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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

ALICE E PEDAÇOS DE TUDO

 

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Dia 58

29/11/2016

 

Sobre adições...

 

Tenho passado muito tempo com Alice, nos últimos dias.

Não sei como tem sido com os outros membros da família, estamos a atravessar a fase da “família disfuncional”, no que diz respeito à conciliação de agendas e horários, isto passa, porque tem que passar.

Quando faço noites a vida não me corre de feição, perco-lhe o pulso, e como demora a recuperá-lo, mas passa. Não é nada pessoal.

Tem sido Alice a minha companhia mais próxima, nestes dias feitos noites, como agora, enquanto escrevo.

São duas e trinta e cinco da manhã, escuto Mariza e comovo-me. Eu nunca o disse, mas quando uma música me arrepia, comovo-me.

Alice, a minha companheira nas noites feitas dias, dorme na cama cor-de-rosa, na cozinha. Ontem passámos o dia um com o outro, hoje de novo, ainda estive tentado a ir treinar, mas só agora, quarenta e oito horas (mais) depois é que voltei a ter pernas.

Foi uma ideia que se me deu, até era capaz de arriscar, mas Alice merecia a minha companhia, e eu a dela.

Temos conversado muito.

 

ALICE E O FOGO INESQUECÍVEL

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Dia 57

28/11/2016

 

Sobre os elementos...

 

O meu dia de hoje tem sido passado assim, recebi a equipa da Vodafone, vieram reparar o que deixaram mal feito há mais de um ano.

Acordaram-me. Já não me lembrava que vinham.

Ganharam um cliente, no caso, não o perderam.

Feito o serviço, fiquei eu e a minha amiga Alice.

Arrisquei ir caminhar, mas decidi dar mais descanso ao corpo, sobretudo às pernas.

Depois de uma meia maratona as minhas pernas transformam-se em dois blocos de granito.

Alimentei-me bem, que uma sopa de feijão encarnado da dona Emília faz milagres, arrumei a casa, a cozinha, tratei da louça e de Alice e acendi a lareira.

A tarde foi passada assim, a escrever, à lareira, só eu e Alice, a matar saudades.

Foi num destes mometos, desta tarde tão minha, que captei o instante.

Depois de meter mais lenha a arder, foi depois disso.

Alice sentou-se, elegante e tranquila, bela e sedutora e, ali ficou, a contemplar o fogo inesquecível.

O momento.

Os momentos são os tijolos que sustentam a nossa vivência, aquilo que somos, no que nos tornámos.

E, lembrei-me de um poema.

Assim foi a minha tarde, um poema.

À noite vou trabalhar, até tarde.

Enquanto isso, sinto as festas de Alice nos meus dedos, Alice chamam-me.

Vamos dormir uma sesta, que a lareira arde e a sala está quente.

O fogo...

 

 

 

 

ALICE E OS SEU PRÓPRIOS PARALELISMOS

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Dia 56

27/11/2016

 

Sobre crescimento...

 

Um fim de semana ausente e foi o suficiente para perceber como Alice cresceu.

Cinquenta e seis dias são quase dois meses.

Todos os dias, alimentando, dando afecto, conselhos, ordens, ensinamentos, com Alice tem sido assim, assim todos os dias.

Mas, foi preciso sair um fim de semana para, depois de chegar, olhar Alice com outros olhos.

Não é apenas o seu comportamento que se altera diariamente, percebo agora que também o seu aspecto se vai modificando.

O pêlo é agora mais brilhante, uniforme, os laivos dourados brilham mais, quando o sol a aquece, os olhos, olhe de novo a fotografia, os olhos de Alice já nos mostram os olhos dos gatos, ora ao alto, rasgados, ora cheios, ou como agora, cerrados.

Alice fecha os olhos, lentamente, quando se prepara para se deitar no lugar cada vez mais habitual, nas minhas pernas, em cima do cobertor castanho.

Hoje, dei conta de como Alice cresceu. Ela já não é uma gatinha pequena, à beira do nada, só, que um dia caiu nos braços de uma menina, bonita.

Alice é, agora, uma menina, bonita.

 

ALICE ACORDOU CEDO PARA VER A TELEVISÃO

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FOTO BY CARLA MOITA - ÉVORA CITY

 

 

Dia 55

26/11/2016

 

Sábado foi a véspera da corrida.

Não me escapei, não nos escapámos para a sopa de cação, foi impossível.

Os gestos mais simples são aqueles que detalham os nossos caminhos, em boa hora não nos escapámos.

Como convidados oficiais do evento, o facto de termos anulado a nossa presença nos eventos oficias, na véspera da corrida, obrigava-nos a comparecer no jantar oficial.

Obrigava, não no sentido imperativo da palavra.

Descemos à hora acertada com o Marcos, encontrámos o Sérgio na recepção, juntaram-se a nós uns familiares dele e, o GPS foi o que nos guiou.

Encontrámos o convento, a pé, no exacto momento em que começou a chover.

Corrida molhada, corrida abençoada.

Na messe de oficiais, ousei repetir o lombo com farinheira e o arroz com sultanas, olhámos cara-a-cara com duas garrafas do Douro, que isto do território é mesmo assim.

Ouvimos Cante Alentejano, ao vivo, jantámos, escutámos os discursos e rimos.

É o que ficou.

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Estivemos com novos amigos, conversas agradáveis, gargalhadas, que é isto que daqui levamos.

Só pensámos em Alice noite dentro, ao chegar ao hotel, a poucos metros de tudo, menos dela.

“Está quase, amanhã corremos, vimos buscar as coisas e vamos para cima...”

“O que é que ela estará a fazer neste momento?”.

“Livre, está livre, tem todo aquele espaço para ela”,

“como nós temos todo este espaço para nós”.

Ultimamente, vou revelar o detalhe íntimo, temos adormecido a ver a série “Crown”, nos tablet.

É sobre a rainha de Inglaterra, sobre Churchill, e depois adormecemos.

Pegamos em Alice ao colo, um de nós, deitamo-la sob a sua cama cor-de-rosa.

“Até amanhã, Alice, dorme bem”.

Por vezes sai-nos a palavra “princesa”.

Alice passa metade do serão entre as minhas pernas, estendidas, estendida, enquanto vai fechando os olhos, lentamente, a outra metade do serão, no outro sofá, junto à Carla.

Eu pensava que, na nossa chegada, Alice fosse saltar, correr, e essas coisas, mas não, Alice é uma princesa, sem aspas.

Abriu os olhos, esticou-se, só depois veio até nós.

Cumpriu o ritual, embora tenha dormido mais tempo nas minhas pernas hoje, que habitualmente. Deve ser aquela palavra; saudade. Não tem tradução.

Não imagino o que terá feito na nossa ausência, enquanto corríamos, nem sei se teve forma de acompanhar a corrida, a nossa, na televisão.

Creio que deva ter dormido muito.

Como agora.

A nossa corrida não terminou hoje.

Nem a de Alice.

A nossa corrida é todos os dias, juntos, em cada subida, em cada descida, em cada meta, em cada partida.

E, que bom que é chegar.

 

 

ALICE NÃO SE IMPORTA

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Dia 54

25/11/2016

 

Alice está bem e recomenda-se.

Tem passado as últimas horas sozinha, a fazer aquilo que bem entende, não faço ideia do que ela anda a fazer.

Sei que está bem, porque a Cristina já passou lá por casa, como combinado, e já me mandou um sms.

O que aconteceu, nas horas seguidntes a termos saído de casa, a sensação do incompleto, de falta, saudade, até, não teve a ver com Alice, teve a ver com as ausências, ponto final.

Ontem custou um bocado.

Hoje já foi diferente.

Alice está com a liberdade que quer, não faz sentido, afinal estamos a horas de voltar, estarmos nós a pensar no ontem.

Posto isto, o nosso primeiro dia sem Alice por perto está a ser tão, mas tão relaxante, que parece, estamos a ressacar. Mas, não estamos.

Tal como acontece com as pessoas, as primeiras horas custam, depois habituamo-nos. Somos animais de hábitos, bem o sei.

Com os gatos deve ser parecido. Quando está connosco, Alice gere os minutos como quer, quantas vezes a chamo para perto de mim, e ela não vem.

Hábitos.

 

ALICE ACREDITA NUM MUNDO MELHOR

 

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Dia 53

24/11/2016

 

Sobre a soberba e a avareza...

 

Alice não nasceu num berço de ouro, a bem do rigor, Alice não nasceu sequer num berço.

A bem do rigor, Alice limitou-se a nascer.

Tudo o resto é esta história, que aqui conto, todos os dias, em tempo real.

Alice está tão grande, tão bonita, tão nossa, tanto, e é só isso que nos importan, que conta, vê-la assim, feliz, como nós, embora a vida não seja feita só de felicidade.

Não há milagres.

Há tentativas.

Alice não nasceu num berço de ouro, mas eu apanhei-lhe o telemóvel (acho que era o dela, espero não me ter enganado ou ainda arranjo aqui um incidente diplomatico-felino).

Alice trocava mensagens com uma qualquer outra gata, ou gato, na faço ideia.

Saiu a correr para o sofá e deixou o telemóvel em cima do balcão da cozinha.

A conversa começava desta forma:

“Olha, sabes o que eu gostava mesmo?”.

“Não?”

“De ter nascido num berço de ouro”.

“Mas, se tens nascido num berço de ouro agora não estavas com eles”.

“É verdade, amo-os tanto, até aos miúdos, que agora pouco me ligam, dado os seus afazeres, tratam-me tão bem, adoro dormir em cima das pernas deles, sinto amor, naquela casa, no ar, tens razão, mas gostava de ter experimentado, de ser uma gata daquelas imponentes”.

“Vês, para que precisavas tu de um berço de ouro, para quê?

Não é muito melhor assim?

Imponente”.

“É, é mesmo, tens razão…Achas-me imponente?”.

“Acho eu e acham-te eles.

Alice, bem sei que é por sms, mas deixa-me contar-te uma história de um gato meu amigo, a não ser que me mandes o teu email…”.

“Não tenho email, o meu dono ainda não o criou mas manda por sms”.

“Ok, então cá vai, vê lá se lês bem a história e se tiras essas ideias malucas da cabeça, tu és uma gata da rua, uma rafeira, renegar isso é recusares a ti própria”.

SMS:

 Zé (chamava-se assim porque nós, gatos(as) gostamos daquele som do zê), era um gato rico, debochado, vivia e gozava com os outros animais das redondezas. Era assim todos os dias.

Ele passava os dias sentado num grande cadeirão, cor carmim, em cima de umas almofadas da mesma cor, junto à lareira do solar, com vista para a rua".

Um dia, Zé, do alto do seu cadeirão fofo, espreitava pela janela, à lareira, como sempre.

Ele viu passar um gato, mais pobre, com um saco roto às costas.

Perguntou-lhe, lá do alto:

“Gato pobre, o que levas dentro desse saco sujo e roto?”.

O gato pobre respondeu:

“Que interesse tens tu nisso, és rico, estás junto à lareira, tens família e amor, que te interessa?

Eu nem te conheço, sequer”.

“Sois todos iguais, gatos da rua, se não dizes o que levas aí dentro é porque o roubaste”.

“Os gatos da rua roubam para sobreviver, e eu não roubei nada, tu, gato rico, tu só sabes gozar, achincalhar, minimizar os outros, pisar os outros, eu não roubei nada e não te vou mostrar nada, posso seguir o meu caminho?".

"Então mostra".

"Não, não mostro enquanto não me disseres porque queres ver o que levo no saco".

"Oh gato ppobre, por curiosidade, pá, para perceber melhor a vossa triste vida de rafeiro, diz lá vá, senão mando a matilha dos cães apanharem-te ali na esquina".

"Não levo nada, mas se queres, eu mostro-te".

O gato da rua abriu o saco velho e roto.

De lá tirou um papel.

Subiu a parede, que os gatos também sobem paredes, e entregou o papel na pata do gato Zé, o gato rico.

Zé, enconstou-se no cadeirão carmim, desdobrou o papel e leu-o:

"Se não és o herói da tua própria história, então estás a perder todo o teu sentido de humanidade."

Zé olhou para a rua, de novo.

Cá debaixo, o gato vadio piscou-lhe o olho.

"Posso ir, agora?".

"Agora podes", respondeu o gato rico.

"Aprendeste alguma coisa?".

"Creio que sim, por agora, estou apenas envergonhado".

"As ruas, para mim, não têm nome...".

"Como tu?".

"Não, eu tenho nome, mas não te o digo".

"Porquê?".

"Porque já te mostrei o que levava dentro do meu saco".

"Um papel...".

"Sim, um papel, ou não será isso que todos andamos a fazer na terra, a cumprir um papel?".

"És capaz de ter razão, gato vadio".

"Prefiro que me chames assim", e partiu.

Alice ainda não sabe que lhe espreitei o telemóvel, mas pelo sim, pelo não, guardei a conversa entre ela e alguém, do outro lado.

Guardei a história.

Dá-me jeito.

As ruas não têm nome, tal como o gato vadio.

Qualquer um de nós tem dentro de si qualquer coisa de muito valioso, tal como o gato vadio tinha dentro do seu saco.

A mensagem fica guardada.

Espero que Alice nunca descubra!

A avareza e a soberba são nomes que são difíceis de pronunciar, só por isso, por mais nada!

A humanidade não está doente.

Apenas lhe falta alguma "mankind"!

É por isso que aqui deixo este vídeo, com o qual tive contacto há uns dez anos.

Todos os anos o publico, porque me toca, porque me aperta.

Foi esta a mensagem que o gato pobre deixou ao gato rico, a mensagem que eu gostava que Alice visse.

Vai ver, vai ver, senão eu mostro-lhe.

Mankind Is No Island.

A misericórdia não é uma ilha.

Tende um bom fim de semana, em paz.

Em meu nome e em nome da minha Alice, que tanto amo.

SIm, eu amo.

 

 

 

 

 

DOMINGO CORRE-SE DENTRO DA HISTÓRIA E NO TEMPO (E DÁ NA TV)

A TVI e a TVI24 são parceiros oficiais.

A corrida dá em directo, na tv.

Vão lá estar milhares de pessoas (eu e a minha gata somos duas delas).

Esta é a promo.

Será um sucesso, como todas têm sido.

O Gato continua a correr...(Alice é que vai ficar sózinha em casa todo um fim de semana).

Miauuuuuuu...

 

 

ALICE, A SAUDADE FRAGILIZA-ME

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Dia 53

25/11/2016

 

Sobre apertos d´alma...

 

Há sempre uma primeira vez para tudo na vida.

Nunca fui dado a ausências, provocam-me saudade, a saudade fragiliza-me.

Mas, há sempre uma primeira vez para tudo na vida.

Quando saí de casa obriguei-me a pensar: Alice ficará sozinha durante o fim de semana, em casa. Já esteve desaparecida trinta e tal horas, pode ficar outras tantas sozinha.

Mas, demorei a sair.

Alice parecia não nos querer deixar ir, nós inventávamos coisas que nos atrasassem, enquanto Alice nos acompanhava.

Ainda deixei escapar; “levamo-la connosco, não, claro que não”.

O fim de semana, com Alice no hotel, não ia ser o mesmo.

É a primeira vez que deixamos Alice em casa.

Não, não pense em ir lá assaltar, em primeiro lugar, não há nada de jeito para roubar, em segundo lugar se me roubar Alice eu corro daqui até ao fim do mundo, em terceiro lugar, na verdade, Alice só ficará umas horas sem companhia.

Durante todo o dia a Carla esteve com ela, tirou folga – fui eu fazer o seu horário, que isto de sermos operários é mesmo assim -, aproveitou para correr, fez as malas e companhia a Alice.

Eu, depois de chegar, não estive em casa mais que quinze minutos, é que, ao mesmo tempo que uma âncora me prendia à cozinha, para estar com Alice, eu dizia a mim próprio que quanto menos tempo ali estivesse, menos difícil ia ser.

Alice passou esta noite sozinha, pela primeira vez, em casa, nada comparado com as noites que passou sozinha, na rua.

Deixámos comida e mais comida e água, deixámos a porta da cozinha aberta, assim tem mais espaço para correr, deixámos tudo como quando estamos em casa, o tubarão, o rato-raspador, a ovelha, o carrinho.

A Cristina passa por lá hoje e vai fazer companhia a Alice, reforçar a comida e a água, limpar o caixote e, acredito, pegar nela ao colo e fazer-lhe uma festa.

Pode fazer, Cristina, prometo que ela não lhe vai morder.

É a primeira vez que Alice é deixada sozinha, por nós, nada comparado com as vezes que se enfrentou, sozinha, na rua.

A casa está quente, a comida, a água, a Cristina, e domingo é já amanhã.

Ela vai perceber que não pode vir sempre connosco, aliás, nunca veio.

Eu é que não percebo o raio de aperto que se me invade aqui.

Raio da gata.

Apanhou-me na gatoeira.

É que eu nunca fui dado a ausências, provocam-me saudade, a saudade fragiliza-me.

Uma coisa prometo: domingo vou bater o meu próprio tempo na meia maratona.

Sinto-me forte, leve, com ganas e saudades.

Domingo vou lutar contra mim, numa espécie de luta, onde ganha quem correr mais rápido, eu ou eu.

Depois volto para o pé de Alice.

Gosto de reencontros.

E, há sempre uma primeira vez para tudo na vida.

 

 

CORRER NO TEMPO (PORQUE AQUI TAMBÉM SE ESCREVE SOBRE CORRIDA)

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Vou para a zona de Évora há uns bons vinte e tal anos.

Só corro vai para quatro.

Uma das minhas corridas, daquelas que imaginamos, quando começamos a correr, era ali mesmo, a meio caminho entre Alcáçovas e Viana do Alentejo.

O Monte do Sobral.

É o meu refúgio, embora não me tenha perdido por lá nos últimos tempos, mas ali sinto a liberdade, cheiro-a, miro-a, vivo com ela.

Évora fica a poucos quilómetros dali.

Pensei um dia correr de lá até lá. Fiquei-me por Viana e uma bica no Café Central.

Évora, a poucos quilómetros dali, tem um centro histórico tão rico e tão bem preservado que a cidade é um museu com vida própria.

O centro histórico foi declarado Património Mundial pela UNESCO.

Conheço Évora, mas naquela altura queria conhecê-la, a correr.

É um dos tantos e tão fascinantes desafios que a corrida me oferece, conhecer os sítios, as terras, as cidades, as ruas, os monumentos, as pessoas, as tascas e os cafés, as pessoas outra vez.

Queria tê-lo feito, naquela altura, mas ir do Monte a Évora são poucos quilómetros, de carro.

A correr é uma meia maratona.

Naquela altura não me aventurava a tal coisa, que correr uma meia maratona só é fácil no teclado do computador.

Mas eu acredito na teoria do “boomerang”, tudo o que vai, volta. Há quem lhe chame karma, e outras coisas.

A corrida, no próximo domingo, vai ser, tenho a certeza, a “Corrida Monumental”.

Não só porque é assim que a “EDP Distribuição Meia Maratona de Évora” se chama, mas porque vou, finalmente, correr na cidade para onde me mudava, sem espinhas, se um dia mudasse.

Évora encarna o espírito das meias maratonas do circuito Running Wonders (que feliz escolha de nome), o espírito do território e da sua história, faz sentido esta prova estar inserida no “Circuito Running Wonders - Meias maratonas em Patrimónios Mundiais”.

Évora tem nas veias o sangue a correr quente e lusitano, é monumental até pelos seus monumentos, imponentes.

Secular.

Em Évora corremos dentro do tempo, seremos transportados para outro tempo.

Imaterialidade.

É a experiência que conta, digo eu, assentando a ideia em tipos que correm, muito mais do que eu, mas que sentem a corrida como a sinto; uma experiência.

Se ao espírito acrescer o cálice; meus amigos...

O Graal.

No tempo que parou, o prato à mesa, a gastronomia, os ossos e a capela, e o templo e as pedras do chão, e a Cartuxa e os Cartuxos, um brinde à monumentalidade, que isto de correr não é só correr. Corre-se para lá disso.

E, se tudo isto estiver a acontecer lado-a-lado, literalmente, com milhares de pessoas em uníssono, em comunhão?

Pois, é por isso que eu vou lá estar e correr, por tudo isto. Eu e esses milhares.

Seremos recebidos de braços abertos, como o Alentejo sabe receber, com afagos e sotaque, em migas de rugas queimadas pela planície.

O circuito termina em Évora. Termina no coração do Património do mundo inteiro.

E, é nosso, de todos nós, também.

Digo só uma coisa mais: imagine o cenário, milhares de pessoas prontas a partir, manhã fresca, como só o Alentejo tem, no ar paira felicidade, acredito que haja até quem já deseje feliz natal ao desconhecido do lado, talvez a mim.

A televisão (a TVI, parabéns também pelo envolvimento, ao qual sou alheio, diga-se de passagem. Estou nisto a título individual, como diria o outro) e os repórteres provocam frison e borboletas nas barrigas, está quase.

Há judeus, mouros, celtas, romanos, lusitanos, uma série deles, todos ali, na Praça Grande, a que os alentejanos chamam do Giraldo, com Diana, a contemplar o cenário, do seu templo, bem ao nosso lado.

E, eu.

Naquele dia não tinha condições para ir a correr desde o Monte até Évora, mas domingo tenho.

boomerang, não esqueça, e uns quantos shots de energia e bebidas hidratantes.

Nunca usei pensos ou creme nos mamilos, confesso.

São 21,097 kms, são 10kms, são 5kms. Há chuveiros, a partida e a chegada é de e na Praça do Giraldo, a qual chamavam Praça Grande, o secretariado é no palácio de D. Manuel, há prémios, há parques de estacionamento, mas há mais.

Porque é o território, e a sua história, e a sua gente, que as meias maratonas Running Wonder reencarnam, porque é de experiências (sensoriais, claro, também) que se trata, a “Corrida Monumental” de Évora, domingo, será incrível porque algo de inédito ela irá proporcionar a todos(as);

Uma corrida com 21 kms e com 23 – vinte e três – pontos de animação.

Algo que vai representar uma grande demonstração da cultura territorial alentejana.

Algo jamais visto numa corrida, aqui ou em qualquer outro lugar (e olhe que eu já dei muitas voltas ao mundo a ver corridas. Não dei nada, mas gostava. Ah ah ah ah !)

Se ficou entusiasmado(a) com o que leu, sim, ir correr e viver a experiência só depende de si, a partir de agora.

Basta escrever um comentário a solicitar uma inscrição, e o blog do Gato (este mesmo) terá todo o gosto em lhe oferecer uma.

Correr uma “Corrida Monumental” não é redundante, como se vê.

Até ao fim do ano só faço mais duas.

Chegue eu ao fim desta.

É que costumo demorar imenso tempo a tirar fotos.