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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não é um blog sobre gatos.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não é um blog sobre gatos.

UM 737 CHAMADO SODADE

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Confesso, quando entrei no avião senti-me apreensivo. Não que a hipótese de um atentado a um charter cheio de portugueses tivesse probabilidades de acontecer, não por isso. O que me deixou apreensivo foi ler os avisos, no interior do avião. Estou habituado a ler "porta de emergência", por exemplo, em línguas que me são familiares. Nunca tinha viajado num 737 sem saber a que companhia pertencia o avião, muito menos havia feito alguma viagem num avião, com avisos da praxe, numa língua que, três dias depois, ainda não consegui identificar. Reparei na cara do comandante, através da janela do cockpit, quando subi a escada, cabelo claro, como a pele, reparei na hospedeira, que nos saudou em castelhano, em uma outra, que nos indicou os lugares, em português. Uma espécie de nações unidas, dentro de um avião rumo à ilha. Na verdade, a apreensão passou assim que deixámos Lisboa para trás. Ela só me voltou a assaltar a poucos metros da placa, no momento em que já se sentia o chão, ou imaginava sentir, e a sacana da asa do lado esquerdo inclinada, desalinhada. Pensei que a coisa não ia resultar - mas que sei eu de aviação? A coisa deu-se. Dá-se assim, todos os dias. É curioso. Todos os dias levantam e aterram aviões cheios de gente, que acha que vai para o paraíso. Somos aos magotes. Num dia chega um avião e deixa gente, o mesmo avião que leva gente de volta, nesse mesmo dia. No dia seguinte o mesmo. O fim de semana é uma espécie de placa giratória que leva e traz. O filme repete-se sete dias depois. Sete dias no paraíso, com tudo incluído. Mas, o paraíso é mais que belas praias, muito mais que o sol, que fazer nada dos dias. O paraíso é sempre onde estamos, quando somos, porque queremos. Eu gosto de andar aos magotes, sai mais em conta, até porque, diz-me a experiência de turista acidental que, mal chegados, cada qual vai à sua vida. Cruzamo-nos aqui ou ali, no bar ou no restaurante, no lóbie, no lóbie cruza-se muita gente. Muitos daqueles que, chegados a casa, vão ao Trip Advisor deixar a sua pegada ecológica e crítica. "O wi-fi falha em muitas zonas do hotel". "A comida tem pouca variedade, embora sejam asseados e simpáticos". "O pessoal é muito simpático, mas deviam cuidar melhor do deck da piscina, e garantir mais internet, em todas as zonas". O Trip Advisor é como as caixas de comentários dos jornais online, onde cada qual diz o que lhe apetece, por mais idiota que seja, sem se dar disso conta.

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 O mundo está pejado de idiotas, eu sou um deles, daqueles sem ideias, mas com opiniões sobre tudo, como se tudo soubessem sobre a vida, a sua e a dos outros. É a mais pura das verdades, o wi-fi praticamente não funciona. Obrigam as pessoas a desligarem-se do mundo, afinal não lhes chega os quatro canais portugueses, em sinal aberto, mais um ou dois canais cabo também portugueses. A internet está-lhes-nos na medula, nestes dias que correm. Como se a internet - que existe, lá iremos, e funciona bem - fosse um bem de primeira necessidade. Como se uma ilha, no meio do oceano, tivesse a obrigação de ter internet para todos, quando a ilha, no meio do oceano, tem uma única estrada alcatroada. Duas, vá!

Esta ausência do mundo, contradição suprema de quem procura desligar-se do mundo, era a crítica principal, o que me tranquilizou.

As outras (principais) críticas centravam-se na simpatia de todos os empregados do hotel, dos hotéis.image_2016-08-11_01-16-21.jpeg

E, faz sentido, sem turistas os hotéis estariam vazios, agradar-lhes é o mínimo. Mas, eles vão mais além, agradam e são profissionais, orgulhosos profissionais, o Modu, do Senegal, o Luis, a Angelic, o José, todos da Boa Vista.

A estes retive os nomes.

Impossível ficar com os nomes do todos os que connosco se têm cruzado, nestes dias, quentes e sem gente no horizonte.

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O lóbie do hotel tem horas de ponta, em duas ocasiões; quando chegam os magotes e partem os outros, e quando os magotes se sentam - até no chão - para apanhar rede.

Ainda anteontem, depois do jantar, sentei-me num outro ponto do hotel, onde alguém me segredou que internet funcionava mais rápida.

É por isso que ainda não publiquei nenhum texto, dos três que estou a escrever; não tenho como os partilhar, porque não tenho internet suficiente. Essa é a mais pura das verdades.

A que tenho gasta-me dez porcento de bateria para publicar uma simples foto no Facebook. E, até isto faz sentido.

Sendo que, bastou-me olhar para cima, e lá estava ele, por cima do sofá em que me tinha deitado; o router, ele  existe!

Mas, porra, que raio de críticas vão vocês escrever, no Trip Advisor, sobre a falta de internet no paraíso, quando o router tem mais ferrugem à volta que o Tolan, anos depois de ter naufragado em frente ao Cais das Colunas, em Lisboa.

Ainda ri sózinho, depois de desviar o olhar do router em direcção ao lóbie, onde um magote de viciados dava chutos de internet a conta-gotas.

A culpa era de uma senhora alta e loura que estava a fazer Facetime, e de uma miúda morena, que falava com alguém, através do Skype.

Pelo menos deu para escutar a queda d casal de irmãos, pré-adolescentes, experientes nestas coisas das comunicações digitais, presumo.

Segundo eles a culpa da internet não funcionar era daquelas duas pessoas, que sugavam o sinal todo.

Não sei se tinham razão, mas também não me dei ao trabalho de lhes explicar que, se já é difícil ter internet no meio do oceano, numa ilha onde muitas pessoas te pedem uma camisola, os calções, por não terem roupa, onde a palavra smartphone até assusta, apesar de ouvirem NGA e Valete, apesar de serem do Benfica, do Porto e do Sporting (de Portugal), apesar de terem festejado o título de campeão da europa, como se também eles fossem portugueses; basta reparar no cachecol da selecção, no tablier do táxi-combie, e não lhes expliquei, porque eles não têm nada que saber que o hotel tem routers espalhados, porque, apesar de tudo, o hotel não quer que falte nada aos hóspedes, só que o ar do mar translúcido e o vento Harmattan, que sopra seco e quente, vindo do deserto, dão cabo de qualquer router, por muito boa vontade e passwords que existam.

Aqui, respira-se calor, vento, mar, areia fina, alegria, confiança, segurança, só não há internet, no hotel, bem entendido.

Aqui, há 55 quilómetros de praias desertas, com dunas e águas cristalinas (posso confirmá-lo), como no paraíso.

O vento Harmattan encaixa como uma luva, no calor persistente e tórrido, a ilha é árida, pouco povoada, desprovida de bens materiais, apenas rica em harmonia, e em internet, fora do hotel.

"Ali é o hospital, o centro de saúde da vila, mas é melhor não ficar doente", disse-me o motorista do táxi que me levou a conhecer a terra.

E, a quantidade de outdoors, a caminho da vila, a que chamam cidade, com publicidade à internet 4G! Aos magotes.

Mas, aqui, o aeroporto só funciona durante o dia, enquanto há luz do sol.

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Os hotéis (ainda só três), construídos em extensão ( e não em altura), contrastam com o lado de dentro da costa, agreste, vulcânico, onde pastam cabras e vacas - que se contam pelos dedos, ao ponto de, ao fim de alguns dias, já lhes conhecemos o focinho -, em pastos de terra seca.

A quantidade de vezes que já tentei imaginar o que pastam as cabras e as vacas, no meio de tanta rocha.

Deixei as cabras a pastar erva seca  e fui visitar a vila.

A minha visita à vila incluiu um jogo de cinco contra cinco, numa praia mais pequena que a minha sala de estar, roda-bota-fora, areia misturada com pedras, campo com um poste no meio, e dezenas de crianças a banhos, ali ao lado, outras simplesmente deitadas na areia, a observar os "mais velhos", num torneio improvisado, daqueles em que há sempre três ou quatro equipas de fora, à espera, em que os jogos acabam quando uma equipa marca um golo.

Ficou o convite para voltar, em troca das duas garrafas de água que tinhamos.

Aquele livre, com a bola ao post impressionou. Eu tinha a certeza que ela ia entrar...

Quanto à internet, falem com o José, da Boa Vista, ou com o Modu, do Senegal, eles estão na recepção do hotel.

Um deles que vai ajudar, de certeza.

 

O José trouxe-me dois cartões lá da vila, quando o turno mudou, às quatro da tarde.

Fez uma chamada, activou os cartões, carregou-os com 1500 escudos ( 5 gigas), e ligou-me ao mundo.

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Por isso é que só agora escrevo. Não tenho tido internet.

O José matou a minha ideia do paraíso.

O José matou-me o vício.

Quando voltar a casa hei-de escrever uma crítica no Trip Advisor.

Vou escrever que a internet funciona, porque é ela que leva e traz a sodade, dentro de um 737, carregado com magotes de gente, que acha que o paraíso existe.

Acho que amanhã volto à vila, a ver se aquela bola ao poste entra na baliza.

Falta-me só festejar um golo com eles, naquele campo, na praia, mais pequena que a minha sala de estar!

FILHO DE PAI INCÓGNITO

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 As coisas sempre me aconteceram por acaso.

Eu sempre procurei aquilo que queria, mas há sempre uma dose de acaso, em tudo.

Foi o caso.

Nasci (profissionalmente) de pai incógnito.

Mais acaso que isto, para começo de conversa...

Hoje é quinta feira, 4 de Agosto de 2016, correcto?

Correcto!

Faz hoje 22 anos que comecei a aprender a fazer televisão, num cinema.

Aquele não era um cinema qualquer. 

Era o Berna, colado à igreja de Nossa Srª de Fátima, em Lisboa.

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EU, EX - ESTAGIÁRIO, ME CONFESSO

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(...continuação do texto anterior...)

 

Sexta feira.

Finalmente um fim de semana em casa.

Que o dia passe rápido que preciso de me desligar do mundo.

Olho para a agenda, parece-me um dia tranquilo, Marcelo fala, fala sempre, Costa também e Cristiano Ronaldo vai ser nome de aeroporto, consulto as várias equipas da redacção, verificamos directos, troco impressões sobre o alinhamento com a apresentadora, começo a alinhar o primeiro jornal que ia editar, o das dezasseis, enquanto a apresentadora, trata da maquilhagem, para depois se dedicar a escrita dos pivots, ajudando-me a ultimar o alinhamento.

Olho para o relógio, falta menos de um quarto de hora, começo a sentir ansiedade, apelo à memória recente, dos últimos dias, e penso; "vais conseguir, deixa-te de merdas, hoje é tranquilo".

Era o que eu estava mesmo a precisar, uma sexta feira tranquila, depois de uma semana e de um fim de semana totalmente alucinantes.

Estava tudo a correr tão bem que já só faltavam dois noticiários para saltar para fora da bolha e respirar ar puro.

Começámos o jornal, metemos ali dois directos, a coisa correu tranquilamente.

Enquanto isso já tinha alinhado o jornal das 17 e o das 18.

É assim, está um jornal no ar mas há outro um minuto depois desse acabar.

As coisas não aparecem na televisão por milagre, alguém tem que as fazer.

Estávamos em velocidade de cruzeiro.

A régie estranhamente tranquila.

A escuridão da régie, cortada por luzes quentes, estrategicamente colocadas e pela luz dos ecrãs, convida a alguma tranquilidade, estranha tranquilidade, intimista, que acaba no segundo a seguir, quando tudo se transforma, quando o céu é inferno, onde há sempre um deus e um diabo.

E um mediador.

 

EU, ESTAGIÁRIO, ME CONFESSO

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É um facto: sob pressão, em situações de stress extremo, fico anestesiado.

Descobri-o hoje, na maior prova de fogo profissional, desde que me lembro.

Perdi a conta às horas.

Sentei-me finalmente no sofá.

Estiquei as pernas, em cima da mesa de centro, quadrada como este mundo cada vez mais caótico, liguei o computador e aqui estou eu, decidido a confessar-me.

Eu, estagiário, me confesso. Isso.

Em Agosto faz 23 anos que tenho carteira profissional de jornalista.

Em Agosto faz 21 anos que trabalho ininterruptamente em televisão.

Entendidos quanto a este aspecto da longevidade, confesso-me;

Ao longo deste tempo todo é fácil perceber que já fiz praticamente todas as tarefas que competem a um jornalista de televisão.

Desde um simples ticker, um lead, um off, uma peça, uma reportagem, uma grande reportagem, directos, muitas e muitas horas em directo, apresentação, praticamente tudo eu já fiz, ao longo destes anos.

Há, ainda, algumas tarefas que não farei, ser chefe ou director, por exemplo, isso não.

Havia no entanto uma tarefa, o último patamar antes tarefas que em cima mencionei que nunca tinha executado; editar jornais. Hora-a-hora, sem levantar o rabo.

Há muitos anos, lá por volta do ano 2000, quando era editor-adjunto no Desporto, editei programas, de desporto.

Realidade totalmente diferente se comparada com a edição de jornais, de hora-a-hora, sem sequer sair da régie.

Isso eu nunca tinha feito.

Nem me passava pela cabeça fazer, porque as minhas ideias quanto à minha carreira não passam por aí. Elas há muito que estão definidas.

Quando, há alguns meses, me escolheram, uma ou outra vez, para editar jornais durante manhãs e tardes, não foi uma questão de aceitar, escolheram-me e competia-me cumprir.

Eu entendo que numa organização cumprem-se instruções.

Lá fui.

Editei jornais durante alguns dias, espaçados no tempo.

Não fazia ideia de como aquilo funcionava, a dinâmica, a agilidade, a capacidade de decidir, a tensão e o stress, o auto - controlo, não fazia ideia, as sinergias supersónicas, os erros e os reparos ainda mais supersónicos.

A minha ligação com a régie sempre foi feita do outro lado.

Quando apresentava notícias sentia, por vezes, a tensão na régie, mas ela não passava para o estúdio mais que cinco porcento.

Agora não.

 

CARTA AOS PRIMOS DA FRANÇA

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Os primos que vivem em França, desde quase sempre são meus primos por afinidade.

São muitos, uma família grande, espalhada por França.

Gerações das primeiras vagas.

Mas, são família.

Unem-se uma vez por ano, pelo menos.

Quando nos visitam, em Agosto, todos os anos, conversamos imenso, ao cheiro do churrasco e ao fresco das palmeiras, em redor da piscina, sobre a situação cá e lá.

À volta da mesa há um enorme orgulho, por também serem franceses - adoro quando começam a falar francês e português ao mesmo tempo -, por tudo o que França lhes tem dado, os filhos que lá nasceram, os netos, os sobrinhos, os primos, os irmãos, os que até já serviram debaixo da bandeira tricolor.

Eles são franceses e sentem orgulho da sua história e dos seus, serão sempre portugueses, no seu coração.

A saudade que mostram estando cá, junto às raízes, imagino quando partem...

O brilho no olhar, quando falam da praia, da vizinha da avó e das laranjeiras, do peixe que pescaram no Tejo, depois de uma viagem na caravana ultra-moderna, carregada de miúdos, canas de pesca, carretos, iscos e emoções.

Aquilo tem tudo, até uma mota transporta e a cama. Deus me livre! Até tem chuveiro e wc.

Eles estão lá, são de cá, de nós todos, e não se dividem, orgulhosos também de si próprios.

Isso só se consegue sentir quando se está ao redor de uma mesa, a observá-los, sem que disso deem conta.

São os meus primos avecs.

Abecs, porque um deles até é de Fafe.

Não os trato assim desta forma, que até é carinhosa, mas trato-os carinhosamente.

Eles são a personificação do emigrante, e provam evolução (dessa) da espécie.

Não, não pense que pode começar já a atirar-me pedras; eu fui emigrante, na África do Sul, trabalhei nas minas de platina, nas refinarias, por isso calma nas análises repentinas.

É com carinho.

Eu sabia que tinha entendido, mas tenho que fazer o meu papel neste texto.

A Isabel orgulha-se das suas braceletes em ouro e da sua patroa, uma madrinha.

O Zé Manel pesca peixes gigantes aos fins de semana.

Pega na caravana, vai para um lago rodeado de um bosque e passa o fim de semana a pescar.

É freelancer, eletricista por conta própria.

Os filhos, um serviu no exército francês e é casado com uma francesa, o outro também, o terceiro, que é o mais novo, nasceu com um grave problema motor.

Hoje é autónomo e ganha a sua própria vida. Em todos os aspectos.

A tia Celeste é a patriarca. Viúva. Adora a sua terra, mas é lá que estão eles todos.

A Elsa fala sempre com imenso carinho sobre os idosos que cuida, num lar.

Acho que tem um part-time e uma casa fantástica.

O Michele é francês e casou com a Elsa há muitos anos.

Ele é chefe-engenheiro numa empresa francesa e é um tipo extremamente agradável, que percebe português, mas só consegue falar em francês.

O Louic é, juro, um Cristiano Ronaldo em potência, joga assim à maluca e é assim humilde.

Apenas é um pouco menos conversador e dado a luzes.

Estes primos não vivem perto de Paris.

A Elsa é irmã da Isabel e filha da tia Celeste. Para que conste.

A Elsa, o Michele e o Louic vivem no País Basco francês, longe de Paris, onde também vive o primo Germano.

O primo Germano é um cavalheiro.

Motorista particular, de uma família da elite de Paris, há muitos anos. Fez alguma fortuna, contactos e conquistou uma posição de respeito, embora continue motorista da mesma família.

A filha é portuguesa nascida em Paris. Casada com um francês. Um filho, nascido em França.

Portanto, uma família grande. Alguns não são mencionados porque são tantos que não recordo os nomes, apenas as caras.

Ora este melting pot de laços familiares serviu, não para baralhar, embora pareça, mas para chegar a um determinado ponto:

Portugal e França jogam a final do Euro 2016, domingo que vem.

Tal e qual.

Como é que aqueles portugueses vão viver aquele que será para sempre o jogo da vida deles?

O que sentem neste momento?

Provavelmente querem que ganhe Portugal, no último minuto, num golo inesperado, quando já toda a gente esperava o prolongamento, porque assim custa menos.

Acaba de repente e nem dá para pensar.

Talvez seja algo parecido com isto que eles estão a sentir.

É por esta razão que o que lá vai lá vai.

Aqueles dois cronistas franceses são nada perto disto tudo.

Os franceses, os franceses são aqueles que receberam a tia Celeste, há muitos anos, e que ajudaram ao crescimento de não uma, mas várias gerações. Esses, que são todos menos dois, merecem o meu respeito.

Neste momento?

Até esses dois já merecem o meu respeito.

É que desde que as seleções com adeptos fugidos de hospitais psiquiátricos foram embora começou a jogar-se à bola no europeu.

A violência deu lugar ao futebol, porque é de futebol que se trata, como é sempre, embora seja difícil as massas perceberem isso.

Por isso os outros dois quiseram e tentaram desestabilizar.

Foi ao poste!

Quando a França e Portugal entrarem em campo, eles vão estar com a mão no lado esquerdo do peito, junto ao coração, e ganhe quem ganhar, estou certo, os golos serão gritados em francês e português.

As lágrimas serão as de todos nós.

Tenho a certeza que os primos de França vão gostar desta carta.

Saudades,

Até domingo.

Deste que se subscreve,

José, o Gato.

 

( Revisão do Texto: Sara Vingadas)

 

 

É FAVOR PUXAR O AUTOCLISMO

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Ou então chamem a Inquisição ( a verdadeira) e matem todas as bruxas.

Quem nunca teve a mesma sensação que eu tenho, às vezes, muitas vezes, cada vez mais vezes, que atire a primeira pedra.

Apedrejamento;

parece-me ser uma punição muito mais leve do que viver diariamente a violência latente, no Facebook.

É isso que quase todos(as) fazemos, atiramos pedras e vomitamos ódio gratuito, na melhor das hipóteses, porque vivemos lá, mesmo quando lá não estamos.

Vivemos dentro da caverna virtual.

 

PALAVRAS, LEVA-AS O VENTO

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Começo por dizer que detesto usar títulos com pontuação, só que desta vez não tive alternativa, senão isto descambava em alguma polémica, nas redes sociais (?). Não tive alternativa. Assim fica bem, o título! Isto para lhe dizer que acho que há conversas que não se revelam, esta, por exemplo. Não vou dizer quem me pediu para escrever este texto porque, imagine-se... está com saudades de me ler. Há conversas que não se revelam e pedidos que não se recusam. Não vou dizer que, aqui e ali, sinto saudades repentinas de escrever mas, entre o momento de abrir o word e começar a divagar, por linhas que só aparentemente são direitas, esqueço-me da ideia que me empurrou para o texto, que demora sempre semanas a sair. Eu, (vírgula) pecador me hei-de confessar, um dia, um dia... Não sou profissional deste ofício, entenda, peço-lhe que entenda, por favor (esta parte já foi exagerada). Mas - também não gosto de começar frases com mas, porque insinuam logo reticências, ou uma vírgula tendenciosa -, (aqui está ela) sim, sinto saudades repentinas de escrever. Na maior parte das vezes, quem me lê, entende que escrevo sobre mim e eu não sou assim tão relevante. Na maior parte das vezes escrevo em função de pensamentos que me ocorrem, não escrevo obrigatoriamente sobre mim, aliás, quando o faço arrependo-me sempre. Escrevo muitas vezes na primeira pessoa, mas sobre outros, reais ou imaginários. Às vezes apanho uma ideia para começar a escrever, muitas vezes o texto acaba numa outra estrada qualquer. O vento já não leva mais as palavras sem qualquer vírgula que as amarre à boa consciência. O paradigma mudou. Basta olhar a realidade (hiper-virtual). O vento já não leva as palavras, nunca mais. Na verdade, como noutros tempos, a escrita não se deixa levar pelo vento, mesmo quando folhas rasgadas esvoaçam. Agora tudo é diferente porque as palavras são digitais e que se saiba o vento ainda não tem formação em social media. Por isso, escolhi este título, por isso, decidi digitalizar aquilo que ouvi esta manhã. Eu não queria acreditar. A conversa será longa, mas fica digitalizada (espero que não acenda mais nenhuma polémica, sobretudo por parte dos defensores de tudo e mais alguma coisa, mas também dos jihadistas virtualmente convencidos, acredito que não, como mais à frente se provará), para que alguém a possa usar daqui a uns anos, sobretudo quando eu me finar. Começo pela Queen Mary The Second! Podia ser o nome de um paquete de luxo, mas é o nome da minha mota. Contaram-me que ela se tem queixado imenso, dos camiões grandes que a ultrapassam quando ela vai lançada nuns vertiginosos cem à hora, da privação do banho, começa, disseram-me a ficar toda esticada. Ah, e tal, tu fazes muitos quilómetros por dia, como se uma mota fosse para ficar quieta. Esta gente não sabe o que é rasgar asfalto - com a sensação que se está parado. Nunca correram, na vida (estou a brincar, olhem as polémicas). Contaram-me que Queen Mary II (chamemos-lhe assim, para facilitar a compreensão e poupar caracteres) começa a ficar farta de ter a bagageira cheia - por favor, nada de segundos sentidos, a polémica...), ele é luvas, cachecóis, capacetes, fatos de chuva, panos, documentos, e aquele cheiro que só nós conhecemos. Fui falar com ela. Não a quero em sobressalto. - Diz-me lá então o que te inquieta. - Oh pá, não é nada... - Oh pá?... - Cuidado onde metes as reticências. - Meto onde me aprouver. - Aquele cheiro... - Não me digas que estás a criar todo este assunto por causa de um cheiro característico que só sentes de tempos a tempos? - Se achas que cheiro a luvas de box... - Desculpa interromper-te, vamos partir de um princípio; ofensas não! - Estás como o outro? - O outro sou eu, ok? - Ok. Dizia eu, aquele cheiro incomoda-me, mas eu suporto-o. - Então, para quê tudo isto, minha rainha? - Parece que não vês as redes sociais. - Como assim? - Polémicas todos os dias, com prazo de validade, outras já fora de prazo. - És fútil, às vezes, nem te reconheço, não és a mesma que passou de 9 mil quilómetros para 11 mil em apenas um mês... - Isso não é ofensa? - Desculpa, as palavras... - Pois, o vento, não é? - Adiante. - É melhor, dizia eu, o cheiro incomoda-me, mas eu aguento, o que não aguento mais é ouvir as conversas entre aqueles quatro. Aqui, nesta fase da conversa semi - cerro os olhos, faço aquele ar pensativo-perspicaz-charmoso(?). - Quais quatro? - As tuas sapatilhas amarelas e as tuas luvas amarelas e pretas. - Pelo amor de deus, o meu reino pela paciência... - I´m your queen... - Tu só podes estar a brincar, montas uma confusão destas, quase quase a raiar a polémica... - Sim, porque isto é um blog mas não deixa de ser um social media. - Rede social, pá. - Eu gosto de falar estrangeiro, às vezes até gosto. Não criei esta polémica para nenhum fim que não o de levar ao teu conhecimento o meu desagrado com esta situação. - Mas, Queen, é raro eu levar o equipamento de Muay Thai, muito menos junto com o equipamento para correr... - O tanas! - Só uma vez levei isso tudo e até consegui meter as caneleiras lá dentro. Estás a ser injusta. - Estou, ai estou? Pois olha, meu menino... - Ui... - Estou farta que me enchas a bagageira. - Queen, querida, cuidado com o português. - Quero que o português se... - Mau, mau, é melhor respirares fundo, é melhor, senão ficamos já assim... - No auge da polémica? - Mas qual polémica? - A do cheiro que os teus artigos desportivos me provocam, dá-me náuseas. - Vamos lá ver se nos entendemos, primeiro aguentavas o cheiro, que diga-se de passagem, suportas umas quê? Umas duas, três, quatro vezes por mês. Estavas habituada a andar de casa para a loja, pouco mais... - Eu fui uma vez a Santiago do Cacém. Bem bonita a viagem, por acaso. - Ainda bem, assim pelo menos não te queixas dos quilómetros que tens que fazer. - Nunca me queixei disso. - Eu sei. Peço que tenhas paciência, vou evitar que as luvas e os ténis... - Só mesmo em caso de necessidade extrema. - Combinado, prometo que assim será. Vai-me ser difícil correr antes do treino, mas eu cedo nisso. - Óptimo. Vamos então ao que interessa. - Mais? - Claro. Tens que falar com as tuas luvas e com as tuas sapatilhas... - Lá em cima chamaste-lhes ténis. - Sapatilhas, para não se ofenderem. Solto uma enorme gargalhada. - Foste passarinha. O vento já não leva as palavras, não leste o que te disse? Está digitalizado. Eu é que não quero mandar para o Google, mas estás nas minhas mãos. - O que é isto? - É isto que te digo. Ponto final nas tuas exigências. - Mas, eu limito-me apenas a pedir-te gasolina, depois faço tudo o que tu queres, levo-te a viajar... - Grandes viagens, auto-estrada, rajadas de vento e o camandro. - Pá, camandro é uma palavra... - É o quê? - Calma, estás tenso. Vai lá directa ao assunto, que as pessoas querem ir fazer outras coisas. Já vamos em três páginas A4. - Então, fala com os quatro... - Vamos simplificar; uns sem os outros são ninguém, como em tudo. Passemos a quantificar humanamente. São dois, dois pares, não é como as cuecas que dizem que são pares, nunca vi duas cuecas numa só. Dois pares é mais humanizado e imagina a quantidade de diálogos que se poupa. - Por mim pode ser. Pá, estou cansada, farta, chocada, indignada, com as conversas que tenho ouvido, ainda que só por algumas vezes. Tem momentos que não quero acreditar. Aquilo é uma ciumeira. - A sério? Costumo utilizar esta expressão quando quero mostrar-me surpreendido, sem que o esteja ou seja. - Aquilo é deprimente, doentio. - E em que é que posso ajudar, em que é que uma conversa entre mim e eles poderá ajudar? - Porra, tu és o boss! - Que violência, nossa! Para quê o porra? - Para te mostrar, com veemência, toda a minha indignação e protesto. - Vamos em quatro páginas A4, eu próprio preciso de ir dormir depois de ver mais um documentário no Netflixónaite. Vamos fazer assim, eu vou falar com eles, os pares, e com elas, as luvas e as sapatilhas. Quanto ao cheiro, não prometo mais do que já te prometi. Quanto ao resto, amanhã digo-te como correu a conversa. Vou ouvir as gravações. Por fim, amanhã voltamos à estrada. - Elas vão? - Amanhã não. Só o capacete, as luvas, o cachecol, os documentos... - Não te esqueças de mencionar a mini-caixa de ferramentas. - A mini-caixa de ferramentas, o pano, nunca percebi porque é que o teu dono usava um pano azul bebé. - Podia ser castanho. - Não tem a ver com a cor, mas com o uso a dar à coisa. - Deve ser para limpar as mãos ou assim. Garantes que amanhã elas não vão? - Dou-te a minha palavra. Estás de papo cheio. - Aqueles dez euros de 95 octanas com aditivo for um manjar dos deuses. - Este fim de semana a ver se te dou banho. - É pá, adorava. mas garantes que elas não vão? - Outra vez?! - Então, vá... - Seja feita a sua vontade, dona Queen Mary II. Amanhã até dás 120. - Já dei. - É verdade. A outra nem lá perto. - Olha, agora é que estragaste tudo. Estiveste aqui quatro páginas A4 só para me provocar. Chegaste aqui, onde querias, estás satisfeito? - Cinco, cinco páginas A4. Até amanhã. - A tua sorte é que eu gosto de te ler. - Tá bem!

ERVAS AROMÁTICAS, TERNURA E SAUDADE!

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A casa da avó continua igual.

A laranjeira continua a precisar que alguém suba ao escadote, de tempos a tempos,  para apanhar as laranjas, como faziamos aos fins de semana, os limões continuam a encher de perfume as nossas mãos, quando os colhemos, as rosas continuam a parecer que passaram por um filtro de saturação do Instagram, lindas, simples, como tudo ali, naqueles metros quadrados.

Havemos de trazer pedacinhos de madeira e pinhas e lenha e fósforos queimados, para arder na nossa lareira. Ainda hoje te pergunto onde é que ela arranjava aquilo tudo e tu respondes-me, como sempre, que não fazes ideia.

Ontem, quando lá foste, não te acompanhei. A avó já não nos abre a porta, mas a casa continua igual, sem ela. Eu é que não costumava apanhar laranjas, só no início, lembras-te?

Por isso não fui.

Os cheiros, as imagens, os sabores, são-me emprestados, na verdade não são meus.

A laranjeira, o limoeiro, a roseira, os alecrins e tudo o resto que cheira a nós, a ela, à planície, ao sol, ao nosso campo raso de água.

 Eu sei isto tudo porque quando chegaste a casa trazias contigo todos esses perfumes de uma vida inteira, colados com saudade.

Deitaste-me a adivinhar, num jogo-surpresa, para o qual eu não estava preparado.

Adivinhei a hortelã.

Essa era fácil, conheces-me tão bem que sabes que a primeira é sempre fácil.

Começaste a ficar curiosa, quando adivinhei a hortelã, ainda assim, confessa.

A hortelã do quintal da avó tem um cheiro único, por isso não era nada fácil.

O  alecrim dá no mesmo.

O alecrim do quintal da avó cheira diferente.

Confesso que adivinhei, mais pelo aspecto, que não sou parvo, apenas maluco, do que pelo perfume que se misturava.

Só depois associei tudo.

E, quando adivinheio o poejo?!

Diz lá, não ficaste admirada?

Logo, um tipo como eu!

Conheces-me como ninguém, melhor do que a avó conhecia as ervas aromáticas, as frutas das árvores, o cantar dos pássaros, o nascer e o pôr-do-sol.

Conheces-me melhor do que eu me conheço, e olha que já me conheço há imenso tempo, tanto que me fartei de mim mesmo, às vezes farto-me de mim. Não acredito que não te fartes de mim, às vezes!

Também não sei se te dás conta que conheço-te, também, como mais ninguém, se calhar como tu não te conheces.

Talvez não te dês conta, mas acreditas em mim, porque eu acredito em ti.

Ontem, quando chegaste a casa e me colocaste todas aquelas perguntas sobre furtos, ervas, árvores e saudades, juro que enquanto te escutava, uma pergunta se formava dentro da minha cabeça.

Era óbiva. Era óbvio.

Foi a primeira vez que foste a casa da avó, apanhar laranjas e flores e ervas e amor, depois de ela ter fechado a porta, tranquila e suavemente.

Foi um momento, sei eu, só teu e dela.

Mal entraste em casa, na nossa casa, senti que vinhas feliz, via-te no sorriso, no olhar, nas perguntas que nunca me fizeste sobre alecrins, poejos e hortelãs.

Nas histórias das laranjas, e dos miúdos pequenos empoleirados no escadote, nas histórias dos gatos que saltavam o muro, das vizinhas que ficaram mais sós.

“Olha, sente, todo o cheiro do campo!”, disseste-me.

Estive para te responder que estava a sentir o cheiro do amor inteiro, como o nosso, eterno, como esse campo que nós imaginamos, cheio de sol e sorrisos, que nos afaga quando estamos em tormento.

Era para te responder isso, mas não me saiu.

Era para te perguntar sobre a saudade, mas não me saiu.

“…E tive saudades dela”,

disseste, de repente, numa surpresa que eu aguardava, com todo o contra-senso que é uma supresa aguardada, como quando partimos, tranquila e serenamente.

Não sei se percebeste que fiquei com um nó na garganta, que me limitei a confirmar os perfumes e os odores da nossa vida, porque somos gente da planície e do campo que cheira bem, que não tive coragem de te falar da saudade, que quase não te olhei fundo.

Tu, há muito que me conheces. Tu, há muito que sabes que choro com facilidade, raramente em frente a ti. Foi por isso, eu sei que sabes, o meu silêncio foi por isso.

Também tenho saudades dela.

Mas sei, sei muito bem, que ela tem saudades tuas e que ainda não parou de sorrir, ternamente, como nos habituou este tempo, e no outro, e sempre.

Sei muito bem que foi por isso nunca perdeste o teu tímido sorriso, mesmo carregado de saudade.

Ontem, ontem cheirei, vi, vivi isso tudo, ali, na nossa cozinha, naquela pequena fracção de tempo, enquanto tiravas do saco a hortelã, o alecrim, o poejo, as laranjas e os limões e as rosas.

Desta vez não trouxeste as pinhas, os pauzinhos, os fósforos queimados, para fazer fogo na nossa lareira, porque a avó já não nos abre a porta, porque nós não sabemos sequer onde é que ela os ia apanhar. Só por isso, eu sei, meu amor.

Meu amor!

Surpreendi-te, ao dizer isto assim, para toda a gente ouvir?

Sabes que, como disse lá em cima, ou insinuei, em outra parte deste texto, sou maluco mas não sou parvo e sou sério, nestas coisas do coração, sobretudo.

Não se brinca com os afectos.

Então, vou surpreender-te outra vez:

Há 18 anos, quando entraste, vestida de branco, pela mão da tua mãe, na igreja onde sonhaste casar, eu pasmei. Nunca te tinha visto tão mais linda, como naquele fim de manhã.

Há 18 anos, quando saímos, já juntos, a tua na minha mão, pela porta daquela igreja, enquanto nos molhavam com chuva de arroz e flores, como manda a tradição, eu sussurrei-lhe ao ouvido:

“Avó, prometo tomar conta da sua menina para toda a vida”.

Ela olhou-me, de baixo para cima, com aquele olhar silencioso, abriu o sorriso, aquele sorriso permanente que ela tinha, passou-me a mão direita na cara, fez-me uma festa, em silêncio, como só ela sabia fazer e eu percebi que ela depositava em mim tudo o que faltava.

Ainda agora sinto a sua pele macia no meu rosto.

Ternura adoptada.

Tamanha responsabilidade a minha.

Tamanha tarefa a minha.

Meu amor, que o amor deve ser gritado sim, não sei se consegui, não sei se falhei, não sei, juro que não sei, ela me julgará.

Das coisas certas só tenho uma; a casa da avó continua igual.

Enquanto os cheiros do campo se espalharem  no ar, enquanto as laranjas continuarem laranjas e gordas, enquanto os limões continuarem amarelos e ácidos, enquanto o poejo, o alecrim e a hortelã cheirarem ao quintal dela, enquanto as unhas ficarem sujas de terra, enquanto a saudade se mantiver assim, bela e perfumada, enquanto isso acontecer eu continuarei a gritar o amor, para que ela consiga ouvi-lo, sem dificuldade alguma.

Das coisas certas é a única certeza que tenho.

Passaram 18 anos.

Só o tempo passa por nós.

Nada mais que isso, meu amor.

 

 

JÁ ESTÁ A DAR A GUERRA DOS TRONOS

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Ainda estamos em liberdade.

Faltam oito minutos para o dia depois da revolução.

Os capitães já recolheram aos quartéis, por esta altura.

Nas redes sociais não morreu mais nenhum famoso.

A nova saga da Guerra dos Tronos assumiu o posto de comando, por volta das dez da noite.

Mas, ainda estamos em liberdade, pelo menos nos próximos cinco minutos.

E, se há coisa com a qual sou intransigente é com a liberdade, pese embora nos últimos anos ter sido obrigado a fazer algumas concessões, uma ou outra.

Mas, como diz a senhora dos programas, isso agora não interessa nada.

Ou talvez interesse, porque acabámos - estamos a minuto e meio - de celebrar a liberdade.

Os que por ela lutaram

Todos os que dela fazem uso.

Os que a defendem, enquanto tal.

Os que nem por isso.

Cliché, dizer que a liberdade até permite que a mal tratem, mal digam, um pouco como a democracia, que são coisas diferentes.

Não partilho desse ponto de vista.

Obrigo-me a aceitar quem não quer esta liberdade, apesar de ser a única que viveu, mas não aceito leviandades de tamanho calibre.

A liberdade permite-me isso; apontar aos que não a querem e, para algum espanto, não são em número tão reduzido como isso.

Não partilho este ponto de vista, porque apesar de ter vivido praticamente cinco anos em ditadura, tinha quase cinco anos (sempre fui muito precoce), é desse tempo que tenho memórias mais frescas.

Se fosse do Entroncamento era um fenómeno.

 

A MÁQUINA DOS MILAGRES

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Há sítios que deviam ser de visita obrigatória, para todos os seres humanos.

Sítios que são de visita obrigatória, para alguns seres humanos, que o azar não bate só à porta dos outros.

A vida às vezes mete-nos perante histórias, não por acaso, para que tenhamos permanente consciência do nosso tamanho real, pequeno, muito pequeno, por muito grandes que entendamos ser, ou que assim nos vejam.

Somos todos pequenos perante os acasos da vida, por muito grandes que sejamos, até mesmo nesses momentos.

Eu nunca tinha estado no centro de recuperação de Alcoitão - como é conhecido -, que fica ali para as bandas de Cascais.

Foi um acaso que me levou a passar as portas, para o lado de dentro.

Aquilo que eu pensava ser "um centro de recuperação" era afinal um enorme edifício, um hospital, onde centenas de pessoas tentam resgatar a própria vida, onde centenas de funcionários dedicados tentam empurrar esses guerreiros e guerreiras do infortúnio para uma estrada maior e mais longa, sobretudo mais bela.

Ali, não falta nada, ou praticamente nada.

Ali, milhares de pessoas dão tudo aquilo que podem dar, uns de um lado, o da esperança, outros do outro lado, o da coragem.

Vi uma máquina que me impressionou, que consegue executar movimentos tais, que a senhora de meia idade, que não anda, estava a caminhar, com a ajuda dessa máquina.

A máquina replicava os movimentos, e o corpo, e o cérebro, recebiam e executavam as ordens.

Os funcionários do centro de Alcoitão estavam felizes, via-se-lhes a felicidade nas caras. Era dia de festa, embora ali o trabalho não páre.

O centro comemorava 50 anos de existência, naquele dia.

Quando foi construído, pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, com dinheiros do Totobola, o centro tinha como objectivo ajudar a reabilitar os mutilados da guerra do Ultramar.

Cinquenta anos depois, já não há guerra na África portuguesa, mas há batalhas, algumas violentas, que se travam ali dentro, todos os dias.

Na tarde desse dia, o centro ia receber um robot, na sequência de uma parceria com a Microsoft.

Esse robot faz o mesmo que a máquina dos milagres ( " só utilizamos esta máquina em pessoas que têm as mínimas probabilidades de voltar a andar, as que não têm não podemos fazer nada, nem criar-lhes expectativas irreais", disse-me a coordenadora da Fisioterapia), só que vai permitir que, de facto, as pessoas andem,se desloquem, que é diferente de andar.

Ele tem uma bateria nas costas, é uma espécie de fato completo, até aos pés e recria os movimentos que permitem caminhar. O paciente caminha.

O cérebro recebe os impulsos e assim poderá dar-se um milagre. Ali têm acontecido alguns milagres, ao longo destes 50 anos.

Porque é de coragem e milagres que se vive ali dentro, de amor e carinho pelos outros, de imensa competência e dedicação.

Eu sei que ali acontecem milagres.

Eu vi.

Tinha terminado um directo, no centro de Actividades Domésticas Diárias.

Dentro daquela sala aprendem-se coisas que já se sabiam, mas que deixámos de saber fazer.

Tomar banho, fazer a barba ou simplesmente voltar-se na cama.

Tão fácil, não é?

Não o é para quem teve um AVC, ou um acidente de viação, as principais fatalidades que atingem os pacientes do centro.

Para nós é!

Virar na cama é algo que fazemos sem sequer pensar no acto.

Que nunca tenhamos que voltar a aprender esse gesto tão natural, como respirar.

Foi um directo intenso, um banho de humildade, de humanidade, enquanto tentava manter vestido o fato de jornalista, afinal foi nesse papel que lá fui.

Mas, os super-homens e as super-mulheres são aqueles(as) que lá estão dentro, revolucionários destemidos de uma revolução que é só deles.

Nós somos outra coisa.

Eles(as) são só gente muito corajosa.

Não vi ninguém com rosto carregado, mas fiz a pergunta: não há momentos de revolta?

"Há", responderam-me, "mas nós estamos cá para que eles deixem de estar presentes".

Aquilo que me acabavam de dizer fazia todo o sentido, momentos depois.

Abro a porta da sala, saio para o longo corredor, com azulejos pretos e brancos, quadrados que comungam as mesmas rodas das mesmas cadeiras, as mesmas pontas das mesmas muletas, que por eles passam.

Ninguém com rosto carregado.

A sala ficava a meio do corredor grande e ocupado.

Gente para um lado, para o outro, a azáfama de um corredor de "hospital".

E eu, ali parado, a meio da viagem.

"Gabriel, Gabriel..."

Não lhe reconheci logo a voz.

Voltei-me, olhei, olhei de novo, para baixo, não lhe reconheci a voz, mas nunca tinha esquecido o seu sorriso e o seu olhar.

Reconheci-o de imediato, ainda que sentado naquela cadeira de rodas.

"Quiko?! Meu querido amigo, há tanto tempo...".

Demos um abraço, como so bons amigos dão.

O Quiko é primo do Olivinho.

Eles eram os meus melhores amigos, num bairro onde vivi, enquanto era miúdo.

Eles, os irmãos, os primos, e os outros putos do bairro. Eram todos caboverdianos.

Mas, o Olivinho era especial.

O Quiko era ainda mais especial que o Olivinho.

Veio-me logo à memória as longas horas de conversa, sobre as cerejas, sobre o campo da escola, sobre os desenhos animados. O Quiko (como o Olivinho) jogavam tanto à bola...

O Quiko nunca se chateava, com nada, nem com ninguém, estava permanentemente a sorrir e, tal como nesta manhã, trinta anos depois, o Quiko falava naquele tom calmo e baixo, e o olhar emanava, como há 30 anos, aquela candura, que me acompanhou ao longo da vida.

Durante 30 anos eu não vi o Quiko, nem soubemos nada um do outro.

naquele instante feliz, eu estava a trabalhar, ele estava a tratar da vida e da recuperação, por isso a conversa foi curta, os abraços não tanto.

Fiquei a saber que teve um AVC, em Janeiro, e que lhe faltam 3 meses para sair do centro.

Nunca imaginaria o Quiko vítima de um AVC, ele cuidava-se, era desportista, tinha vida e talento, mas 30 anos é muito tempo.

Não tive coragem de lhe perguntar se lá deixará a cadeira de rodas, mas hei-de tê-la.

Fiquei só a saber isso sobre ele, e que vive em Alverca.

No dia seguinte enviei-lhe um sms.

Vamos marcar qualquer coisa, com a promessa implícita que vamos recordar essas conversas, esses jogos da bola, essa cachupa que a dona Ani fazia.

Ele já me respondeu, que sim. Que bom.

Era a última pessoa que eu imaginava ali.

O Quiko perdeu-se então entre a multidão de pessoas que cruzavam aquele corredor, feito de azulejos pretos e brancos, depois de mais um forte e sentido abraço.

Percebi que ele estava surpreendido. Eu também.

Surpreendidos, porque pareceu que estivemos a jogar ao berlinde os dois, durante estes 30 anos, que nunca nos separámos e que aquela cadeira de rodas não existia.

Eu tinha mais uma entrevista para fazer.

O Ruben estava à minha espera.

Mas, eu não estava à espera dele.

Sabia que haveria de entrevistar (em directo) um miúdo, a quem a vida pregou uma partida.

Às vezes, a vida devia prestar contas em tribunal, tamanha é a injustiça que ela se dá ao luxo de nos colocar pela frente.

O nó ainda não se tinha desfeito na minha garganta.

 

Estava a ser uma manhã de lições de vida, umas atrás das ouras.

O tal directo com o Ruben já não era viável.

Faltava-me entrevistar o responsável pelo laboratório de próteses e sala de experiências.

Entrei, cumprimentei-o, e ao homem em cadeira de rodas, que passou junto a mim.

Também cumprimentei um miúdo que estava sentado numa cadeira de rodas, com os braços apoiados em duas barras de inox, que auxiliam a marcha, nas quais os pacientes se apoiam.

"Este é que é o Ruben", indicou-me o terapeuta.

" Já vi que és famoso por aqui, Ruben...", disse-lhe, com o meu melhor sorriso.

Ele devolveu-me o sorriso.

Depois da entrevista ao terapeuta o meu trabalho estava concluído, a equipa de substituição tinha chegado, era hora de despedidas.

"Então, não me entrevista?", pergunta-me o Ruben.

Abeirei-me das duas barras de inox, onde ele apoiava os braços, baixei-me para ficar ao nível dele, observei a prótese na perna esquerda, as cicatrizes nos braços, a cara, fitei-lhe a cara e pensei, meu deus, que coragem tu tens nesse olhar, nesse rosto, nesse sorriso, nesse coração. Mas, não lhe o disse.

 - "Sobre o que é que não queres falar, para eu não te perguntar?"

- "Posso falar sobre tudo, não tem problema".

- "Que idade tens?"

- " 15..."

- "O que é que te aconteceu?"

- "Fui atropelado por um camião, em Janeiro".

- "Quanto tempo te falta para saires?"

-"Dizem que 4 meses..."

Neste momento eu não estava a conversar com o Ruben, estava a conversar com ele, com os meus filhos, com o Rodrigo, com a Maria, com os amigos deles, estava a conversar com um ser humano, com toda a vida pela frente, a quem a vida quis desafiar.

Eu sei que ele vai ganhar o desafio. Vi!

Foi neste momento, depois de tudo, que me deixei ir abaixo.

Mantive, fruto da experiência, o fato de jornalista vestido, mas era eu quem ali estava a entrevistar todos os Rubens da vida.

Confesso que estava toldado pela tomada de consciência;

Os horários, a pressão, as contas, as relações, o trabalho ou a revisão do carro, tudo isto é humilhante, quando pela frente temos pessoas com tamanho carácter, coragem e determinação, tudo pela vida.

Foi toldado pelas pessoas e pelo ambiente, que cometi uma gafe, que só eu dei conta, nem o Ruben.

- "O que é que te move, Ruben?".

Imediatamente tive vontade de fugir dali para fora.

- "Andar, caminhar, é esse o meu objectivo. E vou conseguir".

A resposta desmontou tudo.

O que me fica para sempre não é apenas esta frase, esta resposta.

É a forma como ele me disse aquilo.

- "O que é que te move, Ruben?".

Ele olhou-me dentro dos olhos, respirou fundo, sorriu, voltou a respirar fundo e respondeu-me:

- "Andar, caminhar, é esse o meu objectivo. E vou conseguir".

O Ruben deu-me o exemplo. É nele que pensarei sempre que pensar que tenho problemas sérios para resolver.

Foi ele que me ensinou que eu sou minúsculo.

O Ruben tem a idade dos meus filhos e toda a vida pela frente.

Eu também sei que ele vai conseguir.

Gostava de um dia ter visto o Ruben a jogar futebol, a correr, a saltar.

Vi-lhe apenas a força do olhar e a ternura do sorriso.

Entretanto, o Quiko mandou-me uma mensagem:

"Boa noite meu velho amigo, será uma honra reencontrar-me contigo. Aquele abraço, noite feliz".

Não sei se o Quiko me desejou votos de felicidade, através de um sms escrito, sentado na sua cadeira de rodas, nem por sombras sei se o AVC o deixou afectado, ou se recuperará totalmente.

Sei que talvez não tivesse tamanha nobreza no coração, como o Quiko sempre teve, não na sua situação.

Sou um fraco.

Preciso de gente com coragem.

Acho que vou convidar o Ruben para se juntar a mim e ao Quiko, para a nossa conversa de uma vida.

Acho que juntos vamos fazer um brinde a essa vida.

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Hoje de manhã, enquanto fazia a habitual corrida pensei nos dois.

Agora vou fazer o segundo treino do dia.

Vou até à minha segunda família treinar Muay Thai, e estou, como se prova pelo texto, a pensar nos dois, no Ruben e no Quiko e na lição que me deram.

Porque eu posso ir correr de manhã e treinar Muay Thai à tarde.

Duas coisas que parecem tão naturais, que parecem que fazem de nós "super-homens", à vista dos outros. Duas coisas banais, como nos virarmos na cama, ou caminhar.

Mas, não o são, nada disto é assim tão banal quanto parece.

Pergunte ao Quiko ou ao Ruben!