Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

COISAS DE GENTE LOUCA, PORQUE TUDO TEM UM FIM

IMG0102EasyResizecom (2).jpg

 

 

 

 

No final da meia maratona da Guarda fiz menos dois minutos do que uma semana antes, em Lisboa.

Porque tudo o que sobe também desce.

Só que isso é o que menos conta no resto desta história.

Irritei-me uma meia dúzia de vezes.

Olhava em frente, mais uma subida, sempre mais uma subida.

Roguei pragas, vi-me obrigado a definir uma estratégia, caminhas quando sobes, corres rápido quando desces.

Só parei numa rotunda, para dar uma entrevista, em directo. Siga.

Foi numa dessas subidas, a maior de todas, que percebi o fim que ia ter.

Olhava para a frente e vinham todos a descer, enquanto eu subia, aparentemente sozinho.

Olhava para trás e continuava a não ver ninguém.

Voltava o mesmo pensamento, “há-de haver gente atrás de mim”.

E havia, mas não eram corredores.

Percebi que a corrida, apesar de tudo, não estava mal, ia no meu ritmo habitual, ia a divertir-me, a apreciar as pessoas, as ruas, as paisagens.

Valeram-me as descidas, ai não!

Eis quando, volto a olhar para trás, porque a moto da PSP ia já a meu lado, e vejo o carro dos bombeiros. E, a subida. Ia a meio, sensivelmente.

Lá em cima, o ponto de retorno, para o que restava da corrida.

Feito, sou o último.

O motociclista da PSP confirma.

Fomos conversando sobre o assunto, e o discurso dele não era animador.

“Agora é sempre a descer, certo?”, perguntei eu.

“Mais ou menos”, respondeu-me, com aquele sotaque delicioso das beiras.

“Desce agora, depois entra no bairro, sobe a avenida...”.

“Não acredito, sobe? Mais uma subida, só subidas...”.

Não satisfeito, respondeu-me, com um sorriso por trás da viseira, “antes da ponte pedonal tem mais uma subida, junto a rotunda e depois é que é a direito”.

Pensei, se sou o Embaixador da corrida, do circuito, se sou o último, nesta corrida experimental, nesta experiência emocional, então vou aproveitar para baixar o tempo, não tenho pressão.

Pois não!

“Vamos lá companheiro, mais rápido, temos que almoçar”.

A voz saiu de um megafone. Assustou-me, porque ecoou por cima da música que ia a ouvir nos phones.

Os bombeiros divertiam-se. Nunca tinham visto um último, assim.

“Calma, meter pressão não”, gritei-lhes, bem disposto, mas meio a sério.

Detesto correr sob pressão.

“Já viu isto, era o que me faltava, vou aqui a tentar ser o último, sou o último, não sou?”, perguntei ao meu companheiro que seguia de mota (o que prova que não sou assim tão lento).

“Pelos vistos é!”.

“Então já viu isto, eu aqui a correr, a querer ser o último e eles a pressionarem, ouça, depois vai ter que ler o texto no meu blog”.

O meu companheiro da PSP limitou-se a sorrir.

Faltavam três quilómetros para a meta, ia baixar o tempo, ia ser o último.

Na rotunda, a tal que me levava à última subida, um colaborador da organização disse-me;

“Vamos lá, no fim vão ter uma surpresa”.

Vão, porque nessa altura já era-mos dois a correr, mas isso foi uns dois quilómetros depois disto.

Faltavam, portanto, cinco quilómetros (dois, mais os outros três, da rotunda, mais à frente), quando vejo, espantado, dois tipos a correr à minha frente.

IMG2862EasyResizecom.jpg

 

Horas antes tinha passado ali, de carro. Era a descer.

“Sr. Guarda, temos que fazer alguma coisa, não andei nisto duas horas para agora morrer na praia, prenda os gajos”.

Ele riu, que eu ouvi a gargalhada.

Um dos dois decidiu ganhar asas e voou.

Perdi-o de vista, sobrava um.

Um só, para me estragar a festa.

Só tinha uma alternativa, naqueles cinco quilómetros finais, convencer o jovem corredor que tinha que ser penúltimo, infelizmente, aquela posição que não é carne nem é peixe.

Ao início a conversa pareceu estranha.

Acelerei, juntei-me a ele, abrandei, porque ele ia, e foi, em dificuldades.

Coxeava.

“Então, vamos lá, falta pouco”, disse eu, que quebro o gelo logo no primeiro instante.

Contou-me, então, a sua história.

Tinha ido a Lisboa ver o Benfica, nunca tinha corrido uma meia maratona, não corria há anos, quase não tinha dormido, ainda por cima tinha uma dor na perna.

Pensei com os meus botões imaginários, estou lixado, vou fazer o pior tempo da minha vida, mas não posso deixá-lo ser o último.

“Vamos lá, a rotunda está ali, vamos devagarinho, subimos aquilo, e depois é um pulinho”.

“Não, vá você”, respondeu-me.

Foi aí que tive que abrir o jogo.

Depois de o tal colaborador nos assinalar a subida, e nos ter dito que havia uma surpresa na meta, já a faltar apenas três quilómetros para o fim, vi-me forçado a contar-lhe os meus planos.

Os bombeiros já não pressionavam, o agente motard apenas nos observava, enquanto nos acompanhava.

Seguiam a história, ao vivo.

Seguimos juntos, ritmo lento.

“Vamos, falta quase um quilómetro”, incentivei-o.

Só que o esforço era tanto, que começou a caminhar, “mau, já não vamos ser amigos no Facebook, nem vamos tirar uma foto, no fim. Vamos, vamos, embora lá, vá”, disse eu, meio desesperado.

Tentativa de chantagem psicológica: “Bruno, ninguém caminha no último quilómetro. Vamos devagar. Tem que ser, Bruno, se não caminhar vou fazer melhor tempo que na semana passada, vá lá Bruno, dá lá uma ajuda”.

E, ele foi.

Correu comigo, a coxear, enquanto eu o incentivava até ao limite.

IMG2864EasyResizecom.jpg

 

“Bora, Bruno, a seguir à curva é a meta, meu, olha lá, já se vê, bora...”.

E, ele foi.

Ao fazer a curva disse-lhe, “tens que cortar a meta à minha frente”.

E, a meta estava ali à nossa frente.

As pessoas que nos incentivaram, na curva, que nos deram as suas palmas, e os seus gritos de apoio e os seus sorrisos, provocaram em mim aquela sensação incontrolável, sempre que termino uma corrida, enchi-me de emoção, por todo o lado.

O Bruno continuava a meu lado, continuava ao meu lado.

E, a meta ali à nossa frente.

E as pessoas, a gente, as gentes.

Foi nessa altura, já mesmo no fim, que pensei em dois momentos da corrida;

naquela subida alucinante, quando olhei para trás e percebi que era o último.

Ninguém à minha frente, não os via, ninguém atrás de mim, não os havia.

A sensação de ser aquele que mais ninguém é, isolamento, contemplação, tempo para tudo, até para correr.

Recordo as caras de espanto dos bombeiros, dentro do carro que seguia a fechar o pelotão.

Eu ia bem, e normalmente o último vai a arrastar-se.

“Bora lá chefe, nada de abrandar”. Eles sabem-na toda.

E, o segundo momento, aquele em que avistei o Bruno, “porra, senhor agente, aquele vai ali e vai estragar-me a história toda, no limite, o meu amigo prende-o a cem metros da meta, não fiz isto tudo para morrer na praia”.

O meu amigo agente motard (ele e os bombeiros, homens da pressão) sorriu-me, como sempre. Anuiu, entendi eu.

“Bruno, agora vai sozinho, eu chego logo a seguir”, mas ele já não conseguia mais.

Gritei-lhe; “Bruno, ninguém corta a meta a caminhar, corre”.

Ele correu.

IMG2865EasyResizecom.jpg

 

Fiquei só, a poucos metros da meta.

O que é que me lembro?

Lembro-me de ter a certeza que, apesar das subidas diabólicas, o tempo até ia se melhor que na meia maratona anterior, mais plana, mas isso era a última preocupação, naquele momento fantástico, que me obriguei a viver.

Lembro-me de haver ainda muitas pessoas, de um lado e do outro da passadeira final, a aplaudirem, a incentivarem, a tirar fotos, a filmar, algumas riam.

Foi o terceiro momento da corrida, que quero que seja o último, aquele que mais importa.

Cruzei a meta como um campeão, porque foi assim que me senti, com as atenções toas viradas para mim, o último.

IMG2856EasyResizecom (1).jpg

 

 

Emociono-me sempre que passo uma meta.

A Carla apareceu, até filmou a chegada do último Embaixador, o Paulo apareceu, o Bruno virou-se para trás.

Abraçámo-nos.

O resto, pertence ao sabor da emoção.

Acho que cumpri bem o meu papel.

É impossível ser o primeiro numa corrida. Mesmo que corra apenas contra mim próprio.

Mas, ser último é uma opção só minha.

E, acredite, dá imenso trabalho, mas sabe como se fosse o primeiro.

Coisas de gente louca.

 

 

 

 

 

 

 

COISAS DE GENTE LOUCA (A CORRIDA MAIS ALTA DE PORTUGAL)

IMG2859EasyResizecom.jpg

 

Nunca fui o primeiro em nada, que me lembre, assim de repente.

Se pensar um pouco, talvez tenha sido primeiro em qualquer coisa, uma ou outra vez, mas não é esse o enfoque. Antes pelo contrário. É a antítese.

Último.

Último nunca fui, em nada na vida, tenho tido uma sorte do caraças.

Na verdade, acho que não conheço alguém que tenha sido, admitido, provado, sei lá, ter sido, ter ficado em último, em alguma coisa.

O mais perto que estive de ser último foi quando entrei para o curso de jornalismo.

Fui o décimo terceiro e o curso só tinha doze vagas.

Lá está, tive a sorte do décimo segundo ser dos Açores e ter desistido.

Fui o último a entrar, mas entrei, por isso não conta, acho eu.

O que conta é que fui, diria, impelido, não é bem este o termo, mas serve, impelido a ser o Embaixador oficial do circuito (EDP) Running Wonders 2017, meias maratonas em património da UNESCO.

Impelido não é o termo porque, em primeiro lugar, nunca imaginei ser embaixador do que quer que fosse, em segundo lugar, porque adorei o convite, que aceitei sem hesitar, e em terceiro lugar, porque até sou capa da revista oficial do circuito.

Em vinte e cinco anos de carreira nunca fui capa de coisa nenhuma.

Pois bem, é uma responsabilidade do caraças, mas também é uma forma de participação cívica, através das corridas, do desporto e da valiosa cultura portuguesa (ou parte dela).

Spread the word.

Fazia por isso sentido estrear-me na primeira corrida de forma marcante, pelo menos para mim, porque cada corrida que faço é uma viagem que completo dentro ao meu eu. Gosto, ponto. Viajo.

Mais,

Temos a mania de falar dos outros – eu tenho – umas vezes bem, outras mal, sem nunca calçar os seus sapatos.

Eu faço isto, eu sou aquilo, eu tenho isto, eu posso aquilo, mas nunca olhamos para o caminho que os outros pisam, eu não o faço regularmente, confesso, e devia.

Pois bem, assim pensei, assim fiz.

É uma minoria elevado ao expoente máximo. O último.

Nunca ninguém dá importância ao último.

IMG2867EasyResizecom.jpg

 

 

Ele é a minoria, personificada num só, o último.

Quando o último corta a meta já os primeiros celebraram a vitória, já os voluntários e o staff se preparam para desmontar a festa, já quase não há corredores, em redor, mas ainda há gente nas bermas, nas curvas, nas subidas, na chegada, ainda há palmas e muito mais que isso. Há empurrões à alma e às pernas.

Nunca tinha sido o último em nada, fui-o lá no alto, na Guarda, até a Serra eu vi, pintada de branco nos topos. Há registos disso.

E, estava bom, estava fresco, havia muita gente.

Foi a forma que encontrei de ser um Embaixador marcante, mas foi mais que isso, foi querer sentir e querer perceber aquilo que sente o último, como o olham, como ele se olha, como ele se desafia, a si próprio, ao ponto de ser o último.

O que lhe passa pela cabeça, pelo coração e pelas veias.

Um exercício útil, naquele contexto que é o da condição humana, porque as minhas corridas são experiências marcantes e boas.

Não sou um corredor rápido.

Sou um tipo que gosta de correr, e de muitas outras coisas mais.

Confesso, já tentei uma vez ser último numa meia maratona, mas há sempre alguém, muitos, que ainda são mais lentos do que eu, não me permitindo por isso estragar as minhas marcas, que também as tenho.

Esses, normalmente, arrastam-se, num prazer penoso, de penitência dissimulada.

Não dá, terminar uma meia maratona com duas horas e meia ou três horas. Era abusar, admito.

Mas, na Guarda, na estreia do circuito, lá no alto, onde o ar é em menor quantidade, era o momento ideal.

A ideia surgiu-me na véspera, enquanto treinava no ginásio do hotel onde fiquei.

Como Embaixador tenho um ou outro privilégio, como por exemplo partir onde e quando quiser.

Não tenho, mas pronto, escapei à segurança e fiz-me ao lance, resultou.

Fomos beber um café, quinze minutos antes da partida, enquanto milhares de pessoas faziam o aquecimento ao som de uma música que ainda não era por mim apreciada, não por nada, só porque ainda passava pouco das dez da manhã.

E, ainda só ia no segundo café do dia.

Tirámos umas fotos, demos uns abraços, conversámos, rimos, acertámos as app´s para a corrida. Tudo pronto.

Nessa altura, como sempre, já tinha gafanhotos dentro da barriga.

Obviamente, fico nervoso nos momentos antes da partida. A pessoa tem sentimentos.

Sou sempre invadido por uma espécie de orgasmo cósmico (nunca tive um), tipo comecem lá a correr, que eu quero ir, mas é já. Um vertigem. Cenas.

Havia uma viagem para fazer.

Soou o tiro de partida.

“Viva, bom dia”, disse, sorrindo, ao presidente da câmara, “vire-me essa pistola para lá”, fiquei receoso, com aquele dedo ali encostado ao gatilho, e a pistola virada para mim, quando distraidamente me saudou, acenando-me, bem junto à minha cabeça, cruz credo!

Nisto, já a meia maratona tinha partido, os dos dez e dos oito quilómetros também, e os da caminhada preparavam-se para entupir as ruas imediatas à partida.

Naquele momento não percebi quem era quem, apenas comecei a dar conta quando comecei a correr.

Misturado com aquelas pessoas, corri, fui correndo, correndo, até a multidão se dissipar, o que aconteceu uns quatro ou cinco quilómetros depois.

Aos dez quilómetros percebi, finamente, quem era quem.

Eles seguiam pela direita, nós os da meia, pela esquerda.

Faltavam onze quilómetros.

Olhei para trás, ninguém.

Tranquilo, há-de haver alguém que vai aparecer lá atrás, daqui nada.

Neste contexto, solitário, dei comigo a pensar que ia fazer um tempo igual ou pior ao da última meia maratona, uma semana antes. Tranquilo. Ia bem, a gozar a corrida, tranquilo.

Neste contexto, quer dizer, dois terços da corrida eram a subir, ainda mais, e eu fui convencido, ingénuo, que a corrida era quase toda a descer. Cenas.

IMG2890EasyResizecom.jpg

 

Arrependo-me, agora, tarde demais, de não ter aceite o convite do campeão Paulo Gomes, que até é dali, para ter ido reconhecer o percurso, na véspera.

Valeram-me as descidas, que tudo o que sobe, também desce.

Assim foi, até ao fim.

Bom, não foi só assim, mas isso fica para outro texto (e mais fotos e vídeo) daqui a uma meia hora.

Resto de boa manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

THE GODFATHER

IMG2734EasyResizecom.jpg

 

 

 

Fazia algum tempo em que não apresentava notícias.

Por força das circunstâncias, vi-me a apresentar o noticiário da meia noite.

As circunstâncias que referi são simples, as tarefas e funções profissionais que me estão atribuídas, são em tudo diferentes da apresentação, sem elas não havia apresentação, basicamente é isto.

Por isso, nas funções de edição de telejornais há coisas que nos passam, força das coisas em que temos que estar concentrados.

Uma imagem, um som, um framezinho.

É o caso de uma notícia que apresentei, ontem, mas que pode ser de um dia qualquer.

Uma notícia que me chocou, de verdade, que me obrigou a usar algumas das ferramentas que estes anos de profissão me deram.

Um menino foi descoberto, no Iraque, por um soldado, e tinha com ele, à cintura, um cinto de explosivos prontos a rebentar.

O menino estava no meio de uma multidão.

O menino chamava-se Uday, até fui pesquisar e tudo.

Chamava-se Uday, mas tinha cara de Rodrigo, de João, de Ruben, de Pedro, de Zé, de Paulo, tinha cara de menino.

O noticiário acabou, fui buscar os meus filhos, deitei-me lá pelas quase quatro da manhã.

Pelas oito e meia já ia a caminho de um compromisso sério.

E, levei durante a minha viagem, aquela imagem, aquele depoimento, que na noite anterior tanto me tinha chocado.

Talvez eu esteja a ficar meio afectado com esta coisa do bem, do belo, do amor. Talvez seja ainda coisas de África. Talvez ande a trocar as cores dos comprimidos.

Talvez.

Mas, aqui sentado, continuo a não encontrar uma única peça que caiba no puzzle do macabro.

Não é um ser humano que mete um cinto com explosivos, numa criança com os seus seis anos, camisola blue do Chelsea, para se fazer explodir.

É um sub-humano.

Foi o tio que mandou. O tio ISIS, vi eu e ouvi, o menino a dizer.

Hoje de manhã, quando cheguei ao meu destino, que todos temos o nosso destino, pelas nove e pouco desta brutal e bela manhã, comecei a perceber, de uma vez por todas, que não, não estou nada apanhado por isto do “bem”, do amor, do dar, do todo, porque é isso que todos somos, um todo.

Rigorosamente nada.

Estou feliz, muito mais que ontem.

Chegado ao meu destino, que todos temos o nosso destino, fiquei rodeado de amigos, vi-me num ambiente de família, de coisas bonitas, como diria Artur Jorge (esta é só para entendidos), rodeado de gente do bem.

Gente do abraço, gente do sorriso, gente da partilha, gente do coração, gente da paixão, gente como eu.

Não conversei com ninguém sobre aquela notícia que descarna a condição humana, conversei muito, sobre nós, sobre o todo.

Não podia falhar o compromisso. Era sério.

Deram-me a honra, porque não encontro palavra mais humilde para descrever aquilo que me foi dado, de ser o padrinho do circuito EDP Running Wonders 2017.

Foi, nessa qualidade, que tive que apresentar oficialmente o circuito das meias-maratonas em cidades património mundial, esta manhã.

Não, não tive sono.

Tive amigos que não via há muito, outros que conheci hoje, tive uma manhã com o rio ali mesmo a meus olhos.

Vi várias vezes o rio, durante as minhas intervenções. Olhei-o vezes sem conta. E, imaginei.

Nesse papel, o de padrinho do circuito, coisa pouca, logo eu, até tremo, a responsabilidade que sinto é exactamente aquela que sinto sempre que abraço uma causa.

Quando abraço uma causa, ela tem que me atrair, puxar para ela, identificar-me com ela, conhecê-la, para me dar, para fazer parte.

Dar.

É isso que os homens de bem fazem.

Dão exemplos.

Foi no meio deles que, hoje, esqueci aquela notícia que não me deixou dormir.

Os extremos. Os extremistas. Eles de um lado, nós do outro.

Um mundo e o outro.

E, demos abraços.

E, vimos os sorrisos dos nossos meninos.

E, criámos.

E, sentimos.

E, foi um sábado feliz.

A guerra não mora nos nossos corações.

Somos, então, homens de bem, ou apenas um bando de lunáticos, que acham que podem contribuir um tudo nada para um mundo diferente.

Somos uma e outra coisa, porque mal já o mundo tem tanto...

Isso é o que nos fica.

A primeira corrida do circuito é no fim de semana que vem, na Guarda.

Óh da guarda...

Trate-me por padrinho, se não se importa.

Por embaixador, não a mim, a ele.

Ele é que é o embaixador.

Agradecido.

NÃO CORRO HÁ 4 DIAS, CONTANDO COM O DE HOJE

IMG3223EasyResizecom.jpg

Foto: The Cat

 

 

Aviso prévio:

Este texto deve ser lido como um desabafo, no caso de ser lido, o que eu duvido, creio que nem isso seja útil.

É um desabafo só para comigo, porque quando escrevo desabafo que nem um doido desbragado. Só isso, nem o leia, não vale a pena.

Hoje em dia penso estar na posse de todas as faculdades, que me permitem afirmar que sei o que é ter o diabo no corpo. O Santanás, chamem-me um exorcista e virem-me a cabeça ao contrário, se faz favor.

Tenho andado irritado, quase inquieto, deixei de comer com regularidade, aquela cena das três em três horas, parece que tenho o diabo no corpo, mas também dentro do corpo.

O diabo é frio. De manhã, sobretudo.

Ele prende-me com uma âncora enorme, puxa-me para baixo, tapa-me e eu cedo. Depois, é tarde. 

Tem sido assim todo este santo mês, de horários que, ao contrário do habitual, até me permitem fazer mais coisas que não dormir, ficar na cama, de manhã, porque está frio.

O ano passado não era assim.

Levantava-me, saía para correr.

Há quatro dias, contando com o de hoje, que não corro, que não treino, que não faço nada que não seja dormir, trabalhar, andar nas redes sociais, dormir, voltar a dormir, tudo porque está frio.

(Também vejo Netflix, Youtube e leio, cada vez menos, confesso).

No ano passado, e no ano anterior não era assim.

Este mês fiz dois treinos de Muay Thai, certo que há quase um mês que ando à boleia, sem carro, mas há quatro dias, contando com hoje, que não corro.

A corrida tem sido o meu factor de equilíbrio, ao longo dos últimos quatro anos.

Nos últimos dois anos encontrei o nirvana, ao misturar a corrida com o Muay Thai.

A sensação que tenho é de desconforto, apesar de estar fora de causa uma qualquer desistência da causa (risos).

Desconforto, porque não treino regularmente Muay Thai há quase dois meses, desconforto porque não corro há quatro dias, contando com o de hoje.

Desconforto ou pré-estado-de-descompensação?

É mais isso (basta ver a fotografia).

Uma espécie de ressaca, é isso que sinto, a ausência de algo que sustenta, alimenta, ajuda, transporta.

Mas, isto acaba por ser uma-quase-sessão-de-masoquismo.

Como disse, em cima, esta semana até tive um horário que me permitiu correr.

Foi opção comodista.

Ainda há bocado disse à minha senhora: “ya, ganda corredor, não corro há quatro dias, contando com o de hoje, porque fiquei na cama, enquanto os outros continuam a fazer aquilo que gostam”.

Ao que, do alto da sua infinita paciência me respondeu: “também tens direito a ficar na cama, não és nenhum profissional e se isso te dá prazer, não sei porque não o faças”.

“Porque parece que estou adormecido, dormente, lá está, com o diabo no corpo”.

Mas, como sempre, ela tem razão.

Por isso estou para aqui a desabafar. A ressacar que nem um doido.

Isto faz mal a uma pessoa.

O ressacar.

O incrível é como é que me deixei chegar a este estado;

Provocar auto-sofrimento, auto-flagelar-me, credo.

Vou preparar a vingança, que a mochila está pronta desde terça feira.

Amanhã, quando sair do trabalho entrego o carro à dona, calço os ténis e, ai cum carago se não me vingo!

Nem que faça uma meia maratona partida em quatro.

Mas, vou vingar-me, isso vou.

Como disse no início, interesse este texto tem pouco, ou praticamente nenhum, mas sinto-me muito mais leve agora.

Lá está, leve (como uma pena é impossível), leve, corrida.

Aviso póstumo, que avisos prévios é no início:

Pimba, já foste(s)!

Só espero que não esteja frio!

A MINHA CABEÇA A ANDAR À RODA

blogEasyResizecom.jpg

 

“O que é que andas aqui a fazer?”.

“Existo”.

“Este pode ser o ponto de partida. Partimos sempre para chegar”.

“Existo”.

“Como qualquer um de nós, também tu já imaginaste alguma vez encontrar o Santo Graal da vida”.

“Não, como poucos de nós, limito-me a existir”.

“Existir ou viver?”.

“Uma e a mesma coisa”.

“O Santo Graal da Vida, a sua busca, é a corrente que faz o rio fluir para a sua foz. O homem busca algo, busca a vida”.

“O homem busca algo na vida, ele não busca a vida, ele é incapaz de, apenas, existir.”.

“Isso torna-o em alguma coisa?”.

“Transforma-o em um indigente da alma, num pedaço de matéria, ávida por agarrar o Graal, que ninguém jamais agarrou, nem Jesus.

Era fake news, essa coisa do Cálice”.

“Estamos na era da pós-verdade, verdade?”.

“Mentira.

Estamos na era da mentira, da crueldade intelectual, na era das fake news, que matam as real news, que se misturam, em cumplicidades obscenas, em hard news híper-reais.

Mais que a era das fake news, vivemos a era das híper-real news”.

“E, dizes apenas que existes?!”

“Viver, existir é viver.

Começaste por perguntar o que andava aqui a fazer. Respondi-te: existo!”.

“E eu questionei se existir era viver!”.

“E eu respondi afirmativamente.

Insististes em puxar-me para o banal. O Santo Graal, o mal do mundo, que o mundo julga ser o seu mais precioso bem”.

“Achas, por isso, que a maldade existe?”.

“Não é a busca que move o homem, o homem que não vive, que não se dá conta que existe, a busca pelo seu Santo Graal personalizado?”.

“E, isso torna-o mau?”.

“Isso descompensa os tempos. Desde o início do tempo.

Abriga o pior do diabo.

Passeia-te pela política, senta-te na esplanada da Justiça, na bancada do futebol, liga-te, por segundos apenas, ao mundo virtual, espreita a janela das notícias, e vê se ainda lhes descobres as diferenças. Faz tudo isso”.

“Porque cada um busca o seu Santo Graal?”.

“E, perde a capacidade de olhar, a nada, olha a nada, e pisa, e passa por cima e por baixo, e chuta para o lado, e descarta, e empurra, e violenta, e viola, e infringe, e impune, sempre impune, mesmo no dia em que é algemado”.

“Isso era uma prisão da alma, pensar que a busca do Graal é o que move cada cabeça”.

“Vivemos, por dentro. Enquanto não nos limitarmos a existir”.

“Toca a utopia!”.

“Não é o Santo Graal isso mesmo?”.

“Depende, se tiveres um Porsche, uma casa enorme, uma conta bancária sem fundo, uma vida feliz, é isso mesmo, poder, ter”.

“E, não existes.

Morres por dentro, enquanto festejas por fora”.

“No fim, morremos todos!”.

“E, não acredito que alguém se volte a lembrar do Santo Graal, puta que o pariu!”.

 

 

 

 

RUNNING FOR CHITAS

 

IMG_2024_Easy-Resize.com (1).jpg

 

 

 

Recebi o convite por email.

Perguntavam-me se eu queria acompanhar um evento secreto, uma corrida sem rota, sem tempos para cumprir, sem competição, uma corrida secreta.

À partida não podia ir, informei por email, mas ia fazer os possíveis para estar presente.

Eu gosto de correr corridas especiais, só participo nessas, naquelas que me trazem conhecimento, me sensibilizam pelos seus propósitos, e esta, senti-o, era uma dessas corridas.

A #secretrun é por assim dizer uma empresa que só organiza corridas secretas, várias por ano.

Uma “subsidiária” da empresa-mãe, a “Correr Lisboa”, os “Vicentes”, que estão presentes em todas as corridas especiais.

Vi-me sempre obrigado a recusar os convites, por força da minha agenda profissional (nome pomposo para definir vida sem horários). A esta eu tinha que ir.

A chita é o animal mais veloz ao cimo da terra.

Mas, a chita, o mais veloz de todos, não conseguiu ser mais veloz que a voragem do homem.

Os caçadores destruíram o habitat natural, dizimaram a espécie, para oferecer casacos em pele natural às mulheres dos magnatas da morte.

São sete mil. Não são mais que sete mil, as chitas que existem no planeta.

IMG_2715 (1).JPG

 

 

E, nós, sentados, nas redes sociais, em manobras de activismo virtual, assistindo à extinção de uma espécie, de mais uma, até que chegará o dia em que não conseguiremos ser velozes o suficiente, para corrermos da nossa própria extinção.

Talvez fossemos uns trinta felizardos, calçados com sapatilhas de correr e sorrisos de corredor.

IMG_2014_Easy-Resize.com.jpg

 

Felizardos, aqueles que desenrolaram o enigma e o decifraram, na página do Facebook da corrida.

Running For Chitas.

Só eu e a organização sabíamos onde a corrida ia terminar, porque é que íamos correr, e o nome da corrida. Mais ninguém.

Na verdade, o percurso só era conhecido do Bruno Claro, nem a mulher, a Sandra o conhecia.

081C741E-A965-4101-A980-F059293EB080_Easy-Resize.com.jpg

 

O Bruno e a Sandra são duas pessoas fantásticas que conheci nas corridas.

Estão em todas.

A Sandra dedica-se à empresa “Correr Lisboa” e à gestão dos eventos, o Bruno é o homem-chave do projecto. O planificador-mestre.

Fazem muito pela corrida.

Dão treinos quase todas os dias da semana, organizam eventos de corrida, participam em quase todos, divulgam a corrida nas redes sociais num registo tão positivo e apelativo, que só mesmo o mais insensível consegue não mostrar vontade de se juntar a eles.

São eles que também organizam as “Secret Run”.

O bruno recebeu os participantes, um grupo restrito de pessoas, na Quinta da Alfarrobeira, em São Domingos de Benfica, à hora marcada.

Não era uma hora certa; 15.36h.

O evento começava vinte minutos depois.

Os participantes foram recebidos por pessoas vestidas de negro, da cabeça aos pés, os pés denunciavam tudo, as sapatilhas de corrida davam um ar friendly ao ambiente de secretismo.

496C6CE4-8788-4E47-8272-D196362D43C0_Easy-Resize.com.jpg

 

Fomos informados que havia guias, não havia pressas, porque íamos parar várias vezes.

Saímos, depois de uma volta no interior da quinta (onde apenas um bloco de prédios divide a barulhenta cidade daquela quinta noutro lado qualquer, onde as árvores e os pássaros nos convidavam a não partir).

Saímos pelo grande portão verde da Quinta da Alfarrobeira, invadimos a esplanada do Califa, galgámos viadutos, atravessámos floresta, avistámos casais de namorados, velhinhos sentados em bancos de jardim, jovens pais em infantil perdição, enquanto corríamos.

Eu sabia para onde íamos, mas nunca o revelei, nem ao meu primeiro amigo, que conheci antes da partida, que as corridas provocam-me isto: amizade, antes e durante.

IMG_2050_Easy-Resize.com.jpg

 

Mais ninguém sabia.

Chegados à linha de fronteira, ou íamos para a Serafina, ou para a ponte 25 de Abril, ou para Sete-Rios.

Já com o grupo reorganizado, recomeçámos a corrida.

Virámos à esquerda, atravessámos vias-rápidas, estradas, passadeiras, sorrimos sempre, os automobilistas também.

Fomos pela zona dos autocarros, enquanto o fumo das castanhas deste Outono da vida nos entrava pelos pulmões dentro.

Observei as pessoas, naquela tarde de domingo, em passo de fim de tarde, rumo não sei onde.

Os portões em frente a nós eram grandes e verdes, como os da Quinta da Alfarrobeira, de onde tínhamos partido há cinco quilómetros.

Ali, nunca ninguém tinha corrido, ali, jamais alguém irá correr. Nós entrámos lá a correr.

IMG_2018_Easy-Resize.com.jpg

 

A corrida tomou o Jardim Zoológico de Lisboa. É lá que vive uma pequena comunidade de chitas, da já pequena comunidade de chitas.

A corrida era por elas.

A corrida era secreta, até aquele momento, em que entrámos no zoo, naquele fim de tarde, quando os animais começam a recolher, quando a noite os transporta para os continentes de onde vieram, onde deviam estar, mas estão a desaparecer.

O Jardim Zoológico de Lisboa é uma causa, em si.

Em boa-hora se associou a esta “Secret Run”.

IMG_2020_Easy-Resize.com.jpg

 

“Quando fizeram o convite para o Jardim Zoológico participar neste evento de sensibilização para a extinção das chitas, a propósito da Semana Mundial da Chita, vimo-nos obrigados a pensar, não era fácil abrir o zoo para uma corrida, junto aos animais”.

Mas, rapidamente Laura Dourado percebeu que esta era uma forma eficaz de dar a conhecer às pessoas a tragédia que só alguns parece estarem a assistir.

“Decidimos então aceitar esta parceria, para alertar para a extinção das chitas, ao mesmo tempo que promovemos o desporto, juntamente com a Secret Run”.

Laura correu durante todo o tempo na cabeça da corrida.

Mas, enquanto nós estávamos equipados para correr, Laura Dourado estava com botas, calças de ganga, camisola de gola alta e suor no rosto.

IMG_2054_Easy-Resize.com.jpg

 

             904C415A-CFC5-456E-98AF-AFD38F2CBC17_Easy-Resize.com.jpg     93DD5CEE-3D2A-4D31-8D78-C1400F4046A4_Easy-Resize.com (1).jpg                          71947684-A3ED-47BC-9D8E-23DEFCDBC756_Easy-Resize.com (1).jpg

 

 

No entanto acompanhou-nos ao longo das pontes, das subidas, dos jardins, dos leões, das hienas, das zebras, dos rinos, dos hipopótamos, das focas, dos macacos, dos linces, Laura não só não descolou da crew um único momento, como foi fundamental para as explicações que nos foram sendo dadas à medida que corríamos de um continente para o outro, dentro daquele jardim tão mágico.

IMG_2022_Easy-Resize.com.jpg

 

A ambiência inesquecível.

IMG_2023_Easy-Resize.com.jpg

 

Fim de tarde, cai a noite, há fumo no ar, será nevoeiro, outono apenas.

IMG_2710 (1).JPG

 

 

O Jardim Zoológico é ainda mais mágico quando a noite cai e o silêncio só é cortado pelos risos das hienas.

Aposto que nunca tinha pensado nisto, praticar exercício no zoo.

Dificilmente conseguirá, por isso esta crónica é tão minuciosa, para que sinta a corrida como eu a senti, aceito alguma maldadezinha neste meu comentário, mas continuemos.

A “Secret Run” tem um sólido apoio da Reebok Portugal.

São parceiros. Por isso, Paula Dias, responsável pela marca, reforça tudo o que acaba de ser escrito:

“Sob os motes “Gym is Everywhere” e “ Be More Human”, a Reebok procura quotidianamente associar-se a eventos e embaixadores que refletem estas assinaturas.

A Secret Run é, assim, fruto da sua organização em parceria com a Correr Lisboa e destaca-se pela prática da corrida e de várias modalidades do fitness em locais onde, normalmente, a prática desportiva não está associada.

Os participantes têm, assim, acesso privilegiado e “secreto” a  locais inesperados, onde poderão praticar desporto, relembrando que este poderá ser feito por toda a parte, sem desculpas. Que é e deverá ser  uma atitude e estilo de vida, podendo estar presente sempre que a vontade o ditar.

Ser parte do que somos, quotidianamente, como qualquer outro hábito.

Nem só de ginásios e mensalidades se faz o bem-estar.

É esta a atitude que a Reebok assume e que todos os participantes da Secret Run puderam ontem experienciar no Jardim Zoológico de Lisboa.”.

           IMG_2034_Easy-Resize.com (1).jpgIMG_2036_Easy-Resize.com.jpg

 No fim, já as chitas estavam a descansar, estas que o podem fazer, que outras correm nesta altura, pela própria vida, no fim, uma aula de Body Atack, junto ao coreto do zoo, já imaginou, depois de uma corrida destas, uma aula junto ao coreto do zoo, num ambiente irrepetível.

Nesta altura já eu ia a corer para o ponto de partida.

O carro tinha ficado na Quinta da Alfarrobeira.

Enquando os resantes felizardos terminavam o seu domingo em comunhão de abdominais, flexões, saltos e alongamentos, eu tinha-me feito à estrada.

Nunca tinha corrido em Lisboa sózinho.

Gosto de correr sózinho em Lisboa.

Lá fui eu, a correr, não fosse alguma chita decidir fugir.

É que eu não fui à aula de Body Atack, e não esqueço que a chita é o animal mais veloz do mundo, ainda mais veloz que eu, e está em extinção.

Disso não esqueço.

Depois, cheguei a casa e liguei a tv.

Ia começar o jogo da bola.

 

Agradecimentos:

Sandra Ramos Claro, Bruno Claro, Correr Lisboa, Secret Run, JDYoung – Letícia Gonçalves e Cátia rangel Santos, Reebok Portugal

Fotos. The Cat Run & Sandra Ramos Claro - Secret Run

ALICE E PEDAÇOS DE TUDO

 

IMG2498EasyResizecom (1).jpg

 

 

 

Dia 58

29/11/2016

 

Sobre adições...

 

Tenho passado muito tempo com Alice, nos últimos dias.

Não sei como tem sido com os outros membros da família, estamos a atravessar a fase da “família disfuncional”, no que diz respeito à conciliação de agendas e horários, isto passa, porque tem que passar.

Quando faço noites a vida não me corre de feição, perco-lhe o pulso, e como demora a recuperá-lo, mas passa. Não é nada pessoal.

Tem sido Alice a minha companhia mais próxima, nestes dias feitos noites, como agora, enquanto escrevo.

São duas e trinta e cinco da manhã, escuto Mariza e comovo-me. Eu nunca o disse, mas quando uma música me arrepia, comovo-me.

Alice, a minha companheira nas noites feitas dias, dorme na cama cor-de-rosa, na cozinha. Ontem passámos o dia um com o outro, hoje de novo, ainda estive tentado a ir treinar, mas só agora, quarenta e oito horas (mais) depois é que voltei a ter pernas.

Foi uma ideia que se me deu, até era capaz de arriscar, mas Alice merecia a minha companhia, e eu a dela.

Temos conversado muito.

 

ALICE E O FOGO INESQUECÍVEL

0D7669500568468D85A4B86061BA8F4FEasyResizecom.jpg

 

 

Dia 57

28/11/2016

 

Sobre os elementos...

 

O meu dia de hoje tem sido passado assim, recebi a equipa da Vodafone, vieram reparar o que deixaram mal feito há mais de um ano.

Acordaram-me. Já não me lembrava que vinham.

Ganharam um cliente, no caso, não o perderam.

Feito o serviço, fiquei eu e a minha amiga Alice.

Arrisquei ir caminhar, mas decidi dar mais descanso ao corpo, sobretudo às pernas.

Depois de uma meia maratona as minhas pernas transformam-se em dois blocos de granito.

Alimentei-me bem, que uma sopa de feijão encarnado da dona Emília faz milagres, arrumei a casa, a cozinha, tratei da louça e de Alice e acendi a lareira.

A tarde foi passada assim, a escrever, à lareira, só eu e Alice, a matar saudades.

Foi num destes mometos, desta tarde tão minha, que captei o instante.

Depois de meter mais lenha a arder, foi depois disso.

Alice sentou-se, elegante e tranquila, bela e sedutora e, ali ficou, a contemplar o fogo inesquecível.

O momento.

Os momentos são os tijolos que sustentam a nossa vivência, aquilo que somos, no que nos tornámos.

E, lembrei-me de um poema.

Assim foi a minha tarde, um poema.

À noite vou trabalhar, até tarde.

Enquanto isso, sinto as festas de Alice nos meus dedos, Alice chamam-me.

Vamos dormir uma sesta, que a lareira arde e a sala está quente.

O fogo...

 

 

 

 

ALICE E OS SEU PRÓPRIOS PARALELISMOS

IMG2490EasyResizecom.jpg

 

 

Dia 56

27/11/2016

 

Sobre crescimento...

 

Um fim de semana ausente e foi o suficiente para perceber como Alice cresceu.

Cinquenta e seis dias são quase dois meses.

Todos os dias, alimentando, dando afecto, conselhos, ordens, ensinamentos, com Alice tem sido assim, assim todos os dias.

Mas, foi preciso sair um fim de semana para, depois de chegar, olhar Alice com outros olhos.

Não é apenas o seu comportamento que se altera diariamente, percebo agora que também o seu aspecto se vai modificando.

O pêlo é agora mais brilhante, uniforme, os laivos dourados brilham mais, quando o sol a aquece, os olhos, olhe de novo a fotografia, os olhos de Alice já nos mostram os olhos dos gatos, ora ao alto, rasgados, ora cheios, ou como agora, cerrados.

Alice fecha os olhos, lentamente, quando se prepara para se deitar no lugar cada vez mais habitual, nas minhas pernas, em cima do cobertor castanho.

Hoje, dei conta de como Alice cresceu. Ela já não é uma gatinha pequena, à beira do nada, só, que um dia caiu nos braços de uma menina, bonita.

Alice é, agora, uma menina, bonita.