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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não é um blog sobre gatos.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não é um blog sobre gatos.

O BOSQUE ENCANTADO

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FOTO: THE CAT RUN

 

 

Acordámos cedo.

Agora, depois de velho, comecei a ir ao pequeno-almoço, nos hotéis. Antes, gastava o tempo, gota-a-gota, na cama.

É uma espécie de doença; a cama.

Agora, não. Agora levanto-me e costumo ir ao pequeno almoço.

Eu adoro hotéis.

A Carla comeu aquilo a que tinha direito, sorte a dela que não engorda, que consegue correr depois de comer. Eu não.

Eu ou não como, ou como quase nada, quando corro.

Comi uma salada de frutas, um mini-pastel de nata, um chá e um sumo de furtos vermelhos.

Um café, no fim, e estávamos prontos.

 

INDO EU INDO EU, A CAMINHO DE VISEU

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FOTO: THE CAT RUN 

 

 

Ontem fiz a viagem para Viseu, onde vou participar, este domingo, na “Corrida da Emoção”, a convite do Paulo Costa, da Global Sport.

Um notável amigo, um notável amante do território e das pessoas que o fazem.

Mal sai da televisão fiz-me à estrada e, felizmente, falhei a saída para Viseu, distrai-me e fui dar a um restaurante, onde matei uma sandes de leitão. Felizmente por isso, bem entendido.

Voltei para trás e dei com a saída para o IP3.

PERDER PESO? CORRA OU EDITE TELEJORNAIS

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FOTO: TEH CAT RUN

 

 

Tem dias.

Dando como adquirido que a minha profissão é de desgaste rápido, umas vezes vou praticar exercício, outras não consigo. Todas as vezes preciso.

Quando termino uma corrida, normalmente, a minha boca está seca.

Uma hora, pouco mais, ou mais de duas horas, raramente, é quanto duram as minhas corridas. Faz sentido terminar seco, exausto, transpirado.

Estar fechado dentro de uma régie de televisão durante quatro horas seguidas produz efeitos ainda mais devastadores, para além dos que acontecem quando corro.

Fazer régie, edição, em televisão assemelha-se também a um treino de circulares, no Muay Thai, à medida que vais avançando começas a sentir uma força invisível que te suga toda a tua energia interior, em poucos minutos.

Terminas sem saber de que terra és.

Sempre que faço régie tenho estes sintomas desde o primeiro genérico até ao último.

Vou sentido a energia a ser-me sugada, ao compasso das horas que passam a uma velocidade estonteante, não deixando de ser quatro horas de tempo.

Ali, a decisão não é ao segundo, é ao nanosegundo.

Ali, as decisões são tomadas na mesma cadência que a de um ritmo de três minutos por quilómetro, em passadas rápidas.

Ali, ouvem-se imensas vozes, cada uma a solicitar uma resposta, que só pode ser dada à vez, o contrário é-me humanamente impossível.

Ali, ao segundo, a cada passada rápida, és obrigado a estabelecer as prioridades, quando tudo é prioritário.

Também na corrida geres o teu esforço, o teu ritmo, a tua concentração, as tuas prioridades, porque tens um objectivo.

A grande diferença é que ali, uma decisão errada acaba com tudo, e são tomadas largas dezenas de decisões, ali, na corrida podes errar, gastas mais tempo, ali, não podes gastar mais tempo que aquele que te dão.

Dão-te tempo para gerires.

Já alguma vez se imaginou a gerir o tempo?

Eu já.

Ali, e quando corro.

Garanto a tremenda responsabilidade que é gerir o tempo.

Até aos deuses do tempo, não me custa a acreditar.

Na corrida a decisão está tomada, é só uma, chegar ao fim.

Na régie a decisão está tomada, só depois se chega ao fim.

Por isso, todos os dias, quando saio do trabalho preciso de correr, de fazer exercício, do Muay Thai, corrida e Muay Thai, gostava de fazer ioga, mas já não tenho tempo.

Faço a gestão do tempo que me dão, mas não consigo gerir mais o meu.

Saio de lá sempre de rastos, com a boca literalmente seca, como disse, com a cabeça maior que um disco externo de 10 teras, com as pernas amassadas de estarem sentadas, com a pressão das artérias cheias de campaínhas e alarmes vermelhos, até os olhos...raiados.

Mas há dias, como o de hoje, que o tempo me sugou tanto, essa força invisível,embora mensurável,  que não tenho mais energia para me reconverter, reencontrar, correr, ou pensar.

Escrevo.

Plano B.

Sei perfeitamente que só consigo contrariar esse estado de pós-combate, encostado às cordas, se for mexer-me, expirar, libertar, eu, sozinho, até ficar tão mais cansado, que me permito agradecer-me e esquecer o cansaço que ali me levou. Chamam-lhe stress.

Alguém terá que se cuidar, porque eu reinvento-me, com truques que eu próprio invento, pois de outra maneira nunca conseguíria chegar ao fim e cortar a meta.

Passar o cartão pelo torniquete e levar com o fresco da noite pela cara é como cortar uma meta.

Estou a ver que tenho que começar a levar proteína, L-carnitina, bebidas isotónicas e se calhar umas barrinhas energéticas, para a régie.

E, porque não, partilhar a actividade num app, como faço com a corrida.

Ou então, nada disto e sou eu que estou a inventar.

Pelo sim pelo não, amanhã levo uma barrita energética, para a régie, e um shot de L-carnitina, pelo menos vou à confiança.

Pobres dos meus colegas...

 

A EVANGELIZAÇÃO

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Hoje não fomos correr.

Saímos do trabalho com uma hora e pouco de diferença, trabalhamos juntos, oh deus, é verdade, e a meio da tarde já lhe tinha perguntado (é inevitável misturar o pessoal com o profissional, quando se trabalha junto há uns 17 ou 18 anos, todos os dias, no mesmo local), vamos correr a que horas?”.

Hoje acho que não vou”, respondeu-me.

“Ok, achas que consegues o off para abrir o noticiário das 16 horas?”.

“Claro, e vai à bolsa que estão lá mais dois off´s e um vivo”.

Ainda levantei a questão da corrida de domingo, mas fui imediatamente confrontado com um facto indesmentível, como que a dizer, vamos trabalhar:

“Nos últimos 30 dias fiz 26 corridas, hoje vou descansar”.

Contra factos, diz o povo, não há argumentos.

O povo tem sempre razão, mesmo quando a não tem.

Efectivamente, já lhe noto os gémeos mais torneados, as ancas mais sólidas.

Mas, eu sou toldado pelo passar dos tempos, juntos, suspeito, por isso.

Mas, nota-se.

Sentados nos sofás da sala, ela falava com alguém ao telefone.

O filho chegava mais tarde, do treino.

Aproveitava, ela e eu, o momento de pausa.

Puxei a box atrás e comecei a ver a entrevista da deputada Mariana Mortágua.

Vou ser sincero; já a apreciei mais.

Até já me identifiquei com ideias dela, mas os trejeitos, os olhares, o desdém, as expressões, que é o que mais conta na comunicação, começam a fazer-me olhar para ela com alguma apreensão.

Por isso quis ver a entrevista.

Enquanto se trocavam os primeiros argumentos, a meu lado, uma conversa.

Normalmente não escuto as conversas dos outros, mas aqui foi inevitável.

Uns dois metros nos separavam, de um sofá para o outro.

Baixei o som da televisão e meti-me à escuta.

Portanto, vou divulgar uma conversa que ouvi.

Com autorização.

Transformo-me neste momento num verdadeiro e consentido cusco.

Não fomos correr, mas a conversa era sobre corrida, exercício.

E, o que eu gostei do que ouvi, da conversa, porque da entrevista pouco vi.

Quero dizer, olhava, mas não ouvia.

O meu interesse era outro.

A conversa versava mais ou menos dentro desta ideia;

“É muito bom, a todos os níveis”, isto a propósito de ser confrontada com o facto de “nem sequer 200 metros fazia, por dia”, pior, “quando subia as escadas chegava a arfar”.

Observei os trejeitos de Mortágua, e o olhar, continuei a escutar a conversa, ao telemóvel.

“Em 30 dias consegui fazer 26 corridas”, mas o inverno está à porta, e à noite só correu umas duas vezes, comigo.

“No inverno vou para o ginásio, meto o saco no carro e sigo”, eu também acho que é o melhor, porque “de manhã, se não tiver tempestade, ainda vou, mas ao fim do dia...”

Bem sei o que é isso de vir do trabalho, rumo à lareira e aos cobertores, mas parar, para trocar de roupa, enfrentar o frio e a chuva, o escuro e o suor, muito mais difícil que ir de manhã.

Fiquei a saber que (ela) nunca funcionou tão bem, que nota diferenças, na pele, na respiração, na concentração, na verdade, sem saber, ela está é a queimar etapas.

Há-de dar-se conta, no domingo que vem.

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“Bebo mais água”, ouvi-lhe, “tenho semanas em que descanso um dia, mas tento manter a frequência”.

Olhei para a televisão, sem som, e por momentos pensei escutar uma outra pessoa, alguém que não conhecia.

E, continuava a gostar do que ouvia.

A explicação sobre o facto de os filhos já quase serem independentes nas tarefas, o que liberta o tempo e a agenda, os horários dos ginásios, já iam em hipotéticas fórmulas para gerir os intervalos do tempo, fazendo exercício.

Por exemplo, depois de deixar os miúdos na escola, até seguir para o trabalho.

A conversa acabou com gargalhadas. As dela, as da pessoa que estava no outro lado da linha, e as minhas.

“Um destes dias vamos aos...aos jogos olímpicos dos reformados, não, dos séniores, não, não, dos veteranos, isso, qualquer dia estamos tão em forma que vamos a uns jogos olímpicos quaisquer”.

Até podem nunca ir, mas uma coisa eu aprendi a ver a Mortágua, sem som, isto da evangelização funciona mesmo.

Evangelizou-se e espalha a mensagem.

Ela que é gente com ideias próprias, a Carla, que a Mortágua não corre comigo.

Nunca, em trinta anos, sentido figurado, a tinha ouvido sequer pronunciar a palavra olímpicos, quanto mais rir à gargalhada com isso.

Ela ria à gargalhada porque corre.

Depois fui jantar, que o meu filho chegou do treino.

Acabei por não ouvir a Mortágua, mas prometo que amanhã vamos correr juntos, que domingo é o nosso dia.

Até porque o inverno ainda não chegou!

 

 

 

 

CONSEGUES SER MAIS GIRA QUE OS TEUS TÉNIS DE CORRIDA

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FOTO: MARIA QUARESMA

 

 

 

Fonte de inspiração...

 

A noite já vai longa, as folgas terminaram, amanhã, que já é hoje, é dia de trabalho, mas não podia voltar a quebrar a promessa.

Prometi, ontem, escrever todos os dias um texto, mais curto que o habitual, mas sempre uma história a tocar a hiper-realidade, que é como eu gosto.

Além do mais, começo a ter motivos diários para escrever.

A minha mulher começa a ser uma praticante de exercício físico, e isso é muito importante a vários níveis, eu começo, finalmente, a estar bem comigo e com a vida, que os últimos tempos não têm sido fáceis, mas nunca ninguém disse que era suposto serem.

Todos nós somos suficientemente fortes para sorrir enquanto travamos as maiores lutas. Eu, não.

Mas corro e isso faz-me vivo e mais forte.

Também me obriguei a colocar em prática aquilo que sempre soube que sería mais uma forma de me equilibrar na vida, a escrita.

Tal como quando corro ou pratico Muay Thai, também quando escrevo sou eu, no meu espaço próprio e intransmissível, nas minhas viagens solitárias.

No fim, sinto o mesmo, paz, alívio, e consigo até sorrir.

Confesso que as redes sociais me provocam desgaste, por vezes, mas nunca me deixo embalar pelo nível decadente, por vezes escrevo coisas que logo as apago ou as corrijo.

Mas as redes sociais são parte dos meus dias, por opção ou por obrigação, uma coisa leva a outra.

É na escrita que também despejo aquilo que contenho, provocado por insensibilidades, falta de decência, de humanidade, as coisas abjectas.

Misturo-as com pensamentos que me assombram.

Acredito que me comece a ser mais fácil, a partir de agora, escrever regularmente.

A esta hora a audiência é pouca, a minha audiência é sempre pouca, o meu blog não é um blog de massas, não nasceu para o ser, é um canto onde os sentidos descansam ou se sobressaltam, e é bom sinal, sinal de que são poucos aqueles que se deixam tocar, são poucos aqueles que estão atentos aos detalhes, que tudo determinam. Poucos, pessoas que me lêem e gostam.

A audiência é pouca, mas pela manhã partilha-se e a coisa dá-se.

Tenho, portanto, todos os motivos para escrever mais vezes.

Seja.

Domingo temos uma corrida.

A Carla e eu vamos a Viseu.

É um dia especial, por várias razões.

Vamos homenagear, à nossa maneira especial, um amigo, vamos correr juntos, pela segunda vez, uma corrida oficial.

A Carla vai correr os 10 kms da Wonder Running do Dão e eu a meia maratona.

A ver vamos.

Já pedi para trocar de prova, para correr junto dela, porque será a primeira vez – agora ela está em condições – de nos superarmos juntos, de puxar um pelo outro, garantindo sempre a sua corrida, como prioridade.

Decidi desistir da meia maratona para a ajudar a correr os 10 kms em 1.10h, afinal, há meses, na nossa primeira corrida juntos, fez 1.38h.

É ou não é um desafio daqueles?

É por isso, por isso vou correr a seu lado, porque temos um objectivo diferente de todos aqueles que tivemos nestes cerca de trinta anos juntos.

Correr 10 kms em 1.10h.

Só isso, mas isso é um objectivo que vai custar a atingir.

Só que a Carla e eu, juntos, atingimos sempre todos os objectivos nesta vida, até todos os desaires, e este objectivo é mais um, podia ser quem consegue estar mais tempos sem respirar, mas não, foi este que escolhemos.

Tenho a certeza que se o conseguir, ela rapidamente subirá para outros patamares.

Hoje, saímos para correr 8 kms, disse-lhe:

- “ Vamos começar a experimentar para domingo”.

Corremos, sem paragens, a não ser para beber água nos bebedouros do passeio ribeirinho, foi lá que corremos, junto ao rio.

O nosso rio.

E, mesmo quando as minhas pernas começaram a reclamar, porque ainda ontem correram 17 kms, bastou-me olhar para o néon rosa dos nike azuis, em movimento constante, para me convencer de uma coisa, para chegar a uma conclusão, mais uma, nestas minhas corridas:

Tu só serás exemplo para alguém se conseguires ir a seu lado, nunca à frente, nunca atrás.

Ela fez os seus 8 kms mais rápidos de sempre ( dois meses de treino), comigo.

Eu fiz um pouco menos que ela, mas mais do que podia ter feito.

Porque o tempo não conta.

É uma das raras situações da vida em que o tempo não conta, conta o afecto, o amor, a paz, a comunhão, a amizade até.

No domingo vai ser assim.

É que ela fica tão, mas tão mais gira, naqueles ténis de corrida.

 

A PRESSÃO DAS SAUDADES

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Foto: The Cat Run

 

 

Não era um segredo de estado, mas era um segredo meu, como tal não contei a ninguém, para não dar parte fraca.

Há um ano, cerca disso, aquilo que era um dos meus maiores prazeres começou a transformar-se em algo insuportável.

O exercício físico entrou, de forma constante, na minha vida, faz para o ano quatro anos.

Habituei-me, viciei-me, mas nunca me preocupei, comigo. Queria era correr.

Depois, o Muay Thai pegou-se-me, cheguei a treinar três a quatro vezes por semana.

Nos intervalos corria.

Por esta altura, em que escrevo, as minhas pernas já correram uns 5 mil e 200 quilómetros, em pouco mais de três anos.

Até que, há cerca de um ano, chegou a factura.

Nestas coisas dos créditos mal parados a factura vem sempre pesada.

Tanto quanto as minhas pernas.

Deve estar a pensar; grande maluco, masoquista. Louco.

Só um louco se permite correr mais de um ano em pleno estado de dor.

As minhas pernas chegaram a pesar todo o granito do mundo.

Os especialistas dizem-me que os meus músculos, o meu corpo, entraram em sobrecarga.

Traduzindo; os músculos das pernas inflamaram, de tal forma que começou a ser quase impossível correr.

Aquele temor que às vezes te invade, e se um dia deixo de conseguir correr, assaltou-me muitas vezes, até à última.

Não precisei de recorrer a especialistas para perceber que estava a dar cabo de mim.

As contas não batiam certo, entre o deve e o haver havia um abismo cada vez mais pronunciado.

Em passos largos, a minha alimentação não existia.

Um café e um iogurte e um pouco de azia aos primeiros momentos da manhã.

Um bolo – já não salivo – e um café duplo uma hora depois.

Depois, o dia era assim, uma sandes, uma coca-cola, imensos cafés.

Parece óbvio, menos a um parvalhão como eu, que não entrava combustível dentro do motor, as válvulas começavam a ficar entupidas, a combustão dava-se ao contrário, percorria-me as pernas, num calor intolerável, quedando-se em tendões retorcidos, que nem as massagens devolviam ao formato normal.

As tubagens de arrefecimento, de alimentação de combustível, tudo dentro de mim funcionava ao contrário.

A minha alimentação era como gasóleo dentro de um motor a gasolina.

Nas últimas semanas estava a correr dez quilómetros no mesmo tempo quando comecei, há três anos, com uma diferença; era um calvário doloroso.

No final de cada corrida o stress muscular transformava-se, por processos químicos do organismo, em stress mental, e físico, imediatamente.

Já nada estava a funcionar em mim.

Os treinos de Muay Thai apenas escondiam o problema.

São tão intensos que a libertação de substâncias químicas dentro do organismo cria um estado de profunda felicidade.

Mas, as dores estavam sempre presentes.

O que eu gastava não era devidamente reposto, a descompensação, a todos os níveis, estava a ser visível.

Consultei uma nutricionista, mudei hábitos alimentares, embora ainda seja um pecador, eterno pecador, comecei a ver resultados fisicamente, o exterior.

Só que, dentro de mim tudo continuava como antes.

Um cansaço extremo.

Houve vezes em que cheguei a parar uma semana inteira, raras, admito, e as dores desapareciam, até ao próximo treino, até à próxima corrida.

Bastava um quilómetro. Dores tão fortes, que eu sentia a lactose nos tecidos subir por mim acima até ao meu cérebro.

A mudança de hábitos alimentares, sobretudo comer de três em três horas, evitar algumas comidas e ingredientes, estava a dar resultados, mas não o suficiente para me devolver algum bem-estar, algum prazer, porque o esforço era sempre superior e a mudança tem pouco tempo.

Faz precisamente hoje uma semana que pensei desistir.

Saí para correr dez quilómetros.

Ao fim do primeiro pensei voltar para trás.

Armei-me em forte e segui.

As dores aumentaram de tal forma que tive que parar sete vezes para alongar, não consegui fazer um único quilómetro sempre a correr, a cada passada pensava voltar para trás.

Passou-me pela cabeça aquela frase batida: quando pensares desistir, olha para o que te fez chegar aqui!

Parei.

Parei, mesmo. Ri-me. Estas frases são engraçadas, elas fazem sentido, menos quando as barrigas das tuas pernas querem saltar para fora e a parte de cima das pernas carrega duas toneladas.

Ri-me, decidi-me, se é a última vez, vou cumprir o objectivo; chegar ao fim.

Pelo menos não saio pela porta dos fundos.

Nunca gostei da porta dos fundos.

Arrastei-me.

Cheguei a casa decidido; acabou o desporto.

O prazer tinha dado lugar a uma quase aversão.

Foi o coração que não me deixou afastar.

Nem com magnésio, nem com proteína, nem com anti-inflamatórios, com nada, nada me conseguia ajudar.

Um fisioterapeuta meu amigo, uma sumidade, aconselhou-me análises e crioterapia.

A decisão estava tomada, não a contei a ninguém.

Acontece que nesta vida das corridas e do desporto conhecemos pessoas que entram na nossa esfera pessoal, muitas delas cruzam-se nas corridas, entre milhares.

Um desses amigos tornou-se num corredor excepcional, em muito pouco tempo.

Pedi-lhe ajuda, nessa noite. Conselhos. Como é que ele conseguia recuperar-se, reagir, progredir.

Falou-me de um suplemento que reúne todos as substâncias que o organismo humano necessita, em um só comprimido.

Vitaminas, sais, substâncias termogénicas naturais, e mais uma série de coisas.

Era a minha última esperança.

Nessa mesma noite fui comprar e tomei a primeira toma.

Dois após o jantar, dois após o almoço.

Uma hora depois, como que por milagre, as minhas pernas começaram a normalizar.

Há um ano que não tinha uma sensação tão boa.

Ao segundo dia, as minhas pernas pareciam nunca terem corrido um único quilómetro na vida.

Achei aquilo rápido demais.

E estava a ser.

A toma era apenas um comprimido e não dois.

Refiz a toma.

Notei poucas diferenças, embora as tenha notado.

Continuavam estáveis, embora aqui e ali com algumas partes amassadas, mas o normal para quem voltou a correr dez quilómetros, sem dores.

O tempo de cada minuto continua longo, mas é muito pouco importante, isso do tempo, para mim.

Nesta fase interessa-me correr, meter muitos quilómetros nas pernas – hoje corri 17 – e rapidamente, sem dores.

E, assim está a ser.

Nem no início, quando comecei a correr, as minhas pernas estiveram como agora, leves, soltas, em paz.

Isto não sería motivo para um texto meu, não fosse a mudança que aconteceu, em uma semana, importante mudança.

É que domingo vou correr a primeira meia maratona deste ano.

A Wonder Run do Dão.

E, sei, porque conheço o meu corpo, o meu organismo, a minha cabeça, que vou chegar ao fim, e bem.

Faça o tempo que fizer.

Ok, eu conto.

Isto que aconteceu, o ter criado condições para me tratar, alimentando-me bem, tomando suplementos que restituem aquilo que perco, só ganha importância por causa dessa corrida.

Todas as corridas me marcaram. Todas elas. É como que uma participação num acto litúrgico, uma sessão transcendental.

Mas, houve uma corrida que me marcou muito.

Apesar de não estar em condições psicológicas para correr essa prova, decidi-me correr, era a minha forma, a única, de homenagear um amigo que tinha morrido, dias antes, numa corrida. Um grande amigo.

No fim dessa corrida, na Praça da Figueira, subi ao primeiro lugar do pódio e ergui os braços ao alto.

O resto guardo para mim.

Domingo, dia 25, a meia maratona do Dão é, tal como essa outra corrida, uma transposição, um tributo, uma homenagem.

Há uma semana estava fora de questão fazê-la.

Hoje, é uma certeza.

E isso deixa-me muito feliz.

Domingo faz 25 anos que morreu um dos meus “irmãos”, um dos meus “melhores” de sempre.

Tenho a certeza, Artur, que quando cortar a meta, já com a medalha ao peito, quando erguer os braços ao alto e olhar para os teus olhos azuis e esse sorriso filho da puta, que me vão correr as mesmas lágrimas.

Não precisamos de estar tristes para chorar.

Domingo vou lá, por ti.

Mas, deixo o último segredo:

Mesmo que fosse a rastejar, estaria lá de qualquer forma.

Não ia perder esta oportunidade de estar contigo durante umas boas duas horas e tal.

Que se lixe o tempo. O tempo corre.

E, Artur, vamos voltar a rir, a dar carôlos um ao outro, a ouvir e dançar Bruce, enquanto percorremos as ruas e as vielas de Viseu, mas por favor, não dispares, não estou em condições de te acompanhar.

Sempre foste muito mais ágil e bonito que qualquer um de nós os outros.

Vou lá ter contigo e vamos correr, por que a dor já não vive em mim, ela foi real, mas foi uma mera metáfora durante todo este texto.

Só o teu sorriso me invade.

Sem dor.

Mas, com saudade.

Está combinado.

Até domingo, maninho.

 

 

UM 737 CHAMADO SODADE

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Confesso, quando entrei no avião senti-me apreensivo. Não que a hipótese de um atentado a um charter cheio de portugueses tivesse probabilidades de acontecer, não por isso. O que me deixou apreensivo foi ler os avisos, no interior do avião. Estou habituado a ler "porta de emergência", por exemplo, em línguas que me são familiares. Nunca tinha viajado num 737 sem saber a que companhia pertencia o avião, muito menos havia feito alguma viagem num avião, com avisos da praxe, numa língua que, três dias depois, ainda não consegui identificar. Reparei na cara do comandante, através da janela do cockpit, quando subi a escada, cabelo claro, como a pele, reparei na hospedeira, que nos saudou em castelhano, em uma outra, que nos indicou os lugares, em português. Uma espécie de nações unidas, dentro de um avião rumo à ilha. Na verdade, a apreensão passou assim que deixámos Lisboa para trás. Ela só me voltou a assaltar a poucos metros da placa, no momento em que já se sentia o chão, ou imaginava sentir, e a sacana da asa do lado esquerdo inclinada, desalinhada. Pensei que a coisa não ia resultar - mas que sei eu de aviação? A coisa deu-se. Dá-se assim, todos os dias. É curioso. Todos os dias levantam e aterram aviões cheios de gente, que acha que vai para o paraíso. Somos aos magotes. Num dia chega um avião e deixa gente, o mesmo avião que leva gente de volta, nesse mesmo dia. No dia seguinte o mesmo. O fim de semana é uma espécie de placa giratória que leva e traz. O filme repete-se sete dias depois. Sete dias no paraíso, com tudo incluído. Mas, o paraíso é mais que belas praias, muito mais que o sol, que fazer nada dos dias. O paraíso é sempre onde estamos, quando somos, porque queremos. Eu gosto de andar aos magotes, sai mais em conta, até porque, diz-me a experiência de turista acidental que, mal chegados, cada qual vai à sua vida. Cruzamo-nos aqui ou ali, no bar ou no restaurante, no lóbie, no lóbie cruza-se muita gente. Muitos daqueles que, chegados a casa, vão ao Trip Advisor deixar a sua pegada ecológica e crítica. "O wi-fi falha em muitas zonas do hotel". "A comida tem pouca variedade, embora sejam asseados e simpáticos". "O pessoal é muito simpático, mas deviam cuidar melhor do deck da piscina, e garantir mais internet, em todas as zonas". O Trip Advisor é como as caixas de comentários dos jornais online, onde cada qual diz o que lhe apetece, por mais idiota que seja, sem se dar disso conta.

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 O mundo está pejado de idiotas, eu sou um deles, daqueles sem ideias, mas com opiniões sobre tudo, como se tudo soubessem sobre a vida, a sua e a dos outros. É a mais pura das verdades, o wi-fi praticamente não funciona. Obrigam as pessoas a desligarem-se do mundo, afinal não lhes chega os quatro canais portugueses, em sinal aberto, mais um ou dois canais cabo também portugueses. A internet está-lhes-nos na medula, nestes dias que correm. Como se a internet - que existe, lá iremos, e funciona bem - fosse um bem de primeira necessidade. Como se uma ilha, no meio do oceano, tivesse a obrigação de ter internet para todos, quando a ilha, no meio do oceano, tem uma única estrada alcatroada. Duas, vá!

Esta ausência do mundo, contradição suprema de quem procura desligar-se do mundo, era a crítica principal, o que me tranquilizou.

As outras (principais) críticas centravam-se na simpatia de todos os empregados do hotel, dos hotéis.image_2016-08-11_01-16-21.jpeg

E, faz sentido, sem turistas os hotéis estariam vazios, agradar-lhes é o mínimo. Mas, eles vão mais além, agradam e são profissionais, orgulhosos profissionais, o Modu, do Senegal, o Luis, a Angelic, o José, todos da Boa Vista.

A estes retive os nomes.

Impossível ficar com os nomes do todos os que connosco se têm cruzado, nestes dias, quentes e sem gente no horizonte.

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O lóbie do hotel tem horas de ponta, em duas ocasiões; quando chegam os magotes e partem os outros, e quando os magotes se sentam - até no chão - para apanhar rede.

Ainda anteontem, depois do jantar, sentei-me num outro ponto do hotel, onde alguém me segredou que internet funcionava mais rápida.

É por isso que ainda não publiquei nenhum texto, dos três que estou a escrever; não tenho como os partilhar, porque não tenho internet suficiente. Essa é a mais pura das verdades.

A que tenho gasta-me dez porcento de bateria para publicar uma simples foto no Facebook. E, até isto faz sentido.

Sendo que, bastou-me olhar para cima, e lá estava ele, por cima do sofá em que me tinha deitado; o router, ele  existe!

Mas, porra, que raio de críticas vão vocês escrever, no Trip Advisor, sobre a falta de internet no paraíso, quando o router tem mais ferrugem à volta que o Tolan, anos depois de ter naufragado em frente ao Cais das Colunas, em Lisboa.

Ainda ri sózinho, depois de desviar o olhar do router em direcção ao lóbie, onde um magote de viciados dava chutos de internet a conta-gotas.

A culpa era de uma senhora alta e loura que estava a fazer Facetime, e de uma miúda morena, que falava com alguém, através do Skype.

Pelo menos deu para escutar a queda d casal de irmãos, pré-adolescentes, experientes nestas coisas das comunicações digitais, presumo.

Segundo eles a culpa da internet não funcionar era daquelas duas pessoas, que sugavam o sinal todo.

Não sei se tinham razão, mas também não me dei ao trabalho de lhes explicar que, se já é difícil ter internet no meio do oceano, numa ilha onde muitas pessoas te pedem uma camisola, os calções, por não terem roupa, onde a palavra smartphone até assusta, apesar de ouvirem NGA e Valete, apesar de serem do Benfica, do Porto e do Sporting (de Portugal), apesar de terem festejado o título de campeão da europa, como se também eles fossem portugueses; basta reparar no cachecol da selecção, no tablier do táxi-combie, e não lhes expliquei, porque eles não têm nada que saber que o hotel tem routers espalhados, porque, apesar de tudo, o hotel não quer que falte nada aos hóspedes, só que o ar do mar translúcido e o vento Harmattan, que sopra seco e quente, vindo do deserto, dão cabo de qualquer router, por muito boa vontade e passwords que existam.

Aqui, respira-se calor, vento, mar, areia fina, alegria, confiança, segurança, só não há internet, no hotel, bem entendido.

Aqui, há 55 quilómetros de praias desertas, com dunas e águas cristalinas (posso confirmá-lo), como no paraíso.

O vento Harmattan encaixa como uma luva, no calor persistente e tórrido, a ilha é árida, pouco povoada, desprovida de bens materiais, apenas rica em harmonia, e em internet, fora do hotel.

"Ali é o hospital, o centro de saúde da vila, mas é melhor não ficar doente", disse-me o motorista do táxi que me levou a conhecer a terra.

E, a quantidade de outdoors, a caminho da vila, a que chamam cidade, com publicidade à internet 4G! Aos magotes.

Mas, aqui, o aeroporto só funciona durante o dia, enquanto há luz do sol.

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Os hotéis (ainda só três), construídos em extensão ( e não em altura), contrastam com o lado de dentro da costa, agreste, vulcânico, onde pastam cabras e vacas - que se contam pelos dedos, ao ponto de, ao fim de alguns dias, já lhes conhecemos o focinho -, em pastos de terra seca.

A quantidade de vezes que já tentei imaginar o que pastam as cabras e as vacas, no meio de tanta rocha.

Deixei as cabras a pastar erva seca  e fui visitar a vila.

A minha visita à vila incluiu um jogo de cinco contra cinco, numa praia mais pequena que a minha sala de estar, roda-bota-fora, areia misturada com pedras, campo com um poste no meio, e dezenas de crianças a banhos, ali ao lado, outras simplesmente deitadas na areia, a observar os "mais velhos", num torneio improvisado, daqueles em que há sempre três ou quatro equipas de fora, à espera, em que os jogos acabam quando uma equipa marca um golo.

Ficou o convite para voltar, em troca das duas garrafas de água que tinhamos.

Aquele livre, com a bola ao post impressionou. Eu tinha a certeza que ela ia entrar...

Quanto à internet, falem com o José, da Boa Vista, ou com o Modu, do Senegal, eles estão na recepção do hotel.

Um deles que vai ajudar, de certeza.

 

O José trouxe-me dois cartões lá da vila, quando o turno mudou, às quatro da tarde.

Fez uma chamada, activou os cartões, carregou-os com 1500 escudos ( 5 gigas), e ligou-me ao mundo.

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Por isso é que só agora escrevo. Não tenho tido internet.

O José matou a minha ideia do paraíso.

O José matou-me o vício.

Quando voltar a casa hei-de escrever uma crítica no Trip Advisor.

Vou escrever que a internet funciona, porque é ela que leva e traz a sodade, dentro de um 737, carregado com magotes de gente, que acha que o paraíso existe.

Acho que amanhã volto à vila, a ver se aquela bola ao poste entra na baliza.

Falta-me só festejar um golo com eles, naquele campo, na praia, mais pequena que a minha sala de estar!

FILHO DE PAI INCÓGNITO

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 As coisas sempre me aconteceram por acaso.

Eu sempre procurei aquilo que queria, mas há sempre uma dose de acaso, em tudo.

Foi o caso.

Nasci (profissionalmente) de pai incógnito.

Mais acaso que isto, para começo de conversa...

Hoje é quinta feira, 4 de Agosto de 2016, correcto?

Correcto!

Faz hoje 22 anos que comecei a aprender a fazer televisão, num cinema.

Aquele não era um cinema qualquer. 

Era o Berna, colado à igreja de Nossa Srª de Fátima, em Lisboa.

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EU, EX - ESTAGIÁRIO, ME CONFESSO

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(...continuação do texto anterior...)

 

Sexta feira.

Finalmente um fim de semana em casa.

Que o dia passe rápido que preciso de me desligar do mundo.

Olho para a agenda, parece-me um dia tranquilo, Marcelo fala, fala sempre, Costa também e Cristiano Ronaldo vai ser nome de aeroporto, consulto as várias equipas da redacção, verificamos directos, troco impressões sobre o alinhamento com a apresentadora, começo a alinhar o primeiro jornal que ia editar, o das dezasseis, enquanto a apresentadora, trata da maquilhagem, para depois se dedicar a escrita dos pivots, ajudando-me a ultimar o alinhamento.

Olho para o relógio, falta menos de um quarto de hora, começo a sentir ansiedade, apelo à memória recente, dos últimos dias, e penso; "vais conseguir, deixa-te de merdas, hoje é tranquilo".

Era o que eu estava mesmo a precisar, uma sexta feira tranquila, depois de uma semana e de um fim de semana totalmente alucinantes.

Estava tudo a correr tão bem que já só faltavam dois noticiários para saltar para fora da bolha e respirar ar puro.

Começámos o jornal, metemos ali dois directos, a coisa correu tranquilamente.

Enquanto isso já tinha alinhado o jornal das 17 e o das 18.

É assim, está um jornal no ar mas há outro um minuto depois desse acabar.

As coisas não aparecem na televisão por milagre, alguém tem que as fazer.

Estávamos em velocidade de cruzeiro.

A régie estranhamente tranquila.

A escuridão da régie, cortada por luzes quentes, estrategicamente colocadas e pela luz dos ecrãs, convida a alguma tranquilidade, estranha tranquilidade, intimista, que acaba no segundo a seguir, quando tudo se transforma, quando o céu é inferno, onde há sempre um deus e um diabo.

E um mediador.

 

EU, ESTAGIÁRIO, ME CONFESSO

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É um facto: sob pressão, em situações de stress extremo, fico anestesiado.

Descobri-o hoje, na maior prova de fogo profissional, desde que me lembro.

Perdi a conta às horas.

Sentei-me finalmente no sofá.

Estiquei as pernas, em cima da mesa de centro, quadrada como este mundo cada vez mais caótico, liguei o computador e aqui estou eu, decidido a confessar-me.

Eu, estagiário, me confesso. Isso.

Em Agosto faz 23 anos que tenho carteira profissional de jornalista.

Em Agosto faz 21 anos que trabalho ininterruptamente em televisão.

Entendidos quanto a este aspecto da longevidade, confesso-me;

Ao longo deste tempo todo é fácil perceber que já fiz praticamente todas as tarefas que competem a um jornalista de televisão.

Desde um simples ticker, um lead, um off, uma peça, uma reportagem, uma grande reportagem, directos, muitas e muitas horas em directo, apresentação, praticamente tudo eu já fiz, ao longo destes anos.

Há, ainda, algumas tarefas que não farei, ser chefe ou director, por exemplo, isso não.

Havia no entanto uma tarefa, o último patamar antes tarefas que em cima mencionei que nunca tinha executado; editar jornais. Hora-a-hora, sem levantar o rabo.

Há muitos anos, lá por volta do ano 2000, quando era editor-adjunto no Desporto, editei programas, de desporto.

Realidade totalmente diferente se comparada com a edição de jornais, de hora-a-hora, sem sequer sair da régie.

Isso eu nunca tinha feito.

Nem me passava pela cabeça fazer, porque as minhas ideias quanto à minha carreira não passam por aí. Elas há muito que estão definidas.

Quando, há alguns meses, me escolheram, uma ou outra vez, para editar jornais durante manhãs e tardes, não foi uma questão de aceitar, escolheram-me e competia-me cumprir.

Eu entendo que numa organização cumprem-se instruções.

Lá fui.

Editei jornais durante alguns dias, espaçados no tempo.

Não fazia ideia de como aquilo funcionava, a dinâmica, a agilidade, a capacidade de decidir, a tensão e o stress, o auto - controlo, não fazia ideia, as sinergias supersónicas, os erros e os reparos ainda mais supersónicos.

A minha ligação com a régie sempre foi feita do outro lado.

Quando apresentava notícias sentia, por vezes, a tensão na régie, mas ela não passava para o estúdio mais que cinco porcento.

Agora não.