faltavam-me mais quatro quilómetros para chegar ao carro e a viagem ia a meio.

O antigo hospital mantém as grades e o portão em ferro, que deixam ver o pátio, a portaria, o edifício castanho.

Não parei, apenas olhei, porque olhava sempre, quando era pequeno.

«O mais humilde do que todos os homens que havia sobre a face da terra» estava agora ali, à minha direita, vi-o através das grades.

Deu para ver.

Inspirei o final de tarde, estava fresco, não estava frio, estava morno, não estava quente, mas ele, ele olhava em frente, em movimentos estudados, lentos.

As pernas, os pés, rodavam, parecia um boneco.

Tinha um sorriso altivamente digno e louco espelhado no rosto.

Dirigiu-me o olhar, sacou de uma muito bem feita continência, como que em câmara lenta, sem qualquer pressa.

Não há pressa aos domingos.

Ao passar pelo portão olhei-o, ele percebeu, mas não desfez a continência.

O muro do hospital velho é baixo e feito com grades largas, não o suficiente para deixar a loucura sair cá para fora, mas o suficiente para permitir uma troca de continências, o acto mais humilde e digno entre dois homens, mágico, como os domingos.

Ao meu segundo virar de cabeça encontrámos os olhares.

Não o escutei, a música não me o permitiu, mas consegui ver claramente que não tinha desfeito a continência, nem mesmo após um direita-volver, que o colocou em linha de fogo comigo.

Li-lhe os trejeitos e os lábios, ao longe. enquanto passava, como se olhasse uma fita do tempo.

Obriguei-me a fazer-lhe continência, enquanto continuava a correr, agora muito lentamente. E

ra eu também uma personagem daquele momento.

“Estava a ver que não me prestava continência”, pareceu-me ter dito, de lá do meio do pátio, atrás das grades que guardam a loucura, que apenas a deixam sentir a brisa do final de tarde, nas tardes de domingo, as únicas que valem a pena.

Levei-o comigo até ao fim da corrida, lá no meu jardim mágico.

 

IMG_20170507_232703_resized_20170507_112737596.jpg

( HUAWEI P10 & LEICA)

 

 

O rio não mente. A corrente leva-nos, se quisermos ir.

Peguei na passada de uma miúda gira, deve ser, não consegui passá-la, só seguir-lhe a passada, através daquele perfume de creme Nívea, feito feitiço.

Era morena, apareceu do nada, elegante.

Não a consegui acompanhar, só lhe vi o rosto, já vinha ela de regresso, em sentido contrário.

Era bonita.

Nem tive tempo para mais nada senão ver-lhe o rosto.

Os rostos das pessoas também são diferentes, aos domingos.

Ele usava um boné, tinha uma camisa branca, de manga curta, umas calças bejes, sapatos castanhos, e estava ali, no meio do pátio.

Ela passou e ele prestou-lhe continência, tenho a certeza.

Numa destas corridas vou voltar a ligar a máquina do tempo, para confirmar.

Mas, tenho quase a certeza.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:09

IMG0102EasyResizecom (2).jpg

 

 

 

 

No final da meia maratona da Guarda fiz menos dois minutos do que uma semana antes, em Lisboa.

Porque tudo o que sobe também desce.

Só que isso é o que menos conta no resto desta história.

Irritei-me uma meia dúzia de vezes.

Olhava em frente, mais uma subida, sempre mais uma subida.

Roguei pragas, vi-me obrigado a definir uma estratégia, caminhas quando sobes, corres rápido quando desces.

Só parei numa rotunda, para dar uma entrevista, em directo. Siga.

Foi numa dessas subidas, a maior de todas, que percebi o fim que ia ter.

Olhava para a frente e vinham todos a descer, enquanto eu subia, aparentemente sozinho.

Olhava para trás e continuava a não ver ninguém.

Voltava o mesmo pensamento, “há-de haver gente atrás de mim”.

E havia, mas não eram corredores.

Percebi que a corrida, apesar de tudo, não estava mal, ia no meu ritmo habitual, ia a divertir-me, a apreciar as pessoas, as ruas, as paisagens.

Valeram-me as descidas, ai não!

Eis quando, volto a olhar para trás, porque a moto da PSP ia já a meu lado, e vejo o carro dos bombeiros. E, a subida. Ia a meio, sensivelmente.

Lá em cima, o ponto de retorno, para o que restava da corrida.

Feito, sou o último.

O motociclista da PSP confirma.

Fomos conversando sobre o assunto, e o discurso dele não era animador.

“Agora é sempre a descer, certo?”, perguntei eu.

“Mais ou menos”, respondeu-me, com aquele sotaque delicioso das beiras.

“Desce agora, depois entra no bairro, sobe a avenida...”.

“Não acredito, sobe? Mais uma subida, só subidas...”.

Não satisfeito, respondeu-me, com um sorriso por trás da viseira, “antes da ponte pedonal tem mais uma subida, junto a rotunda e depois é que é a direito”.

Pensei, se sou o Embaixador da corrida, do circuito, se sou o último, nesta corrida experimental, nesta experiência emocional, então vou aproveitar para baixar o tempo, não tenho pressão.

Pois não!

“Vamos lá companheiro, mais rápido, temos que almoçar”.

A voz saiu de um megafone. Assustou-me, porque ecoou por cima da música que ia a ouvir nos phones.

Os bombeiros divertiam-se. Nunca tinham visto um último, assim.

“Calma, meter pressão não”, gritei-lhes, bem disposto, mas meio a sério.

Detesto correr sob pressão.

“Já viu isto, era o que me faltava, vou aqui a tentar ser o último, sou o último, não sou?”, perguntei ao meu companheiro que seguia de mota (o que prova que não sou assim tão lento).

“Pelos vistos é!”.

“Então já viu isto, eu aqui a correr, a querer ser o último e eles a pressionarem, ouça, depois vai ter que ler o texto no meu blog”.

O meu companheiro da PSP limitou-se a sorrir.

Faltavam três quilómetros para a meta, ia baixar o tempo, ia ser o último.

Na rotunda, a tal que me levava à última subida, um colaborador da organização disse-me;

“Vamos lá, no fim vão ter uma surpresa”.

Vão, porque nessa altura já era-mos dois a correr, mas isso foi uns dois quilómetros depois disto.

Faltavam, portanto, cinco quilómetros (dois, mais os outros três, da rotunda, mais à frente), quando vejo, espantado, dois tipos a correr à minha frente.

IMG2862EasyResizecom.jpg

 

Horas antes tinha passado ali, de carro. Era a descer.

“Sr. Guarda, temos que fazer alguma coisa, não andei nisto duas horas para agora morrer na praia, prenda os gajos”.

Ele riu, que eu ouvi a gargalhada.

Um dos dois decidiu ganhar asas e voou.

Perdi-o de vista, sobrava um.

Um só, para me estragar a festa.

Só tinha uma alternativa, naqueles cinco quilómetros finais, convencer o jovem corredor que tinha que ser penúltimo, infelizmente, aquela posição que não é carne nem é peixe.

Ao início a conversa pareceu estranha.

Acelerei, juntei-me a ele, abrandei, porque ele ia, e foi, em dificuldades.

Coxeava.

“Então, vamos lá, falta pouco”, disse eu, que quebro o gelo logo no primeiro instante.

Contou-me, então, a sua história.

Tinha ido a Lisboa ver o Benfica, nunca tinha corrido uma meia maratona, não corria há anos, quase não tinha dormido, ainda por cima tinha uma dor na perna.

Pensei com os meus botões imaginários, estou lixado, vou fazer o pior tempo da minha vida, mas não posso deixá-lo ser o último.

“Vamos lá, a rotunda está ali, vamos devagarinho, subimos aquilo, e depois é um pulinho”.

“Não, vá você”, respondeu-me.

Foi aí que tive que abrir o jogo.

Depois de o tal colaborador nos assinalar a subida, e nos ter dito que havia uma surpresa na meta, já a faltar apenas três quilómetros para o fim, vi-me forçado a contar-lhe os meus planos.

Os bombeiros já não pressionavam, o agente motard apenas nos observava, enquanto nos acompanhava.

Seguiam a história, ao vivo.

Seguimos juntos, ritmo lento.

“Vamos, falta quase um quilómetro”, incentivei-o.

Só que o esforço era tanto, que começou a caminhar, “mau, já não vamos ser amigos no Facebook, nem vamos tirar uma foto, no fim. Vamos, vamos, embora lá, vá”, disse eu, meio desesperado.

Tentativa de chantagem psicológica: “Bruno, ninguém caminha no último quilómetro. Vamos devagar. Tem que ser, Bruno, se não caminhar vou fazer melhor tempo que na semana passada, vá lá Bruno, dá lá uma ajuda”.

E, ele foi.

Correu comigo, a coxear, enquanto eu o incentivava até ao limite.

IMG2864EasyResizecom.jpg

 

“Bora, Bruno, a seguir à curva é a meta, meu, olha lá, já se vê, bora...”.

E, ele foi.

Ao fazer a curva disse-lhe, “tens que cortar a meta à minha frente”.

E, a meta estava ali à nossa frente.

As pessoas que nos incentivaram, na curva, que nos deram as suas palmas, e os seus gritos de apoio e os seus sorrisos, provocaram em mim aquela sensação incontrolável, sempre que termino uma corrida, enchi-me de emoção, por todo o lado.

O Bruno continuava a meu lado, continuava ao meu lado.

E, a meta ali à nossa frente.

E as pessoas, a gente, as gentes.

Foi nessa altura, já mesmo no fim, que pensei em dois momentos da corrida;

naquela subida alucinante, quando olhei para trás e percebi que era o último.

Ninguém à minha frente, não os via, ninguém atrás de mim, não os havia.

A sensação de ser aquele que mais ninguém é, isolamento, contemplação, tempo para tudo, até para correr.

Recordo as caras de espanto dos bombeiros, dentro do carro que seguia a fechar o pelotão.

Eu ia bem, e normalmente o último vai a arrastar-se.

“Bora lá chefe, nada de abrandar”. Eles sabem-na toda.

E, o segundo momento, aquele em que avistei o Bruno, “porra, senhor agente, aquele vai ali e vai estragar-me a história toda, no limite, o meu amigo prende-o a cem metros da meta, não fiz isto tudo para morrer na praia”.

O meu amigo agente motard (ele e os bombeiros, homens da pressão) sorriu-me, como sempre. Anuiu, entendi eu.

“Bruno, agora vai sozinho, eu chego logo a seguir”, mas ele já não conseguia mais.

Gritei-lhe; “Bruno, ninguém corta a meta a caminhar, corre”.

Ele correu.

IMG2865EasyResizecom.jpg

 

Fiquei só, a poucos metros da meta.

O que é que me lembro?

Lembro-me de ter a certeza que, apesar das subidas diabólicas, o tempo até ia se melhor que na meia maratona anterior, mais plana, mas isso era a última preocupação, naquele momento fantástico, que me obriguei a viver.

Lembro-me de haver ainda muitas pessoas, de um lado e do outro da passadeira final, a aplaudirem, a incentivarem, a tirar fotos, a filmar, algumas riam.

Foi o terceiro momento da corrida, que quero que seja o último, aquele que mais importa.

Cruzei a meta como um campeão, porque foi assim que me senti, com as atenções toas viradas para mim, o último.

IMG2856EasyResizecom (1).jpg

 

 

Emociono-me sempre que passo uma meta.

A Carla apareceu, até filmou a chegada do último Embaixador, o Paulo apareceu, o Bruno virou-se para trás.

Abraçámo-nos.

O resto, pertence ao sabor da emoção.

Acho que cumpri bem o meu papel.

É impossível ser o primeiro numa corrida. Mesmo que corra apenas contra mim próprio.

Mas, ser último é uma opção só minha.

E, acredite, dá imenso trabalho, mas sabe como se fosse o primeiro.

Coisas de gente louca.

 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:03

IMG2859EasyResizecom.jpg

 

Nunca fui o primeiro em nada, que me lembre, assim de repente.

Se pensar um pouco, talvez tenha sido primeiro em qualquer coisa, uma ou outra vez, mas não é esse o enfoque. Antes pelo contrário. É a antítese.

Último.

Último nunca fui, em nada na vida, tenho tido uma sorte do caraças.

Na verdade, acho que não conheço alguém que tenha sido, admitido, provado, sei lá, ter sido, ter ficado em último, em alguma coisa.

O mais perto que estive de ser último foi quando entrei para o curso de jornalismo.

Fui o décimo terceiro e o curso só tinha doze vagas.

Lá está, tive a sorte do décimo segundo ser dos Açores e ter desistido.

Fui o último a entrar, mas entrei, por isso não conta, acho eu.

O que conta é que fui, diria, impelido, não é bem este o termo, mas serve, impelido a ser o Embaixador oficial do circuito (EDP) Running Wonders 2017, meias maratonas em património da UNESCO.

Impelido não é o termo porque, em primeiro lugar, nunca imaginei ser embaixador do que quer que fosse, em segundo lugar, porque adorei o convite, que aceitei sem hesitar, e em terceiro lugar, porque até sou capa da revista oficial do circuito.

Em vinte e cinco anos de carreira nunca fui capa de coisa nenhuma.

Pois bem, é uma responsabilidade do caraças, mas também é uma forma de participação cívica, através das corridas, do desporto e da valiosa cultura portuguesa (ou parte dela).

Spread the word.

Fazia por isso sentido estrear-me na primeira corrida de forma marcante, pelo menos para mim, porque cada corrida que faço é uma viagem que completo dentro ao meu eu. Gosto, ponto. Viajo.

Mais,

Temos a mania de falar dos outros – eu tenho – umas vezes bem, outras mal, sem nunca calçar os seus sapatos.

Eu faço isto, eu sou aquilo, eu tenho isto, eu posso aquilo, mas nunca olhamos para o caminho que os outros pisam, eu não o faço regularmente, confesso, e devia.

Pois bem, assim pensei, assim fiz.

É uma minoria elevado ao expoente máximo. O último.

Nunca ninguém dá importância ao último.

IMG2867EasyResizecom.jpg

 

 

Ele é a minoria, personificada num só, o último.

Quando o último corta a meta já os primeiros celebraram a vitória, já os voluntários e o staff se preparam para desmontar a festa, já quase não há corredores, em redor, mas ainda há gente nas bermas, nas curvas, nas subidas, na chegada, ainda há palmas e muito mais que isso. Há empurrões à alma e às pernas.

Nunca tinha sido o último em nada, fui-o lá no alto, na Guarda, até a Serra eu vi, pintada de branco nos topos. Há registos disso.

E, estava bom, estava fresco, havia muita gente.

Foi a forma que encontrei de ser um Embaixador marcante, mas foi mais que isso, foi querer sentir e querer perceber aquilo que sente o último, como o olham, como ele se olha, como ele se desafia, a si próprio, ao ponto de ser o último.

O que lhe passa pela cabeça, pelo coração e pelas veias.

Um exercício útil, naquele contexto que é o da condição humana, porque as minhas corridas são experiências marcantes e boas.

Não sou um corredor rápido.

Sou um tipo que gosta de correr, e de muitas outras coisas mais.

Confesso, já tentei uma vez ser último numa meia maratona, mas há sempre alguém, muitos, que ainda são mais lentos do que eu, não me permitindo por isso estragar as minhas marcas, que também as tenho.

Esses, normalmente, arrastam-se, num prazer penoso, de penitência dissimulada.

Não dá, terminar uma meia maratona com duas horas e meia ou três horas. Era abusar, admito.

Mas, na Guarda, na estreia do circuito, lá no alto, onde o ar é em menor quantidade, era o momento ideal.

A ideia surgiu-me na véspera, enquanto treinava no ginásio do hotel onde fiquei.

Como Embaixador tenho um ou outro privilégio, como por exemplo partir onde e quando quiser.

Não tenho, mas pronto, escapei à segurança e fiz-me ao lance, resultou.

Fomos beber um café, quinze minutos antes da partida, enquanto milhares de pessoas faziam o aquecimento ao som de uma música que ainda não era por mim apreciada, não por nada, só porque ainda passava pouco das dez da manhã.

E, ainda só ia no segundo café do dia.

Tirámos umas fotos, demos uns abraços, conversámos, rimos, acertámos as app´s para a corrida. Tudo pronto.

Nessa altura, como sempre, já tinha gafanhotos dentro da barriga.

Obviamente, fico nervoso nos momentos antes da partida. A pessoa tem sentimentos.

Sou sempre invadido por uma espécie de orgasmo cósmico (nunca tive um), tipo comecem lá a correr, que eu quero ir, mas é já. Um vertigem. Cenas.

Havia uma viagem para fazer.

Soou o tiro de partida.

“Viva, bom dia”, disse, sorrindo, ao presidente da câmara, “vire-me essa pistola para lá”, fiquei receoso, com aquele dedo ali encostado ao gatilho, e a pistola virada para mim, quando distraidamente me saudou, acenando-me, bem junto à minha cabeça, cruz credo!

Nisto, já a meia maratona tinha partido, os dos dez e dos oito quilómetros também, e os da caminhada preparavam-se para entupir as ruas imediatas à partida.

Naquele momento não percebi quem era quem, apenas comecei a dar conta quando comecei a correr.

Misturado com aquelas pessoas, corri, fui correndo, correndo, até a multidão se dissipar, o que aconteceu uns quatro ou cinco quilómetros depois.

Aos dez quilómetros percebi, finamente, quem era quem.

Eles seguiam pela direita, nós os da meia, pela esquerda.

Faltavam onze quilómetros.

Olhei para trás, ninguém.

Tranquilo, há-de haver alguém que vai aparecer lá atrás, daqui nada.

Neste contexto, solitário, dei comigo a pensar que ia fazer um tempo igual ou pior ao da última meia maratona, uma semana antes. Tranquilo. Ia bem, a gozar a corrida, tranquilo.

Neste contexto, quer dizer, dois terços da corrida eram a subir, ainda mais, e eu fui convencido, ingénuo, que a corrida era quase toda a descer. Cenas.

IMG2890EasyResizecom.jpg

 

Arrependo-me, agora, tarde demais, de não ter aceite o convite do campeão Paulo Gomes, que até é dali, para ter ido reconhecer o percurso, na véspera.

Valeram-me as descidas, que tudo o que sobe, também desce.

Assim foi, até ao fim.

Bom, não foi só assim, mas isso fica para outro texto (e mais fotos e vídeo) daqui a uma meia hora.

Resto de boa manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:32

THE GODFATHER

por The Cat, em 25.03.17

IMG2734EasyResizecom.jpg

 

 

 

Fazia algum tempo em que não apresentava notícias.

Por força das circunstâncias, vi-me a apresentar o noticiário da meia noite.

As circunstâncias que referi são simples, as tarefas e funções profissionais que me estão atribuídas, são em tudo diferentes da apresentação, sem elas não havia apresentação, basicamente é isto.

Por isso, nas funções de edição de telejornais há coisas que nos passam, força das coisas em que temos que estar concentrados.

Uma imagem, um som, um framezinho.

É o caso de uma notícia que apresentei, ontem, mas que pode ser de um dia qualquer.

Uma notícia que me chocou, de verdade, que me obrigou a usar algumas das ferramentas que estes anos de profissão me deram.

Um menino foi descoberto, no Iraque, por um soldado, e tinha com ele, à cintura, um cinto de explosivos prontos a rebentar.

O menino estava no meio de uma multidão.

O menino chamava-se Uday, até fui pesquisar e tudo.

Chamava-se Uday, mas tinha cara de Rodrigo, de João, de Ruben, de Pedro, de Zé, de Paulo, tinha cara de menino.

O noticiário acabou, fui buscar os meus filhos, deitei-me lá pelas quase quatro da manhã.

Pelas oito e meia já ia a caminho de um compromisso sério.

E, levei durante a minha viagem, aquela imagem, aquele depoimento, que na noite anterior tanto me tinha chocado.

Talvez eu esteja a ficar meio afectado com esta coisa do bem, do belo, do amor. Talvez seja ainda coisas de África. Talvez ande a trocar as cores dos comprimidos.

Talvez.

Mas, aqui sentado, continuo a não encontrar uma única peça que caiba no puzzle do macabro.

Não é um ser humano que mete um cinto com explosivos, numa criança com os seus seis anos, camisola blue do Chelsea, para se fazer explodir.

É um sub-humano.

Foi o tio que mandou. O tio ISIS, vi eu e ouvi, o menino a dizer.

Hoje de manhã, quando cheguei ao meu destino, que todos temos o nosso destino, pelas nove e pouco desta brutal e bela manhã, comecei a perceber, de uma vez por todas, que não, não estou nada apanhado por isto do “bem”, do amor, do dar, do todo, porque é isso que todos somos, um todo.

Rigorosamente nada.

Estou feliz, muito mais que ontem.

Chegado ao meu destino, que todos temos o nosso destino, fiquei rodeado de amigos, vi-me num ambiente de família, de coisas bonitas, como diria Artur Jorge (esta é só para entendidos), rodeado de gente do bem.

Gente do abraço, gente do sorriso, gente da partilha, gente do coração, gente da paixão, gente como eu.

Não conversei com ninguém sobre aquela notícia que descarna a condição humana, conversei muito, sobre nós, sobre o todo.

Não podia falhar o compromisso. Era sério.

Deram-me a honra, porque não encontro palavra mais humilde para descrever aquilo que me foi dado, de ser o padrinho do circuito EDP Running Wonders 2017.

Foi, nessa qualidade, que tive que apresentar oficialmente o circuito das meias-maratonas em cidades património mundial, esta manhã.

Não, não tive sono.

Tive amigos que não via há muito, outros que conheci hoje, tive uma manhã com o rio ali mesmo a meus olhos.

Vi várias vezes o rio, durante as minhas intervenções. Olhei-o vezes sem conta. E, imaginei.

Nesse papel, o de padrinho do circuito, coisa pouca, logo eu, até tremo, a responsabilidade que sinto é exactamente aquela que sinto sempre que abraço uma causa.

Quando abraço uma causa, ela tem que me atrair, puxar para ela, identificar-me com ela, conhecê-la, para me dar, para fazer parte.

Dar.

É isso que os homens de bem fazem.

Dão exemplos.

Foi no meio deles que, hoje, esqueci aquela notícia que não me deixou dormir.

Os extremos. Os extremistas. Eles de um lado, nós do outro.

Um mundo e o outro.

E, demos abraços.

E, vimos os sorrisos dos nossos meninos.

E, criámos.

E, sentimos.

E, foi um sábado feliz.

A guerra não mora nos nossos corações.

Somos, então, homens de bem, ou apenas um bando de lunáticos, que acham que podem contribuir um tudo nada para um mundo diferente.

Somos uma e outra coisa, porque mal já o mundo tem tanto...

Isso é o que nos fica.

A primeira corrida do circuito é no fim de semana que vem, na Guarda.

Óh da guarda...

Trate-me por padrinho, se não se importa.

Por embaixador, não a mim, a ele.

Ele é que é o embaixador.

Agradecido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:57


Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D